segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O espaço da música nova

A música autoral de qualidade está numa luta difícil para encontrar espaço na cultura brasileira e, principalmente, no coração dos consumidores de cultura.

Quem me alertou disso foi um grande compositor e agitador cultural, Carlos Bezerra, artisticamente conhecido como Totonho e os Cabras, que é meu amigo de mais de dez anos. Consegui matar as saudades dele numa mesa de bar há pouco mais de um mês e ele, que é do meio e, mais do que isso, tem uma cabeça pensante bem inteligente e uma visão ampla sobre a música brasileira, me deu um panorama que eu ainda não tinha parado muito para pensar. Me deixou com a pulga atrás da orelha e comecei a pensar sobre isso.

É o seguinte. A maioria do que ouvimos em rádios que tocam música brasileira com alguma qualidade, como a MPB FM do Rio, são canções antigas. Toca-se muito Chico Buarque, Milton Nascimento, Gil, Caetano, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, João Nogueira, Rita Lee, Jorge Ben, Tim Maia, Djavan, Luiz Melodia, Elis Regina, Clara Nunes, Gonzaguinha, João Bosco, Gal Costa, Bethania, Lulu Santos, Tom, Vinícius, Novos Baianos, Alceu Valença, Zé Ramalho, Renato Russo, Paralamas, Titãs, Wilson Simonal, Adriana Calcanhoto e por aí vai – felizmente temos uma MPB riquíssima que nunca nos deixará na mão. Muitas músicas maravilhosas e deliciosas de se ouvir. Mas todas melodias de 20, 30, 40, 50 anos atrás que, merecidamente, tornaram-se clássicos da nossa música e precisam ser sempre ouvidas. Mas se a maioria é de clássicos, aonde está a renovação?

Pensando primeiro em rádio, alguma coisa mais nova aparece já há algum tempo, mas mistura canções de gosto duvidoso, como as de Jorge Vercilo, com preciosidades como as novas músicas de Rodrigo Maranhão – que toca muito, mas muito menos nas rádios e TVs do que Jorge Vercilo (que, para meu gosto particular, toca demais da conta...). Tem músicas de Zélia Duncan, que compõe coisas boas, tem Zeca Pagodinho que sempre apresenta composições de sambistas novos, tem também Isabela Taviani e Ana Carolina, que fazem músicas que vendem mas que dividem opiniões. Outros que conseguem emplacar músicas novas são cantores de grande sucesso, como Seu Jorge, Maria Rita e Maria Gadu. Esses têm apoio forte das gravadoras e o jabá garante que toquem o suficiente para o ouvinte fixar as melodias e letras. Nando Reis acho que é um caso à parte, porque faz canções que rapidamente empolgam e se tornam conhecidas (eu acho chato... mas muita gente boa ama). Lenine é outro caso especial, um puta compositor que faz sucesso cantando suas inéditas. Beth Carvalho, em seus últimos discos, vem tentando emplacar compositores novos de samba, mas não teve sucesso – provavelmente não tinha o mesmo apoio comercial. Tem ainda um lado que toca nas rádios que eu literalmente não ouço, Anitta, Valesca Popozuda, Naldo, são composições novas, sim, mas bem comerciais. Tampouco ouço rádios de sertanejos, pagodes, funks e de música norte-americana.

