quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Carnaval de rua do Rio é pop

A primeira vez que saí atrás de um bloco no Rio de Janeiro foi no Carnaval de 1990. Fui ver o Simpatia é Quase Amor, na Praia de Ipanema, porque alguns colegas do Globo, onde eu trabalhava na época, me contaram como era e algo me disse que eu iria gostar. Saí do jornal, plantão de fim de semana, e peguei um ônibus até Ipanema. Amei.


Até então, não tinha nenhuma ligação com Carnaval de rua, que para mim era algo como a Banda da Miguel Lemos ou a Banda de Ipanema. Em verdade, a própria expressão "Carnaval de rua" não me era familiar. Ainda virava noite à frente da TV para ver os desfiles no Sambódromo. Mas eu já tinha participado de Carnaval de rua em Rio das Ostras, que frequentava quando adolescente. Em algum lugar tenho uma foto minha fantasiado de bebezão, com fralda, touca e uma chupeta enorme, atrás de algum bloco local que não me recordo o nome. E também fui atrás de blocos nas ladeiras de Ouro Preto (MG), que frequentei nos meus primeiros anos de faculdade, hospedando-me na saudosa República Nau sem Rumo, onde me autobatizei Pirata Honorário. Foi de lá, Ouro Preto, onde fiz amigos queridos como Gegê, Patriota, Xexéo, Pré, Linguiça, Bacaxi e muitos outros, que veio a inspiração para meu famoso chapéu de marinheiro da Nau sem Rumo...


Desse Carnaval de Rio das Ostras, lembro de uma história "pitoresca". Aconteceu alguma briga ou roubo e chamaram a polícia, que vinha de Casimiro de Abreu – gente, isso era mais ou menos em 1974, 1975... não havia posto policial em Rio das Ostras, que era uma calma só... A PM demorou uns 40 minutos para chegar. Quando vimos o carro, era um DKW Vemag (popularmente chamado de Decavê...) bem antigo, carro do início dos anos 60, 4 portas, uma relíquia... Do banco de trás, um dos policiais, bem gordinho, quase não conseguiu sair, ficou entalado, pois o carro era apertadinho mesmo por dentro... uma comédia, todos riram, inclusive o próprio policial gordinho, que precisou de ajuda para sair da "viatura"... o boné ficou preso, o cassetete ele teve que pegar no banco depois de sair, hilário...


Bom... Resumo da história: depois do Simpatia, caí na folia das ruas, virando figurinha fácil também nos principais blocos de rua da classe média universitária da Zona Sul daquele tempo: Sovaco de Cristo, Bloco de Segunda, Escravos da Mauá, Barbas, Meu Bem eu Volto Já, Carmelitas, Imprensa que eu Gamo, Cordão do Bola Preta, Bloco do Bip Bip, Concentra mas não sai (onde, inclusive, comecei com minha segunda mulher, Lívia Arueira...), Monobloco na Praia do Leblon, meu armário tá cheio de camisetas de blocos dos anos 90, início dos 2000, já não tenho mais gaveta pra tanta camiseta... Nada demais, história muito parecida com a de centenas de outros foliões de rua que acompanharam aquele período de ouro dos blocos de rua da Zona Sul e do Centro.


Durante uns 12 anos meu Carnaval de rua foi assim. Até que, em 2000, ajudei a fundar o saudoso É do Pandeiro!, um bloco onde a bateria só tinha pandeiros – era a Pandeiria – e que se apresentava para meia dúzia de gatos pingados na Rua Joaquim Silva, na Lapa, no domingo de Carnaval. Fizemos carnavais gloriosos, com a luxuosa presença de Seu David do Pandeiro da Velha Guarda da Portela (de quem, infelizmente, acabamos tendo que nos afastar posteriormente...). 


