O ano é novo, mas vou falar dos velhos, os velhinhos que já estão
aí e os velhinhos que eu e você, caro leitor e cara leitora, seremos um dia.
Numa entrevista com o genial pensador
italiano Domenico De Masi que fiz ano passado junto com Octávio Costa, na casa
do Roberto D'Ávila em Ipanema, De Masi me chamou a atenção quando falamos de
problemas com a previdência social, a partir do aumento da população mais velha
em todo o mundo. Em tom quase de bronca, no melhor estilo italiano hiper-exaltado
de se expressar, ele me disse mais ou menos o seguinte, não exatamente com
essas palavras: “Mas por que o homem tem que se aposentar aos 65, 70 anos,
justamente quando ele está atinge o auge de sua capacidade intelectual, de
conhecimento e de experiência?? Ele ainda pode, e deve, trabalhar bastante! É
uma burrice as empresas e os governos não aproveitaram esse capital humano”.
Ele está certo, mas a realidade do mercado
de trabalho, aqui no Brasil e em outros países, é outra. Eu já fui preterido
numa seleção de trabalho porque já havia passado dos 40 anos, e, indiretamente,
o empregador deixou transparecer que considerava melhor um gestor com até 35
anos, apostando mais na “fórmula da juventude” do que na experiência do
candidato. Hoje, aos 56 anos de idade (num corpinho de 56 mesmo, mas com
espírito e disposição para trabalhar de 35, 38 anos de idade), sei perfeitamente que
várias portas do mercado de trabalho já se fecharam para mim. Quem passa dos 45
e não criou fama no mercado, não se tornou conhecido como referência
profissional, num nível de celebridade da categoria, é um velho que poucos
querem contratar. E ninguém gosta de contratar velhos, há um forte preconceito no
mercado. Gente jovem é mais bonita, mais bem disposta, mais alegre, menos
ranzinza, com menos verdades absolutas. Mesmo que não tenha metade da
experiência profissional da turma de meia idade.
Bom, aí me deparo com uma excelente
entrevista, excelente mesmo, de um gerontologista, o carioca Alexandre Kalache,
publicada na coluna da Sônia Racy, do Estado
de S. Paulo, no dia 29 de dezembro e assinada pela repórter
Mirella D’Elia. Vou resenhar os pontos principais e recorrer bastante às aspas
do Dr. Kalache, que são muito boas.
A primeira informação relevante que Dr.
Kalache traz – que eu e vocês provavelmente já ouvimos de outras formas e com
outros números – é a de que nos próximos 35 anos, em menos de meio século, a
população brasileira na terceira idade vai saltar de 12% para 30% da população total. “Inglaterra,
França, Alemanha levaram 80 anos para isso”. E por que isso acontece? “As
pessoas estão vivendo mais, houve um aumento rápido da expectativa de vida.
Conseguimos controlar as mortes precoces – é bem mais raro hoje morrer de
sarampo, poliomielite, tuberculose. Muita gente está deixando de morrer por
causa das cirurgias cardíacas, dos medicamentos para cuidar melhor da
hipertensão, do diabetes”. Junto a isso,
a queda da taxa de fecundidade tem sido vertiginosa, tem bem menos gente tendo
filhos – aumentando assim a proporção de adultos na população. “Quando eu saí
do Brasil para estudar na Inglaterra, em 1975, o número médio de filhos era
5,7. Hoje está em 1,7”.
Aí o Dr. Kalache lista uma “receita” muito boa para se ter
qualidade de vida na velhice. Ele diz que os velhinhos precisam de 4 capitais.
O primeiro capital é a Saúde. Para não morrer cedo, ensina, há quatro caminhos:
“...não fumar, manter uma deita saudável, praticar atividades físicas e não
beber demais”. Esses caminhos previnem ou adiam problemas crônicos de saúde como
diabetes e as doenças cardiovasculares e pulmonares. Só que, alerta, isso não
depende só do cidadão. “Você pode morar num lugar poluído, não sair nas ruas
por causa da violência, não ter dinheiro para uma academia... Não é fácil”.
O segundo capital necessário para a qualidade de vida da velhice é
o financeiro. “Sem dinheiro no bolso, não dá para fazer escolhas. Como é que alguém
vai comer brócolis se não tem dinheiro nem para a farinha de mandioca?
Infelizmente o brasileiro não costuma se organizar dessa forma. Acredita que,
de algum modo, as coisas vão se ajeitar”.
Vamos ao terceiro capital, que é o intelectual. “Nada de parar.
Quem desistir de aprender, vai dançar”. Disse tudo. Eu mesmo, no auge dos meus
56 aninhos recém-completados, já começo a sentir isso. Quando estimulo o
cérebro e o pensamento, exercito a busca e a descoberta de caminhos diante de
um desafio, a abertura intelectual para aprender coisas novas, quando pratico o
questionamento das minhas verdades absolutas (minha zona de conforto intelectual), deixo os preconceitos de lado
para perceber que o outro pode ter um ponto de vista interessante, e até mesmo
estar certo – e eu, errado, por mais que me ache dono das minhas verdades –
sempre que exercito essas práticas sinto claramente que me rejuvenesço, que o
jovem cansado que está dentro de mim de repente desperta e quer mais.