Bom, nos palcos tem música nova sendo divulgada em shows de Criolo, Suricato, Céu, Emicida, Casuarina, Pedro Miranda, Moyseis Marques, Toninho Geraes, há uma produção numerosa tentando se encaixar no "mercado". Edu Kriger, um puta compositor, vez em quando aparece aqui e ali com suas músicas, que são maravilhosas. Mas o "mercado" não está muito aberto para coisas novas de qualidade fora do modelo comercial rádio-tv-cd-dvd-shows montado para fazer dinheiro com a cultura. E música conhecida, que as pessoas curtem, gera retorno financeiro mais rápido do que composições novas. Peguei um cd-dvd produzido (e muito bem) pelo Canal Brasil, chamado "Cantoras do Brasil", que é bom exemplo disso. Traz a nova safra de intérpretes femininas mais ou menos conhecidas no circuito "alternativo-independente", como Mariana Aydar, Nina Becker, Tulipa Ruiz e Tiê, junto com outras que nunca ouvi falar, como Mallu (será a menina do Marcelo Camelo?), Lulina, Blubell e Lourdes da Luz. Acrescentou a Gaby Amarantos (que é outra que conseguiu emplacar músicas novas no dial das rádios) e a atriz Camila Pitanga – que eu nem sabia que cantava... E aí, qual o repertório que elas cantam? Clássicos da MPB que fizeram sucessos nas vozes de Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Ademilde Fonseca, Clementina de Jesus, Aracy de Almeida, Sylvia Telles, Elis Regina, Celly Campelo, Nara Leão, Maysa e Miriam Batucada. Um time de responsa! Mas, de novidade, apenas os arranjos e as vozes novas... Clássicos vendem mais fácil e trazem menos risco comercial do que música nova e desconhecida. Em tempo: a maior parte do disco-dvd é muito boa, ótimos arranjos-adaptações e interpretações.

Rodrigo Maranhão, que já citei, Totonho (que entende muito mais de música do que eu) considera um compositor hors councours, muito acima da média. E é mesmo, belíssimas composições. Nos últimos tempos, consegui ouvir cds de conhecidos que estão fazendo coisas autorais de muita qualidade, Matheus Von Kruger, Gabi Buarque, Luciana Coló. E aí me deparei com minha própria dificuldade em ouvir coisas novas. Ouvi os três e gostei muito, me admirei. Também ouvi as músicas de um pernambucano muito legal, Jades Sales, que conheci cantando no Arraiá do Bem. Adorei. Há uns dois anos, Simone Lial, grande amiga e cantora, lançou um belíssimo álbum de inéditas, a maioria de autores novos, curti muito. 

Mas... nessa vida corrida que montamos pra nós mesmos, hoje eu acabo ouvindo música enquanto estou no Facebook, trabalhando minhas fotos (algo que exige concentração), lendo notícias, pedalando, tomando banho, ou seja, fazendo outra coisa. Não dedico um tempo específico para dar a devida atenção para perceber e sentir o que tem de bom em uma música que eu nunca ouvi. 

Antigamente, quando saía um disco novo, eu me sentava para ouvir, atenção totalmente dedicada à obra musical. Se era um disco novo do Chico, ouvia duas, três, quatro vezes, e depois ainda me reunia com amigos para ouvirmos juntos e conversar a respeito. Não havia internet, Facebook, Youtube, microcomputador. A gente literalmente parava em casa apenas para ouvir música – assim como paramos no museu diante de uma obra de arte para apreciá-la calmamente. Hoje, a gente ouve música enquanto se faz a comida, arruma a casa ou lê o jornal, como um elemento acessório a outra coisa, e não com o objetivo específico de se ouvir e apreciar a música. Deixamos isso para quando vamos num show – e, mesmo lá, já me flagrei perdendo tempo de ouvir música para fotografar e postar imagens do show pelo celular... 

Na prática, hoje, efetivamente, prefiro ouvir algo que já conheço enquanto estou navegando no micro. É mais produtivo (e menos musical...). E raramente paro tudo apenas para ouvir um disco novo. Bad habit, eu sei, mas não sabia... Tracei planos para ficar umas duas horas só ouvindo discos. Qualquer hora dessas, dou notícias.




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Carnaval de rua do Rio é pop

A primeira vez que saí atrás de um bloco no Rio de Janeiro foi no Carnaval de 1990. Fui ver o Simpatia é Quase Amor, na Praia de Ipanema, porque alguns colegas do Globo, onde eu trabalhava na época, me contaram como era e algo me disse que eu iria gostar. Saí do jornal, plantão de fim de semana, e peguei um ônibus até Ipanema. Amei.