Depois, em 2003, comecei a tocar surdo na primeira oficina de bateria do Bangalafumenga. Já tinha visto um dos primeiros shows-ensaios do Monobloco no saudoso Clube Condomínio, no Horto, e tinha literalmente enlouquecido com aquilo. Fernanda Abreu participou e arrasou. Daí começou um processo gradual pelo qual fui me afastando dos blocos já tradicionais da Zona Sul, como o Simpatia – que, por sua vez, também começaram a virar superblocos e perder um tanto da graça que tinham.


Dando um pulo de mais de uma década para o carnaval de 2015, que já está no esquenta, a coisa mudou muito. Acho que tem mais de 10 anos que não vou ao Simpatia – adorava ouvir seu grito de guerra na saída, na Praça General Osório: "Alô burguesia de Ipanema!!".  Minha última vez no Carmelitas, Carnaval de 2006, acabou em quase tragédia: fui imprensado num poste por um arrastão de moleques que roubavam todo mundo e perdi meu celular em plena véspera de Carnaval. Por pouco não fui literalmente imprensado pela multidão tentando deixar o bloco, arrasado e triste. Na época, os arrastões já atacavam impunemente nos desfiles do Simpatia. A violência da cidade estava no auge (Beltrame só assumiria a Segurança no ano seguinte) e não poupava nem o Carnaval. 


Paralelamente, fui descobrindo uma galera mais jovem (muitos deles foliões dos mesmo blocos que eu seguia) que começava a fazer algumas coisas diferentes. Constatei que Monobloco, Bangalafumenga e Quizomba faziam algo genial: pegavam a estrutura da bateria tradicional de uma escola de samba – com surdos, caixas, repiques, tamborins, chocalhos, agogôs e até cuícas – e com essa formação de instrumentos tocavam não apenas samba, mas outros ritmos (coco, funk, maculelê, ijexá, xote, marchinhas) e usavam eles de forma criativa para tocar músicas que iam além dos samba-enredos tradicionais. Fiquei chocado, e chapado, ao me ver tocando "Get up stand up" do Bob Marley na bateria de alunos da oficina do Banga, no carnaval do Miscelânea Odeon (produzido pelo genial Chacal) em 2004, usando a base do xote como ritmo para tocar um reggae. E na mesma linha, tocávamos Roberto Carlos com batida de funk. Com sua poderosa bateria nível escola de samba, o Monobloco já arrebentava tocando alguns funks, ritmo maldito das favelas, "Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...". O Quizomba logo faria sucesso tocando "Smeels like teen spirit", um rock heavy metal do Nirvana, e, mais tarde, "Satisfaction", dos Stones. Este ano, incluiu no repertório o "Happy", do Pharrel alguma coisa, hit do momento nas rádios. 


Descobriu-se a pólvora – uma bateria de escola de samba poderia perfeitamente tocar de tudo. Monobloco abre seus shows com o "Bolero", de Ravel. Alceu Valença, com sua "Anunciação", uma música regional nordestina pop, é "hit" de vários blocos. O sambalanço de Jorge Ben, a soul music abrasileirada de Tim Maia, os "Olhos coloridos" eternizados por Sandra de Sá, entraram de sola no repertório dos blocos. "São Gonçalo", do Farofa Carioca, genial grupo da virada dos anos 90 para os 2000, entrou nos repertórios de vários blocos (acho que o primeiro a tocar foi o Banga), com a bateria misturando os ritmos do funk carioca com o ijexá baiano. Os novos blocos com bateria própria, formada em oficinas, não esqueceram dos clássicos do samba-enredo, mas abriram espaço, grande, para muitas novidades. Raul Seixas (com o "Carimbador Maluco - Plunct Plact Zum") e Titãs ("Sonífera ilha"), no repertório do Quizomba, até hoje são a receita certa para levantar a plateia. Desfilando nas ruas de São Gonçalo, no carnaval de 2007, quando o Banga tocou "Nós vamos invadir sua praia", do Ultraje a Rigor, a multidão acompanhando o bloco foi ao delírio.


