Esse é um novo mantra no ambiente das grandes corporações. E
também de pequenas e médias empresas de vários tipos, que têm em sua força de
trabalho grande número de profissionais cuja principal ferramenta de ofício é um computador
ligado à Internet.
Algumas grandes empresas já anunciaram oficialmente que vão
adotar o home-office, em diferentes níveis. A pandemia de Covid-19 ainda não
acabou e por isso todavia é cedo para afirmar que todas as declarações corporativas
de primeiro momento irão se cumprir, a coisa está muito dinâmica e fatos novos
podem surgir para impor mudanças de rumo.
Mas são muitas as evidências apontando para esse mantra. Há
poucos dias, num webinar (neologismo que também veio para ficar) promovido pela
Abracom e pelo Comunique-se sobre “Impactos da Covid-19 na Comunicação Corporativa”,
os participantes, líderes de importantes agências de comunicação e a diretora
head de Comunicação do PayPal, Tânia Magalhães, relataram que várias empresas
estão constatando – com surpresa – que a produtividade de seus funcionários
aumentou com o home-office. E havia consenso entre eles de que as empresas
partirão efetivamente para o home-office, em maior ou menor escala e sem um
padrão comum pré-definido. Cada uma está ensaiando seus próprios modelos.
Do que ouvi nesse webinar – e também li em diferentes matérias e artigos de
opinião, e ouvi de conversas com amigos – percebo que há certa segurança em se dizer que
só pequenas empresas, e de determinados setores (como TI), conseguirão 100% de
home-office. Ao mesmo tempo, vários modelos de home-office parcial vêm sendo
cogitados. Por exemplo, colocar parte da força de trabalho para trabalhar em
casa full-time, num percentual que
vai variar de empresa para empresa (de acordo com as características de cada
negócio). Um terço, metade ou dois terços da força de trabalho em home-office
são algumas ideias que vejo repetidas por aí.
Outro modelo sendo discutido é a colocação de uma grande
parte dos funcionários em home-office parcial, por 3 a 4 dias por semana. Isso
reservaria ao menos um dia para reuniões físicas e resolução de eventuais
problemas burocráticos que podem exigir a presença do funcionário, além de
promover maior integração entre colegas que trabalham remotamente. Já vi um
esquema assim uns oito anos atrás, com a equipe de comunicação digital (mídias
sociais) de uma agência que prestava serviço ao governo do Estado, onde eu
trabalhava. Os “funcionários” da agência eram nerds especialistas em mídias
sociais que trabalhavam de casa. Porém, uma vez por semana, na sexta à tarde,
se reuniam na agência com seu coordenador por várias horas
para alinhar o trabalho e receber orientações.
Esse webinar revelou-me muitas coisas interessantes sobre o
tema, informações que coincidentemente eu complementei com outras ouvidas no
mercado. Por exemplo, o aumento de produtividade aconteceu para razoável maioria,
mas não com todos. E as exceções são importantes, especialmente para empresas
onde seu principal recurso são os profissionais qualificados e já treinados
para o que precisam.
Ouvi pela primeira vez a expressão “hell-office”, um
trocadilho muito inteligente com home-office. É aplicado principalmente a mães
com filhos e que tiveram que começar a trabalhar isoladas socialmente, mas com as
crianças dentro de casa. Da noite para o dia, essas mulheres foram forçadas a se multiplicar em três neste
período pandêmico: para trabalhar para a empresa (1); para cuidar das crianças
em tempo integral e atuar como professora improvisada de apoio às aulas online
(2); e para gerenciar a casa no modo isolamento – limpeza sem empregada,
compras delivery que tem que ser lavadas ao chegar, providenciar comida para
todos etc. (3).
Outro grupo detectado que não aumentou a produtividade é o
de profissionais que funcionam melhor tendo a convivência física com colegas de
trabalho. Sou um desses. Apesar de estar há muito tempo trabalhando de casa,
adoro um escritório, um crachá, sair de casa para trabalhar, sou bem mais
produtivo e motivado no ambiente corporativo. Em casa, me distraio muito, é mais difícil
me concentrar no trabalho. Entendo perfeitamente essa minoria.
Mas a coisa não para por aí. O home-office traz muitos outros desafios para as empresas.
Kiki Moretti, fundadora e CEO da In Press (uma das maiores agências de
comunicação do Brasil), contou no webinar que teve que providenciar a remessa
de cadeiras do escritório da sede da empresa para a casa de seus colaboradores. Coincidentemente, ouvi de uma amiga que a filha dela, que trabalha aqui no Rio para
uma multinacional com sede na Califórnia, recebeu da empresa um depósito de R$ 1.300
para comprar uma cadeira de escritório decente para trabalhar em casa.