Até então, não tinha nenhuma ligação com Carnaval de rua, que para mim era algo como a Banda da Miguel Lemos ou a Banda de Ipanema. Em verdade, a própria expressão "Carnaval de rua" não me era familiar. Ainda virava noite à frente da TV para ver os desfiles no Sambódromo. Mas eu já tinha participado de Carnaval de rua em Rio das Ostras, que frequentava quando adolescente. Em algum lugar tenho uma foto minha fantasiado de bebezão, com fralda, touca e uma chupeta enorme, atrás de algum bloco local que não me recordo o nome. E também fui atrás de blocos nas ladeiras de Ouro Preto (MG), que frequentei nos meus primeiros anos de faculdade, hospedando-me na saudosa República Nau sem Rumo, onde me autobatizei Pirata Honorário. Foi de lá, Ouro Preto, onde fiz amigos queridos como Gegê, Patriota, Xexéo, Pré, Linguiça, Bacaxi e muitos outros, que veio a inspiração para meu famoso chapéu de marinheiro da Nau sem Rumo...


Desse Carnaval de Rio das Ostras, lembro de uma história "pitoresca". Aconteceu alguma briga ou roubo e chamaram a polícia, que vinha de Casimiro de Abreu – gente, isso era mais ou menos em 1974, 1975... não havia posto policial em Rio das Ostras, que era uma calma só... A PM demorou uns 40 minutos para chegar. Quando vimos o carro, era um DKW Vemag (popularmente chamado de Decavê...) bem antigo, carro do início dos anos 60, 4 portas, uma relíquia... Do banco de trás, um dos policiais, bem gordinho, quase não conseguiu sair, ficou entalado, pois o carro era apertadinho mesmo por dentro... uma comédia, todos riram, inclusive o próprio policial gordinho, que precisou de ajuda para sair da "viatura"... o boné ficou preso, o cassetete ele teve que pegar no banco depois de sair, hilário...


Bom... Resumo da história: depois do Simpatia, caí na folia das ruas, virando figurinha fácil também nos principais blocos de rua da classe média universitária da Zona Sul daquele tempo: Sovaco de Cristo, Bloco de Segunda, Escravos da Mauá, Barbas, Meu Bem eu Volto Já, Carmelitas, Imprensa que eu Gamo, Cordão do Bola Preta, Bloco do Bip Bip, Concentra mas não sai (onde, inclusive, comecei com minha segunda mulher, Lívia Arueira...), Monobloco na Praia do Leblon, meu armário tá cheio de camisetas de blocos dos anos 90, início dos 2000, já não tenho mais gaveta pra tanta camiseta... Nada demais, história muito parecida com a de centenas de outros foliões de rua que acompanharam aquele período de ouro dos blocos de rua da Zona Sul e do Centro.


Durante uns 12 anos meu Carnaval de rua foi assim. Até que, em 2000, ajudei a fundar o saudoso É do Pandeiro!, um bloco onde a bateria só tinha pandeiros – era a Pandeiria – e que se apresentava para meia dúzia de gatos pingados na Rua Joaquim Silva, na Lapa, no domingo de Carnaval. Fizemos carnavais gloriosos, com a luxuosa presença de Seu David do Pandeiro da Velha Guarda da Portela (de quem, infelizmente, acabamos tendo que nos afastar posteriormente...). 


Depois, em 2003, comecei a tocar surdo na primeira oficina de bateria do Bangalafumenga. Já tinha visto um dos primeiros shows-ensaios do Monobloco no saudoso Clube Condomínio, no Horto, e tinha literalmente enlouquecido com aquilo. Fernanda Abreu participou e arrasou. Daí começou um processo gradual pelo qual fui me afastando dos blocos já tradicionais da Zona Sul, como o Simpatia – que, por sua vez, também começaram a virar superblocos e perder um tanto da graça que tinham.


Dando um pulo de mais de uma década para o carnaval de 2015, que já está no esquenta, a coisa mudou muito. Acho que tem mais de 10 anos que não vou ao Simpatia – adorava ouvir seu grito de guerra na saída, na Praça General Osório: "Alô burguesia de Ipanema!!".  Minha última vez no Carmelitas, Carnaval de 2006, acabou em quase tragédia: fui imprensado num poste por um arrastão de moleques que roubavam todo mundo e perdi meu celular em plena véspera de Carnaval. Por pouco não fui literalmente imprensado pela multidão tentando deixar o bloco, arrasado e triste. Na época, os arrastões já atacavam impunemente nos desfiles do Simpatia. A violência da cidade estava no auge (Beltrame só assumiria a Segurança no ano seguinte) e não poupava nem o Carnaval. 