Uma das formas de exercitar meu capital intelectual é jogar um pouco
de Kakuro todo dia. (Nunca ouviu falar? Procure algum Kakuro online na internet,
há vários, descubra como se joga, as regras são muito simples, e comece a
praticar.) Ler livros, ver filmes, ir a um museu, pesquisar um tema no Google...
há várias formas de exercitar o intelecto. Ler, regularmente, boas publicações da imprensa como as revistas Trip e Piauí, que estimulam o pensamento e a crítica. Se der para fazer um curso, melhor
ainda. Até ver bons seriados de TV made in USA ou mesmo brasileiros estimulam o
pensamento. Claro, é preciso dispensar o lixo televisivo e ver seriados que
explorem mais a inteligência, inclusive estética. The Newsroom, que passa na HBO, e The Good Wife, no Universal Channel, são bons exemplos. Mas pode
ser também Big Bang Theory ou os
veteranos Friends e Two and half a man, da Sony, todos comédias
geniais. Comédia, sim... Quem não sai rejuvenescido após ver um bom filme de Woody Allen?
Tem outra maneira que vocês podem achar piada, mas não é. Meus posts
no Facebook costumam ser bem pensados, tem sido uma forma de exercitar meu
poder de comunicação pelas palavras (e também meu poder de crítica em relação à
qualidade – de conteúdo e estética – do que estou querendo comunicar). E, algumas
vezes, também é um exercício de meu poder de edição jornalística, quando, por
exemplo, busco uma imagem para ilustrar o que estou falando. Escrever esses
posts aqui no blog também: é um puta estímulo para organizar meu pensamento
sobre um tema.
Aí vamos ao quarto e último capital para a qualidade de vida dos
velhinhos, que é uma área que, modestamente, já há muitos anos venho praticando
e às vezes me supero: o capital social. E aí o Dr. Kalache manda muito bem na
entrevista: “Não dá para ser ranzinza, envelhecer sem amigos e mantendo más
relações com seus familiares. Tem gente que passa a vida inteira sem acumular
esse capital. Coloca tudo no trabalho. E, quando se aposenta, bota o pijama e
fica lendo jornais. Não dá. É preciso sair do ambiente de trabalho, criar
laços, interesses, cultivar hobbies, fazer trabalho voluntário. Se quiser
trabalhar, tudo bem – mas o importante é manter o bom humor. É preciso, além
disso tudo, ter a percepção de que você tem direitos. Se você percebe que tem
direitos, envelhece gritando. Pode até não chegar a esses direitos traduzidos
em serviços e vantagens, mas vai gritar por eles”.
Gostei. Falou e disse muito bem.
No final
da entrevista, vem uma parte que eu não conhecia e que me incomodou: o que os
governos vêm fazendo para melhorar a velhice. Quase nada. Vou reproduzir as
aspas dele mais uma vez, porque dizem tudo.
“Simplesmente não se fala nisso. Antes havia uma política nacional
do idoso, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento Social, e uma equipe para
lutar pelo estatuto. Agora, a coordenação passou para a Secretaria de Direitos
Humanos e a equipe encolheu – hoje só existe uma pessoa fazendo isso (!!). E, nos últimos dois anos, apenas
10% do orçamento foi gasto. Não há uma prioridade. Na última campanha
eleitoral, praticamente não se falou no idoso, nem de reforma previdenciária,
absolutamente essencial. (...) O problema não é que o Brasil esteja
envelhecendo, é que não há uma política adequada para isso.”
Tem todo um problema previdenciário envolvido, que ocupa boa parte
da entrevista. “A conta não fecha. Temos um milhão de funcionários públicos
aposentados e menos de um milhão contribuindo para manter esse custo”. Ele
critica, justamente, a presidenta Dilma Rousseff por falta de políticas para a
terceira idade, mas tampouco me lembro de Aécio Neves ou Marina Silva se
dedicando ao tema em seus programas eleitorais. (Me lembro, sim, que Sérgio Cabral
começou sua carreira política, como deputado estadual, fazendo campanha em
defesa dos velhinhos. E ganhou voto pra caramba da terceira idade e de seus
parentes mais jovens...)
Pra fechar, mais uma vez as aspas do Dr. Kalache, que são precisas: “É preciso uma política que atenda às mulheres que chegam aos 80 anos
e não têm condições financeiras, não têm um marido ao lado, os filhos saíram de
casa e ficam abandonadas. O governo diz que a obrigação é da família. Mas de
que família estamos falando se a família, na atual sociedade, está fragmentada?”.
Achei um link com pdf da entrevista completa:
http://portal.newsnet.com.br/portal/bhg/pdf.jsp?cod_not=1099635
http://portal.newsnet.com.br/portal/bhg/pdf.jsp?cod_not=1099635
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