Ou seja, a bateria de escola de samba virou instrumento para todo tipo de música popular. De forma parecida como a guitarra do rock e do blues virou pau elétrico no Carnaval da Bahia, pimenta elétrica na música brasileiríssima da Tropicália e incendiou os sambas dos Novos Baianos. Essa gente bronzeada que gosta de mostrar seu valor não se fez de rogada e adaptou, criativamente, o que recebia da velha guarda para aquilo que gostava de tocar e cantar. Vale lembrar que Pixinguinha voltou da Europa, onde ficou seis meses tocando com os 8 Batutas, em 1922, e adaptou o ritmo do ragtime e do foxtrot para seus arranjos brasileiríssimos, passando a tocar mais o sax do que flauta. 


Daí para outros saltos, foi só um pulinho. Sei lá exatamente quando (não sou estudioso dos carnavais, apenas um folião, batuqueiro e retratista da folia...), acho que de uns 10 anos para cá, começaram a surgir blocos "temáticos". Mulheres de Chico foi um dos primeiros. Consultando meus arquivos fotográficos, vejo que em 20 de janeiro de 2007 fotografei o primeiro ensaio das Chicosas no campus da Praia Vermelha, da UFRJ. Até hoje me emociono vendo a multidão acompanhar as Mulheres de Chico cantando junto os grandes sucessos de Chico. Aí veio Exalta Rei, que só toca músicas de Roberto Carlos, e é uma delícia de acompanhar no desfile. Veio o Fogo e Paixão, para mim, hoje, o melhor dos blocos de rua, com suas músicas e performances bregas simplesmente sensacionais. Pura alegria, criatividade e musicalidade de primeira.


Outros "temáticos" foram surgindo. O Thriller Elétrico, que toca Michael Jackson (só vi duas vezes, mas gostei muito), o Desliga da Justiça, que é temático pelas fantasias de super-heróis e vilões, e não pela música, mas que é genial do mesmo jeito. Veio o bloco homenagem ao grande Paulinho da Viola, os Timoneiros da Viola. O Sassaricando, bloco que saiu de uma peça musical de teatro, é simplesmente delicioso (não sei se continua fazendo seus bailes no sábado de Carnaval...). Ainda não consegui ver os Devotos de Marley, que obviamente toca o reggae de Bob, mas quero muito conhecer. Entrei há dois meses na bateria do Estratégia, focado em Black Music, daqui e de fora, que é muito bom. Não me empolguei até hoje com o Sargento Pimenta, que é uma ótima ideia de bloco (só toca Beatles), mas que acho mal aproveitada. Sábado vi pela primeira vez o CaBloco, filial carioca de um bloco de Belém do Pará, e simplesmente amei! Ritmos do Norte começando a chegar no carnaval de rua do Rio. Que, com atraso de 20 anos, começa timidamente a adotar a batida contagiante do samba-reggae baiano do Olodum e do Ylê Ayê entre seus ritmos de bateria. Fogo e Paixão tocando o "Peixe", do Fagner, ao ritmo do samba-reggae, é um espetáculo! Estou muito curioso também para ver a primeira apresentação do Brasília Amarela, que vai tocar Mamonas Assassinas, no próximo dia 4 de janeiro. 


Nisso, há um capítulo paralelo no Carnaval de rua carioca, que é o surgimento das fanfarras. Começou com a Orquestra Voadora. Tenho na cabeça um momento histórico que presenciei, os músicos tocando na Praia de Ipanema, acho que foi no início do verão 2007-2008, era o primeiro governo do Eduardo Paes, e aí veio um grupo de policiais militares impondo o tal "choque de ordem" da Prefeitura e um tenente ameaçou "confiscar" os instrumentos... 



