Ninguém sabe ao certo se a vacina produzida na terra de Putin será eficaz e segura. Pelo que leio no noticiário, é uma vacina mais para roleta russa do que para inovação científica. Se colar, colou. O importante é chegar na frente do restante do mundo.
A Rússia está de olho no diferencial competitivo que significa sair na frente imunizando a população nacional contra a Covid-19. No noticiário, as informações vindas do diretor do Instituto Gamaleya, que desenvolve a vacina russa, preocupam os cientistas. O noticiário internacional aponta que os russos “atropelaram” a fase 3 dos testes para aprovação de sua vacina, contrariando normas científicas internacionais. Alguns médicos participantes da pesquisa teriam inclusive usado voluntariamente a vacina em si mesmos, como cobaias, prática condenada pela comunidade científica mais séria.
As vantagens de sair na frente como o primeiro país a ter a vacina contra o coronavirus SARS-CoV-2 são inúmeras – em tese, ou seja, desde que tudo funcione direitinho.
Em primeiro lugar, com a vacinação em massa, eliminando o vírus do corpo de milhões de pessoas de um país, mais gente poderá voltar mais rapidamente ao trabalho. Isso coloca a economia nacional em vantagem sobre seus concorrentes internacionais, além de amenizar os impactos econômicos fortíssimos, como o desemprego, a quebradeira de empresas e setores específicos (como o Turismo, as empresas aéreas e a indústria de entretenimento) e a paralisia da atividade econômica. Reduz também, de forma drástica, os gastos do Estado com saúde e outros recursos necessários para a imposição de quarentenas, isolamentos, lockdown e tratamentos médicos, incluindo a compra de equipamentos caros para as UTIs. Permite a reabertura das escolas e do comércio e indústrias em geral, além da normalização dos serviços públicos. E, com a economia voltando a funcionar, empresas e pessoas voltarão a pagar impostos, restabelecendo o equilíbrio fiscal. Diminui bastante os números de morte de idosos e demais grupos de riscos, elevando o moral da população.
Além disso, a Rússia poderá sair na frente de seus concorrentes na exportação da vacina pioneira, garantindo desde já seu papel na dianteira de uma das maiores guerras comerciais da história da humanidade – onde o regime de Putin enfrenta principalmente os Estados Unidos e a China.
Esse inesperado arrebatamento vacinal dos russos é o filme piloto da segunda temporada da nada popular série de reality show (e bota reality nisso) “A melhor Pandemia do mundo é aqui e agora”.
Atualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) há pelo menos 25 vacinas em fase de testes clínicos em seres humanos, de um total de 164 sendo desenvolvidas por farmacêuticas privadas e centros de pesquisa públicos ou independentes. E somente cinco entraram na famosa fase 3 dos testes.
Aqui vale uma explicação rápida para quem não acompanha de perto o assunto. Para se validar uma vacina antiviral é preciso que ela passe por três fases de testes com humanos, isso depois de já ter sido testada em laboratório (in vitro) e em animais. A primeira fase é com um grupo bem reduzido mesmo, tipo 20 pessoas. A segunda fase – que só acontece se na primeira os testes derem resultados promissores – já inclui um grupo bem maior, de até mil pessoas. Se os resultados continuarem bons, vem a terceira e decisiva fase, que significa a testagem em milhares de pessoas, algo como 15 mil a 20 mil seres humanos. Esse é o procedimento científico aceito mundialmente. Algumas vacinas chegam à fase 3 e não passam no último teste, e aí o investimento todo é perdido. Mas de maneira geral chegar à fase 3 é um ótimo indício de que o produto tem boas chances de vingar.
E quais são os critérios para se passar no Enem da vigilância sanitária dos países e ter um produto aprovado pelo órgão regulador de medicamentos e disponível para oferecer ao mercado epidêmico de Covid-19? Basicamente, é preciso atender a três critérios:
1 – Ser eficiente, ou seja, imunizar a grande maioria contra o vírus. A definição de “grande maioria” é vaga, mas o bom senso diria algo em torno de 80% a 99% dos pacientes. O ideal, claro, é 100%.
2 – Ter o mínimo de efeitos colaterais. Ou seja, não causar febres, diarreias, alergias, tonteiras, enjoos, arritmias cardíacas, inflamações, disfunção renal. Em outras palavras, o remédio não pode causar outras doenças.