Paralelamente, fui descobrindo uma galera mais jovem (muitos deles foliões dos mesmo blocos que eu seguia) que começava a fazer algumas coisas diferentes. Constatei que Monobloco, Bangalafumenga e Quizomba faziam algo genial: pegavam a estrutura da bateria tradicional de uma escola de samba – com surdos, caixas, repiques, tamborins, chocalhos, agogôs e até cuícas – e com essa formação de instrumentos tocavam não apenas samba, mas outros ritmos (coco, funk, maculelê, ijexá, xote, marchinhas) e usavam eles de forma criativa para tocar músicas que iam além dos samba-enredos tradicionais. Fiquei chocado, e chapado, ao me ver tocando "Get up stand up" do Bob Marley na bateria de alunos da oficina do Banga, no carnaval do Miscelânea Odeon (produzido pelo genial Chacal) em 2004, usando a base do xote como ritmo para tocar um reggae. E na mesma linha, tocávamos Roberto Carlos com batida de funk. Com sua poderosa bateria nível escola de samba, o Monobloco já arrebentava tocando alguns funks, ritmo maldito das favelas, "Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...". O Quizomba logo faria sucesso tocando "Smeels like teen spirit", um rock heavy metal do Nirvana, e, mais tarde, "Satisfaction", dos Stones. Este ano, incluiu no repertório o "Happy", do Pharrel alguma coisa, hit do momento nas rádios. 


Descobriu-se a pólvora – uma bateria de escola de samba poderia perfeitamente tocar de tudo. Monobloco abre seus shows com o "Bolero", de Ravel. Alceu Valença, com sua "Anunciação", uma música regional nordestina pop, é "hit" de vários blocos. O sambalanço de Jorge Ben, a soul music abrasileirada de Tim Maia, os "Olhos coloridos" eternizados por Sandra de Sá, entraram de sola no repertório dos blocos. "São Gonçalo", do Farofa Carioca, genial grupo da virada dos anos 90 para os 2000, entrou nos repertórios de vários blocos (acho que o primeiro a tocar foi o Banga), com a bateria misturando os ritmos do funk carioca com o ijexá baiano. Os novos blocos com bateria própria, formada em oficinas, não esqueceram dos clássicos do samba-enredo, mas abriram espaço, grande, para muitas novidades. Raul Seixas (com o "Carimbador Maluco - Plunct Plact Zum") e Titãs ("Sonífera ilha"), no repertório do Quizomba, até hoje são a receita certa para levantar a plateia. Desfilando nas ruas de São Gonçalo, no carnaval de 2007, quando o Banga tocou "Nós vamos invadir sua praia", do Ultraje a Rigor, a multidão acompanhando o bloco foi ao delírio.


Ou seja, a bateria de escola de samba virou instrumento para todo tipo de música popular. De forma parecida como a guitarra do rock e do blues virou pau elétrico no Carnaval da Bahia, pimenta elétrica na música brasileiríssima da Tropicália e incendiou os sambas dos Novos Baianos. Essa gente bronzeada que gosta de mostrar seu valor não se fez de rogada e adaptou, criativamente, o que recebia da velha guarda para aquilo que gostava de tocar e cantar. Vale lembrar que Pixinguinha voltou da Europa, onde ficou seis meses tocando com os 8 Batutas, em 1922, e adaptou o ritmo do ragtime e do foxtrot para seus arranjos brasileiríssimos, passando a tocar mais o sax do que flauta. 