Mas, antes de mais nada, o que é uma fanfarra? No site da Associação Amigos da Fanfarra de Caieiras, tem uma descrição interessante: "Quando falamos em 'fanfarra', logo se imagina um grupo de jovens uniformizados, marchando e tocando cornetas e bumbos num desfile cívico, tendo à sua frente meninas carregando as bandeiras do pavilhão nacional". Essa é a fanfarra tradicional, aquelas bandas de colégios, que tem até uma lira sendo tocada – e que eu sempre achei uma delícia de se ver. A palavra vem do francês fanfare e hoje vem sendo usada também para designar pequenas bandas musicais com base em instrumentos de metal (trompete, trombone, tuba, saxofone, clarinetes etc.) e com um percussão de apoio. Uma de suas características é que tocam em espaços ao ar livrem como ruas e praças, não são bandas para tocar em teatros fechados. As fanfarras que temos visto por aqui, inclusive visitantes da Europa e do Chile, também são chamadas de Brass Band. E aí não me perguntem mais porque careço de informação...


Pois bem, a Orquestra Voadora cresceu pacas desde 2007, hoje realiza oficinas para formar novos instrumentistas, de sopro e de percussão, e faz um desfile que arrasta dezenas de milhares de pessoas na terça de carnaval no Aterro do Flamengo. Seu repertório tem de tudo: Fela Kuti, "Aquarius", Baden Powell, Secos & Molhados, Jimi Hendrix, Roberto Carlos, Michael JacksonMutantes, Tim Maia, "Moliendo café" (uma rumba clássica)... mais pop impossível!  E não toca nenhum samba-enredo, mas toca "O morro não tem vez", samba clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.  A Voadora é uma fanfarra abrasileirada. Usa surdos de escola de samba, mas também alfaias do maracatu. A caixa é similar às do samba e do maracatu, porém fica presa ao corpo por uma armação de metal chamada de "Robocop", e tem um pequeno prato e agogôs. Usa também xequerês, típicos do maracatu. E conta com o apoio de uns dois ou três bumbos "conduzidos" por argentinos radicados por aqui. Nos sopros, algumas dezenas de trombones, trompetes, trompas, saxofones, tubas, clarinetes, flautas... O clima, entretanto, é de mais legítimo carnaval. Um carnaval pop, mas um carnaval legítimo. Sem muito samba, mas com músicas ótimas, muita fantasia, dança, alegria e festa.


Depois da Voadora, as fanfarras pipocaram: Os Siderais, Cinebloco (que só toca músicas de cinema), Mário Bloco (que toca musiquinhas de videogame), Sinfônica Ambulante, Damas de Ferro, e deve ter outras que estou esquecendo agora. Todas com estruturas musicais parecidas com a da Voadora, embora bem menores.


Bom, vou parar por aqui senão vai ficar com cara de tratado. O que quero dizer mesmo é que o carnaval de rua do Rio que eu vejo é cada vez mais pop. Tocar samba deixou de ser uma obrigação – o que muitos veem como um sacrilégio. Mas a bagunça, a animação, as fantasias, a alegria, a diversão, as brincadeiras, tudo isso elementos típicos e legítimos do Carnaval, permanecem. Ainda tem espaço para a tradição – e é por isso mesmo que eu faço questão de tocar na bateria do Larga a Onça, Alfredo!, bloco que tem 70% de seu repertório composto por sambas-enredos clássicos maravilhosos. Estou assim como batuqueiro de carnaval de rua: um pé na tradição com o Larga a Onça, outro na Black Music do Estratégia e outro no mundo pop da Voadora.

Um comentário:

  1. Para os eventuais - poucos são os escolhidos - leitores do PH: levem a sério seus comentários sobre blocos, porque o cidadão é um maratonista de Carnaval.
    Acho que é a única coisa - além do Fluminense - que lhe desperta o fanatismo incondicional, embora não acrítico, porque o velho amigo de quase 40 anos não é de concordar com nada sem alguns senões.
    Eu, que de blocos não gosto nem dos que trago nos pré-molares, sugiro que sigam seus conselhos.
    E na minha ignorância carnavalesca, que se limita ao gentil prazer de ver as pessoas se divertindo, recomendo - aí com conhecimento de causa - que além do extenuante roteiro carnavalesco que, podem apostar, logo estará neste blog, sigam também as outras batucadas do PH.
    Bem vindo á maldita vida de blogueiro, PH, os que não Largam a Onça te saúdam.

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