3 – Não ter contraindicações. A vacina tem que servir para grávidas, hipertensos, diabéticos, cardíacos, alérgicos, esplenectomizados, alcoólatras, esquizofrênicos, para todo mundo mesmo.
Há outros fatores a serem considerados. A vacina será aplicada em apenas uma ou em mais doses? Qual o seu custo? Será uma gotinha aplicada na boca das pessoas, um comprimido ou terá que ser com injeção? A imunização oferecida vai durar apenas um ano, como acontece com a vacina contra a gripe – o que nos obrigará a nos vacinarmos anualmente contra a Covid-19? A produção industrial será suficiente para atender a toda a humanidade – mais de 7 bilhões de pessoas? A logística de vacinação conseguirá atingir a quantos por cento desses 7 bilhões? Será o suficiente para acabar com a Covid-19?
Outra questão, também altamente relevante, com fortíssimo impacto social, político e econômico, é o planejamento da aplicação das primeiras vacinas. Coisa que o Brasil (leia-se Ministério Militar da Saúde) sequer parece ter começado a fazer.
O cenário que nos espera é o seguinte. Sendo aprovada a vacina pela Anvisa de todos os países, um procedimento que costuma demorar anos mas que desta vez sairá a toque de caixa (com todos os erros esperados de processos a toque de caixa), não haverá vacina para todo mundo no primeiro momento (a capacidade de fabricação, distribuição e aplicação tem muitos limites). A questão é: quem deverá ser vacinado primeiro?
Pelo que tenho lido, há alguns consensos internacionais. O maior de todos é o de que os profissionais da Saúde devem ser os primeiros a receber a vacina, especialmente aqueles que trabalham em hospitais e postos de saúde. Faz muito sentido, esses heróis estão expostos o tempo todo ao vírus, muito mais do que as demais pessoas, e eles são fundamentais para tratar clinicamente os infectados.
Um segundo grupo prioritário seria a população dos grupos de risco, que são os que mais facilmente contraem a Covid-19 e mais facilmente morrem em consequência dela. A começar pelos idosos – faltando definir se idoso é quem atingiu 60, 65 ou 70 anos. Em seguida, viriam os portadores de doenças crônicas de todas as idades (cardíacos, hipertensos, com câncer, diabéticos, com doenças respiratórias etc.). Mais recentemente, os obesos e fumantes vêm sendo incluídos nessa classificação de risco.
Outro grupo prioritário seria o de trabalhadores nos serviços essenciais. Precisamos deles para que as coisas funcionem. Em primeiro lugar, há os trabalhadores do serviço público mais essencial: policiais, bombeiros, militares. Na iniciativa privada, teríamos os trabalhadores no comércio e na produção de alimentos e remédios, os agricultores, os aeronautas, os motoristas de carga, os motoboys do delivery, os taxistas e uberistas, os fabricantes e vendedores de quentinhas e embalagens (sem embalagens não há delivery...), os trabalhadores de manutenção dos serviços básicos (energia elétrica, internet, correios, gás, água, esgoto, limpeza urbana, coleta de lixo, iluminação pública), profissionais de rodoviárias, aeroportos e portos, técnicos de manutenção de computadores, de geladeiras, de máquinas de lavar, de televisores, de ar condicionado... A lista é enorme. E pode ser agregada de várias formas. Jornalista trabalha num serviço essencial? Eu acho que sim. Mecânicos de veículos (carros, ônibus, motos) eu acho mais que essencial. Operários da construção civil? Aí tenho dúvidas... Cozinheiros? Sim, com certeza. Garçons? Acho que não... Políticos em cargos eletivos e ministros e secretários de estados e municípios – são essenciais? E os presidiários, terão alguma prioridade? Ou irão se rebelar exigindo a vacina nos presídios como prioridade? E os professores: educação é essencial?
Percebem como a coisa pode ser extremamente complicada, complexa e polêmica?
E, depois dessa galera toda das prioridades, ainda tem eu e outros milhões de brasileiros que precisaremos da vacina. Quanto tempo demorará até recebermos? Acredito que não menos do que seis meses... E como ficaremos, vendo outras pessoas sendo vacinadas, com sua vida garantida pela vacina, enquanto vamos continuar nos expondo diariamente ao vírus e à morte?