Daí para outros saltos, foi só um pulinho. Sei lá exatamente quando (não sou estudioso dos carnavais, apenas um folião, batuqueiro e retratista da folia...), acho que de uns 10 anos para cá, começaram a surgir blocos "temáticos". Mulheres de Chico foi um dos primeiros. Consultando meus arquivos fotográficos, vejo que em 20 de janeiro de 2007 fotografei o primeiro ensaio das Chicosas no campus da Praia Vermelha, da UFRJ. Até hoje me emociono vendo a multidão acompanhar as Mulheres de Chico cantando junto os grandes sucessos de Chico. Aí veio Exalta Rei, que só toca músicas de Roberto Carlos, e é uma delícia de acompanhar no desfile. Veio o Fogo e Paixão, para mim, hoje, o melhor dos blocos de rua, com suas músicas e performances bregas simplesmente sensacionais. Pura alegria, criatividade e musicalidade de primeira.


Outros "temáticos" foram surgindo. O Thriller Elétrico, que toca Michael Jackson (só vi duas vezes, mas gostei muito), o Desliga da Justiça, que é temático pelas fantasias de super-heróis e vilões, e não pela música, mas que é genial do mesmo jeito. Veio o bloco homenagem ao grande Paulinho da Viola, os Timoneiros da Viola. O Sassaricando, bloco que saiu de uma peça musical de teatro, é simplesmente delicioso (não sei se continua fazendo seus bailes no sábado de Carnaval...). Ainda não consegui ver os Devotos de Marley, que obviamente toca o reggae de Bob, mas quero muito conhecer. Entrei há dois meses na bateria do Estratégia, focado em Black Music, daqui e de fora, que é muito bom. Não me empolguei até hoje com o Sargento Pimenta, que é uma ótima ideia de bloco (só toca Beatles), mas que acho mal aproveitada. Sábado vi pela primeira vez o CaBloco, filial carioca de um bloco de Belém do Pará, e simplesmente amei! Ritmos do Norte começando a chegar no carnaval de rua do Rio. Que, com atraso de 20 anos, começa timidamente a adotar a batida contagiante do samba-reggae baiano do Olodum e do Ylê Ayê entre seus ritmos de bateria. Fogo e Paixão tocando o "Peixe", do Fagner, ao ritmo do samba-reggae, é um espetáculo! Estou muito curioso também para ver a primeira apresentação do Brasília Amarela, que vai tocar Mamonas Assassinas, no próximo dia 4 de janeiro. 


Nisso, há um capítulo paralelo no Carnaval de rua carioca, que é o surgimento das fanfarras. Começou com a Orquestra Voadora. Tenho na cabeça um momento histórico que presenciei, os músicos tocando na Praia de Ipanema, acho que foi no início do verão 2007-2008, era o primeiro governo do Eduardo Paes, e aí veio um grupo de policiais militares impondo o tal "choque de ordem" da Prefeitura e um tenente ameaçou "confiscar" os instrumentos... 



Mas, antes de mais nada, o que é uma fanfarra? No site da Associação Amigos da Fanfarra de Caieiras, tem uma descrição interessante: "Quando falamos em 'fanfarra', logo se imagina um grupo de jovens uniformizados, marchando e tocando cornetas e bumbos num desfile cívico, tendo à sua frente meninas carregando as bandeiras do pavilhão nacional". Essa é a fanfarra tradicional, aquelas bandas de colégios, que tem até uma lira sendo tocada – e que eu sempre achei uma delícia de se ver. A palavra vem do francês fanfare e hoje vem sendo usada também para designar pequenas bandas musicais com base em instrumentos de metal (trompete, trombone, tuba, saxofone, clarinetes etc.) e com um percussão de apoio. Uma de suas características é que tocam em espaços ao ar livrem como ruas e praças, não são bandas para tocar em teatros fechados. As fanfarras que temos visto por aqui, inclusive visitantes da Europa e do Chile, também são chamadas de Brass Band. E aí não me perguntem mais porque careço de informação...


