segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O espaço da música nova

A música autoral de qualidade está numa luta difícil para encontrar espaço na cultura brasileira e, principalmente, no coração dos consumidores de cultura.

Quem me alertou disso foi um grande compositor e agitador cultural, Carlos Bezerra, artisticamente conhecido como Totonho e os Cabras, que é meu amigo de mais de dez anos. Consegui matar as saudades dele numa mesa de bar há pouco mais de um mês e ele, que é do meio e, mais do que isso, tem uma cabeça pensante bem inteligente e uma visão ampla sobre a música brasileira, me deu um panorama que eu ainda não tinha parado muito para pensar. Me deixou com a pulga atrás da orelha e comecei a pensar sobre isso.

É o seguinte. A maioria do que ouvimos em rádios que tocam música brasileira com alguma qualidade, como a MPB FM do Rio, são canções antigas. Toca-se muito Chico Buarque, Milton Nascimento, Gil, Caetano, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, João Nogueira, Rita Lee, Jorge Ben, Tim Maia, Djavan, Luiz Melodia, Elis Regina, Clara Nunes, Gonzaguinha, João Bosco, Gal Costa, Bethania, Lulu Santos, Tom, Vinícius, Novos Baianos, Alceu Valença, Zé Ramalho, Renato Russo, Paralamas, Titãs, Wilson Simonal, Adriana Calcanhoto e por aí vai – felizmente temos uma MPB riquíssima que nunca nos deixará na mão. Muitas músicas maravilhosas e deliciosas de se ouvir. Mas todas melodias de 20, 30, 40, 50 anos atrás que, merecidamente, tornaram-se clássicos da nossa música e precisam ser sempre ouvidas. Mas se a maioria é de clássicos, aonde está a renovação?

Pensando primeiro em rádio, alguma coisa mais nova aparece já há algum tempo, mas mistura canções de gosto duvidoso, como as de Jorge Vercilo, com preciosidades como as novas músicas de Rodrigo Maranhão – que toca muito, mas muito menos nas rádios e TVs do que Jorge Vercilo (que, para meu gosto particular, toca demais da conta...). Tem músicas de Zélia Duncan, que compõe coisas boas, tem Zeca Pagodinho que sempre apresenta composições de sambistas novos, tem também Isabela Taviani e Ana Carolina, que fazem músicas que vendem mas que dividem opiniões. Outros que conseguem emplacar músicas novas são cantores de grande sucesso, como Seu Jorge, Maria Rita e Maria Gadu. Esses têm apoio forte das gravadoras e o jabá garante que toquem o suficiente para o ouvinte fixar as melodias e letras. Nando Reis acho que é um caso à parte, porque faz canções que rapidamente empolgam e se tornam conhecidas (eu acho chato... mas muita gente boa ama). Lenine é outro caso especial, um puta compositor que faz sucesso cantando suas inéditas. Beth Carvalho, em seus últimos discos, vem tentando emplacar compositores novos de samba, mas não teve sucesso – provavelmente não tinha o mesmo apoio comercial. Tem ainda um lado que toca nas rádios que eu literalmente não ouço, Anitta, Valesca Popozuda, Naldo, são composições novas, sim, mas bem comerciais. Tampouco ouço rádios de sertanejos, pagodes, funks e de música norte-americana.

Bom, nos palcos tem música nova sendo divulgada em shows de Criolo, Suricato, Céu, Emicida, Casuarina, Pedro Miranda, Moyseis Marques, Toninho Geraes, há uma produção numerosa tentando se encaixar no "mercado". Edu Kriger, um puta compositor, vez em quando aparece aqui e ali com suas músicas, que são maravilhosas. Mas o "mercado" não está muito aberto para coisas novas de qualidade fora do modelo comercial rádio-tv-cd-dvd-shows montado para fazer dinheiro com a cultura. E música conhecida, que as pessoas curtem, gera retorno financeiro mais rápido do que composições novas. Peguei um cd-dvd produzido (e muito bem) pelo Canal Brasil, chamado "Cantoras do Brasil", que é bom exemplo disso. Traz a nova safra de intérpretes femininas mais ou menos conhecidas no circuito "alternativo-independente", como Mariana Aydar, Nina Becker, Tulipa Ruiz e Tiê, junto com outras que nunca ouvi falar, como Mallu (será a menina do Marcelo Camelo?), Lulina, Blubell e Lourdes da Luz. Acrescentou a Gaby Amarantos (que é outra que conseguiu emplacar músicas novas no dial das rádios) e a atriz Camila Pitanga – que eu nem sabia que cantava... E aí, qual o repertório que elas cantam? Clássicos da MPB que fizeram sucessos nas vozes de Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Ademilde Fonseca, Clementina de Jesus, Aracy de Almeida, Sylvia Telles, Elis Regina, Celly Campelo, Nara Leão, Maysa e Miriam Batucada. Um time de responsa! Mas, de novidade, apenas os arranjos e as vozes novas... Clássicos vendem mais fácil e trazem menos risco comercial do que música nova e desconhecida. Em tempo: a maior parte do disco-dvd é muito boa, ótimos arranjos-adaptações e interpretações.

Rodrigo Maranhão, que já citei, Totonho (que entende muito mais de música do que eu) considera um compositor hors councours, muito acima da média. E é mesmo, belíssimas composições. Nos últimos tempos, consegui ouvir cds de conhecidos que estão fazendo coisas autorais de muita qualidade, Matheus Von Kruger, Gabi Buarque, Luciana Coló. E aí me deparei com minha própria dificuldade em ouvir coisas novas. Ouvi os três e gostei muito, me admirei. Também ouvi as músicas de um pernambucano muito legal, Jades Sales, que conheci cantando no Arraiá do Bem. Adorei. Há uns dois anos, Simone Lial, grande amiga e cantora, lançou um belíssimo álbum de inéditas, a maioria de autores novos, curti muito. 

Mas... nessa vida corrida que montamos pra nós mesmos, hoje eu acabo ouvindo música enquanto estou no Facebook, trabalhando minhas fotos (algo que exige concentração), lendo notícias, pedalando, tomando banho, ou seja, fazendo outra coisa. Não dedico um tempo específico para dar a devida atenção para perceber e sentir o que tem de bom em uma música que eu nunca ouvi. 

Antigamente, quando saía um disco novo, eu me sentava para ouvir, atenção totalmente dedicada à obra musical. Se era um disco novo do Chico, ouvia duas, três, quatro vezes, e depois ainda me reunia com amigos para ouvirmos juntos e conversar a respeito. Não havia internet, Facebook, Youtube, microcomputador. A gente literalmente parava em casa apenas para ouvir música – assim como paramos no museu diante de uma obra de arte para apreciá-la calmamente. Hoje, a gente ouve música enquanto se faz a comida, arruma a casa ou lê o jornal, como um elemento acessório a outra coisa, e não com o objetivo específico de se ouvir e apreciar a música. Deixamos isso para quando vamos num show – e, mesmo lá, já me flagrei perdendo tempo de ouvir música para fotografar e postar imagens do show pelo celular... 

Na prática, hoje, efetivamente, prefiro ouvir algo que já conheço enquanto estou navegando no micro. É mais produtivo (e menos musical...). E raramente paro tudo apenas para ouvir um disco novo. Bad habit, eu sei, mas não sabia... Tracei planos para ficar umas duas horas só ouvindo discos. Qualquer hora dessas, dou notícias.




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