Essa preocupação faz todo sentido. Pouquíssimos tinham um escritório em casa,
adequado para ficar 8 a 12 horas por dia sentado em frente ao micro, com ar
condicionado, cadeira confortável, mesa do tamanho adequado, tela grande de
computador, máquina de café etc. De repente, muitos se viram bastante
desconfortáveis trabalhando de casa, em mesas e cadeiras improvisadas, com luz inadequada. As costas e outras partes do corpo começaram a reclamar. Alguns
sequer tinham computador rápido como os que usavam no trabalho, ou com memória e sistema operacional que aceitasse os softwares utilizados pela empresa.
Futuramente, não me surpreenderia se questões médicas
aflorarem como fruto do longo isolamento. Não apenas nas colunas, mas tendinite
nos pulsos e problemas de visão – sem falar em questões de saúde mental, pois
alguns agora estão sozinhos em casa, não apenas isolados, mas totalmente solitários.
Por exemplo, passar de repente de um monitor de 20 e poucas polegadas com boa
resolução para a telinha de 14 polegadas e resolução baixa dos laptops pode
ocasionar, a médio e longo prazos, problemas de vista cansada e ao mesmo tempo afetar
a cervical (a pessoa força o pescoço para frente, para enxergar melhor o que
antes estava acostumada a ver em formatos maiores). Sem contar que muitos
laptops pessoais que viraram micros profissionais da noite para o dia são bem
mais lentos e obrigam o funcionário a ficar mais tempo na frente do computador, causando estresse mental (ninguém tem muito saco para esperar máquinas que demoram a abrir programas e documentos...).
A ergonomia, que as grandes empresas adotaram fortemente com programas regulares para evitar funcionários de
licença médica com tendinite e problemas de coluna, na casa de cada um torna-se
uma ciência sem controle. Todo um esforço de anos das áreas médica e de recursos
humanos das corporações para melhorar a qualidade de vida vai por água abaixo
no novo escritório caseiro.
Os desafios trazidos pelo home-office obrigatório extrapolam
as questões de saúde e de qualidade e vida. Por exemplo, a hora extra.
Corporações maiores têm controle da hora extra através das catracas eletrônicas
que registram horários de entrada e saída de todo mundo – que irão determinar
as compensações, seja com o pagamento da hora extra trabalhada, seja com bancos
de horas. Mas como controlar o período trabalhado no home-office além do turno de 8
horas previsto em lei? Há questões financeiras também. Em casa, numa cidade
como o Rio de Janeiro, o funcionário gastará mais ar condicionado e terá a
iluminação ligada por mais tempo, aumentando sua conta de luz. A empresa
compensará isso de alguma forma? E os tíquetes refeição, que em algumas
empresas são relativamente altos e funcionam quase que como um benefício extra,
serão suspensos? E nas empresas que tiverem parte da equipe em home-office, e
parte no escritório oficial, uma parcela dos funcionários ganhará tíquete
refeição, mas a outra parte não? A legislação trabalhista permite isso? A
judicialização é um risco real para o home-office, não a ponto de impedi-lo,
mas pode dar alguma dor de cabeça e gerar despesas inesperadas com advogados trabalhistas.
A economia em geral também sofrerá baques.
Empresas farão muita economia de custos – de luz, de móveis de escritório, de
serviços de limpeza e manutenção, de aluguel de imóveis, de tíquetes refeição, de material
de papelaria, de gastos com impressoras, até no cafezinho e no papel higiênico irão economizar. Mas
o que significa isso para uma região como o Centro do Rio de Janeiro, ou a
Barra da Tijuca, onde se concentram a maioria das grandes e médias corporações
da cidade? Imagine se 40% dos trabalhadores ficarem em home-office.
Proporcionalmente, na mesma região onde trabalham devem cair em 40% as vendas
dos restaurantes a quilo, de fast-food e de cafés/docerias; das papelarias; das
lojas de roupas e sapatarias; dos quiosques de produtos de informática; das
drogarias; das lojas de telefonia celular; dos barbeiros e cabeleireiros; do
comércio de produtos naturais. Além disso, os donos de imóveis corporativos
terão grande prejuízo, suas salas e andares passarão a ser elefantes
brancos que ninguém irá querer alugar. E logo suas propriedades (que
continuarão gerando gastos de IPTU e condomínio) ficarão abandonadas e poderão se
deteriorar. Por outro lado, espaços no estilo coworking serão alugados
para reuniões, gerando novos negócios imobiliários – porém numa escala muito menor do que o aluguel de imóveis empresariais.