Pois bem, a Orquestra Voadora cresceu pacas desde 2007, hoje realiza oficinas para formar novos instrumentistas, de sopro e de percussão, e faz um desfile que arrasta dezenas de milhares de pessoas na terça de carnaval no Aterro do Flamengo. Seu repertório tem de tudo: Fela Kuti, "Aquarius", Baden Powell, Secos & Molhados, Jimi Hendrix, Roberto Carlos, Michael JacksonMutantes, Tim Maia, "Moliendo café" (uma rumba clássica)... mais pop impossível!  E não toca nenhum samba-enredo, mas toca "O morro não tem vez", samba clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.  A Voadora é uma fanfarra abrasileirada. Usa surdos de escola de samba, mas também alfaias do maracatu. A caixa é similar às do samba e do maracatu, porém fica presa ao corpo por uma armação de metal chamada de "Robocop", e tem um pequeno prato e agogôs. Usa também xequerês, típicos do maracatu. E conta com o apoio de uns dois ou três bumbos "conduzidos" por argentinos radicados por aqui. Nos sopros, algumas dezenas de trombones, trompetes, trompas, saxofones, tubas, clarinetes, flautas... O clima, entretanto, é de mais legítimo carnaval. Um carnaval pop, mas um carnaval legítimo. Sem muito samba, mas com músicas ótimas, muita fantasia, dança, alegria e festa.


Depois da Voadora, as fanfarras pipocaram: Os Siderais, Cinebloco (que só toca músicas de cinema), Mário Bloco (que toca musiquinhas de videogame), Sinfônica Ambulante, Damas de Ferro, e deve ter outras que estou esquecendo agora. Todas com estruturas musicais parecidas com a da Voadora, embora bem menores.


Bom, vou parar por aqui senão vai ficar com cara de tratado. O que quero dizer mesmo é que o carnaval de rua do Rio que eu vejo é cada vez mais pop. Tocar samba deixou de ser uma obrigação – o que muitos veem como um sacrilégio. Mas a bagunça, a animação, as fantasias, a alegria, a diversão, as brincadeiras, tudo isso elementos típicos e legítimos do Carnaval, permanecem. Ainda tem espaço para a tradição – e é por isso mesmo que eu faço questão de tocar na bateria do Larga a Onça, Alfredo!, bloco que tem 70% de seu repertório composto por sambas-enredos clássicos maravilhosos. Estou assim como batuqueiro de carnaval de rua: um pé na tradição com o Larga a Onça, outro na Black Music do Estratégia e outro no mundo pop da Voadora.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Os brasileiros diante da mídia

Vou iniciar este blog falando sobre a "Pesquisa Brasileira de Mídia 2015", uma iniciativa bacana da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que contratou (por licitação) o Ibope para realizar, anualmente, uma pesquisa extensa sobre os hábitos dos brasileiros (mais de 18 mil entrevistas em 848 municípios de todos os estados) em relação a TV, rádio, jornais, revistas e internet. Detalhe: a Pesquisa 2015 usa em verdade dados coletados no final do ano de 2014; não sei porque chamam de 2015... O mesmo acontece com a Pesquisa 2014, que usa dados de 2013.

As conclusões são super interessantes, algumas comprovando o que já imaginávamos.

TV – É o meio de comunicação preferido dos brasileiros. 73% dos brasileiros assistem televisão diariamente. E passam, em média, quatro horas e meia por dia diante da TV nos dias úteis, e um pouco menos nos fins de semana. A grande maioria (79%) liga a TV para "se informar, saber as notícias"; 67% ligam por diversão/entretenimento. Mulheres veem mais TV que os homens (em média, meia hora a mais por dia). A Terceira Idade vê bem mais TV (uma hora a mais por dia) do que os jovens de 16 a 25 anos. E a TV fica mais tempo ligada nas casas de pessoas que estudaram até a 4º série do que na residência de quem tem curso superior. 26% dos lares brasileiros têm TV paga, coisa pacas, me surpreendeu. 49% dos que veem TV disseram que "comem alguma coisa" enquanto estão diante do televisor... E advinha qual o horário que o povo mais fica em frente à TV ligada? Entre 20h e 21h, justamente a hora do "Jornal Nacional"...

Rádio – É o segundo lugar na preferência dos brasileiros, mas sua audiência vem caindo bastante: de 61% para 55% (da pesquisa de 2014 para a de 2015). Em compensação, aumentou a quantidade de entrevistados que dizem ouvir rádio todos os dias: de 21% em 2013 para 30% em 2014. O programa "A voz do Brasil" é conhecido por 57% dos brasileiros e, entre eles, 45% acham o programa "ótimo" ou "bom". Os que acham "ruim" ou "péssimo" somam apenas 32%. Como na TV, a maioria (63%) ouve rádio para saber das notícias, seguidos por aqueles (62%) que buscam entretenimento. O horário de pico da audiência nas rádios vai das 7h às 11h. Um dado que me surpreendeu: 8% disseram ouvir rádio pelo celular, mesma proporção dos que ouvem no carro...

Internet – Quase metade dos brasileiros (48%) usa a Internet. Acho pouco, mas somos um país enorme... 37% apenas usam diariamente, mas esse percentual cresceu muito: em 2013, eram apenas 26%. Em média, esses 48% ficam conectados quase cinco horas por dia durante a semana e um pouco menos nos fins de semana. Aí, uma coisa óbvia: entre os que têm curso superior, sobe para 72% o total que acessa a Internet diariamente, ficando conectados em média 5 horas e 40 minutos por dia. 92% dos internautas estão em alguma rede social: Facebook (83%), Whatsapp (58%), Youtube (17%),  Instagram (12%), Google+ (8%), Twitter (5%), Skype (4%), Linkedin (1%). Um grande contraste entre as idades: 65% dos jovens até 25 anos acessam a Internet diariamente; mas apenas 4% dos que têm mais de 65 anos. Quanto ao "device", 71% se conectam pelo micro, 66% pelo celular e só 7% pelo tablet. O horário que a turma mais acessa é de noite, entre 19h e 22h, mas tem um segundo pico, entre 10h e 11h da manhã. É muito baixo o percentual de internautas que, de alguma, forma interagiram com governos via Internet, menos de 10%.

Jornais impressos diários – Apenas 7% leem jornais diariamente. Muito pouca gente. A proporção aumenta para 15% entre os que têm curso superior ou renda acima de cinco salários mínimos. Segunda-feira é o dia que mais se lê jornal (48%), e sábado o de menos leitura (35%). A turma que lê jornal ao menos uma vez por semana não passa de 21% – ou seja, 76% dos brasileiros nunca lê jornal diário! (A diferença para chegar aos 100% está nos que responderam "não sabe/não respondeu".) Dos leitores de jornais, apenas 10% leem na versão digital, a grande maioria (79%) ainda prefere o impresso. Quem mais lê jornal em versão digital são os piauienses, os cearenses e os paranaenses. Vá entender...  As seções preferidas dos jornais são: Notícias da cidade/Cotidiano (28%), Esportes (24%), Notícias policiais (16%), Política nacional (14%), Classificados (12%), Cultura/Lazer (10%), Economia brasileira (10%). Na lanterninha, Internacional/Mundo (exceto política e economia, 2%), Meio Ambiente (2%) e Turismo/Viagens (1%). A maioria, 58%, compra o jornal na banca.

Revistas – Só 13% leem revistas (e só 3% compram ou assinam, a maioria lê de alguém, na sala de espera...), proporção que aumenta à medida que o cidadão tenha mais escolaridade ou mais renda. Só 12% leem as revistas nas versões digitais, 70% preferem a impressa. Maranhenses, piauienses (de novo) e cearenses (de novo) são os que mais leem na versão digital.

Confiança (credibilidade...) – Em um ano, da pesquisa de 2014 para a de 2015, aumentou o número de brasileiros que confiam "muito" ou "sempre" nas notícias publicadas pelos jornais diários: de 53% para 58%. Desconfio que teve a ver com a onda de denúncias/escândalos nas manchetes em 2014. Curiosamente, com as revistas, acontece o contrário: a maioria, 52%, confia "pouco" ou "nunca" no que nossas revistas publicam. Desconfio que a "Veja" tem a ver com isso... Mas a confiança aumentou de 2013 para 2014, de 40% para 44% nos que confiam "muito" ou "sempre". E em relação aos veículos não jornalísticos na internet, reina a desconfiança: a maioria confia "pouco" ou "nunca" nas notícias veiculadas em redes sociais (71%), blogs, como este aqui (69%), e sites (67%).

A pesquisa completa está disponível nesse link:

http://www.brasil.gov.br/governo/livro-2015-ok-3-2.pdf