Um ex-banqueiro que eu conheço há uma semana me disse que
alguns costumes jamais serão abolidos pela febre do home-office, especialmente
o face a face para discutir e fechar negócios financeiros e empresariais. Ninguém
fechará um negócio de milhões de dólares pela internet, me assegurou. Outro
amigo meu, veterano executivo do mercado de seguros, me chamou a atenção para questões de compliance que
exigirão a presença física de alguns profissionais dentro da empresa, para que
sua atuação possa ser devidamente monitorada. Nem toda função pode ou vale a
pena ser terceirizada, isso ainda é fato. Serviços públicos, por exemplo, acredito
que terão menos afã de partir para o trabalho remoto, seja por razões
políticas, seja por motivos legais. E, para completar, temos ainda a incerteza
sobre o futuro da epidemia, com muitas perguntas sem resposta sobre as
vacinas e o risco (sempre presente) de o vírus SARS-CoV-2 sofrer alguma mutação
e atrapalhar a busca pela imunização mundial, estendendo ainda mais os períodos
de isolamento social.
Outra questão pendente é a data da “volta à normalidade”,
que permitiria (em tese) o fim do home-office, ou sua assunção definitiva por parte das
empresas. No webinar, a diretora do PayPal disse que sua empresa já avisou a seus
funcionários em toda a América Latina que antes de outubro eles não voltam à empresa,
ficarão trabalhando de casa. A TIM Brasil por sua vez fixou a continuidade do
home-office para pelo menos até o final de agosto. Uma advogada amiga me
contou que seu escritório no Centro do Rio vem trabalhando com metas quinzenais,
mas a cada quinzena adia por mais 15 dias o fim do home-office e a volta de
todos à sede da empresa. E aí nessa volta há uma questão crucial. Quem garante
que o retorno à atividade normal é segura, em termos de risco de contaminação da
Covid-19? Certamente governos municipais, estaduais e até o Ministério Militar
da Saúde não garantem nada, por mais tempestivos que estejam sendo em acelerar
o relaxamento da quarentena. O risco cairá nas mãos dos executivos e donos de
empresas. Por exemplo, se um profissional se contaminar 15 dias depois de ter voltado
ao escritório, ele poderá processar a empresa e/ou seu gerente por tê-lo colocado em risco de
uma doença que pode ser mortal.
Outra questão chave são os grupos de risco. Minha amiga advogada possui duas doenças autoimunes, o que a colocam no grupo de risco, mesmo tendo pouco mais de 30 anos de idade. O mesmo acontece com outra amiga que trabalha no BNDES e que tem 40 e poucos anos. Uma prima minha, que é psicóloga hospitalar, está com 67 anos e tem um histórico de problemas respiratórios. Ela encontra-se diante do dilema de se aposentar de vez, ou voltar a trabalhar no Hospital Universitário, que é referência do tratamento à Covid em sua cidade. Ela quer continuar trabalhando, tem grande experiência e sabe que ainda pode atuar e ser útil por muitos anos. Mas só o fará se o hospital assegurar que ela terá condições de exercer funções remotamente, sem ir ao local de trabalho, onde o risco de contaminação é bem alto. Baixar na UTI presa a um respirador com risco iminente de morte definitivamente está fora de seus planos.
Outra questão chave são os grupos de risco. Minha amiga advogada possui duas doenças autoimunes, o que a colocam no grupo de risco, mesmo tendo pouco mais de 30 anos de idade. O mesmo acontece com outra amiga que trabalha no BNDES e que tem 40 e poucos anos. Uma prima minha, que é psicóloga hospitalar, está com 67 anos e tem um histórico de problemas respiratórios. Ela encontra-se diante do dilema de se aposentar de vez, ou voltar a trabalhar no Hospital Universitário, que é referência do tratamento à Covid em sua cidade. Ela quer continuar trabalhando, tem grande experiência e sabe que ainda pode atuar e ser útil por muitos anos. Mas só o fará se o hospital assegurar que ela terá condições de exercer funções remotamente, sem ir ao local de trabalho, onde o risco de contaminação é bem alto. Baixar na UTI presa a um respirador com risco iminente de morte definitivamente está fora de seus planos.
O que fará uma empresa diante de um trabalhador que diz que
não irá voltar ao trabalho porque está em grupo de risco? E de onde virá a
informação de que já é seguro ou não voltar ao trabalho? Quem irá bancar isso?
A empresa? Os governos? Desconfio que a decisão vai acabar é nos tribunais...
Em resumo... Há o mantra, o home-office vem aí, e vem forte. Mas também há um caminhão de incertezas sobre o futuro e seus reais impactos em
toda a cadeia econômica. E há ainda inúmeros desafios que as empresas e os trabalhadores
terão que encarar e resolver. Muitas vezes, com o auxílio do nosso moroso e complicado
Judiciário.
Quem viver, verá...