E como fazer essa classificação de tantas categorias num país onde o governo sequer consegue definir com precisão quem tem direito a um auxílio emergencial, deixando milhares de brasileiros que precisam sem receber, e outros tantos milhares que não precisam recebendo indevidamente? Só no Brasil, temos quase 220 milhões de habitantes. Quem é idoso? Quem trabalha em serviço essencial? Como controlar quem vai tomar a vacina na primeira leva, na segunda, na terceira? E quem mora na capital, tem prioridade sobre as cidades do interior?
Podemos somar a isso questões políticas. Bolsonaro ontem disse que a culpa por tantos 100 mil mortos é dos governadores adversários. Será que ele vai considerar prioritário distribuir a vacina para estados do Sul, de Minas Gerais e do Centro-Oeste que são aliados, deixando para o final da fila os estados do Nordeste, São Paulo e Rio de Janeiro, governados pelo PT, por Dória, por Witzel, por Fábio Dino e por outros “inimigos”? E se ele resolver que, antes de todo mundo, até mesmo dos médicos, é mais importante vacinar todos os membros das Forças Armadas e suas famílias, criando uma casta de vacinados de farda?
A quantidade de cenários possíveis é grande nesse novo mundo pós-vacina. Muito provavelmente teremos diferentes vacinas sendo oferecidas em diferentes países, usando diferentes métodos de imunização, e com diferentes resultados e diferentes disponibilidades. Reparem que na última frase usei redundantemente, por cinco vezes, a palavra diferente. É porque a diversidade vacinal tende a ser enorme.
Entrarmos em 2021 com cerca de 10 vacinas sendo aplicadas é apenas um cenário modesto. Se apenas 20% das 164 vacinas sendo desenvolvidas no momento vingarem, só aí teremos umas 33 vacinas disponíveis para a mesma doença. E a disponibilidade delas será bastante variada. Muito provavelmente, algumas serão distribuídas prioritariamente nos países onde foram criadas, como é o caso da Rússia. Os Estados Unidos de Trump adotaram uma estratégia totalmente egoísta: o governo usou o dinheiro do contribuinte norte-americano para financiar meia dúzia de grandes empresas (coisa de quase US$ 2 bilhões por empresa), inclusive de fora dos EUA, para produzir o mais rapidamente uma vacina que será aplicada exclusivamente no povo norte-americano. O plano de Trump, revelado recentemente, é ter a primeira dessas vacinas aprovada na véspera da eleição presidencial nos EUA, em novembro. Conveniente, não? E o plano prevê que os fabricantes começarão a fabricar as vacinas em grande quantidade tão logo os primeiros resultados da fase 3 sejam promissores, para ganhar tempo. Se algo der errado na fase 3, é só jogar fora milhões de pílulas ou ampolas fabricadas.
Agora vamos especular o que pode acontecer no Brasil. Temos duas vacinas de primeira linha sendo testadas aqui, a de Oxford em conjunto com a binacional AstraZeneca (anglo-sueca), em parceria com a Fiocruz e o governo federal; e a da Sinovac, farmacêutica chinesa, em parceria com o governo estadual de São Paulo.
Ambas são vistas como top entre as vacinas sendo desenvolvidas mundo afora, já estão na fase 3 e para o Brasil trouxeram uma grande vantagem: em troca de facilitarmos as coisas para que elas fossem testadas aqui em milhares de brasileiros voluntários de vários estados, a Fiocruz e o Instituto Butantã poderão fabricar a vacina tão logo ela esteja aprovada, para imunizar prioritariamente a população brasileira. Assim, muito provavelmente teremos duas opções de vacinas: uma federal e outra estadual paulista. E acabo de ler que o governo do Paraná, oportunisticamente, tem uma conversa amanhã com a Embaixada da Rússia para ver se consegue fabricar a vacina deles em território paranaense...
Mas nada impede que outras vacinas surjam por aqui, de maneira comercial. Algum laboratório europeu ou chinês poderá vender sua vacina no Rio ou São Paulo, em qualquer farmácia ou hospital privado. Assim, endinheirados que não estejam entre os grupos prioritários, e que não querem esperar meses para chegar sua vez de receber a vacina, poderão pagar mais caro para ganhar logo a tão esperada imunidade. Alguma empresa poderá fazer o mesmo para garantir a saúde de seus funcionários e acelerar a volta ao trabalho. Dou um exemplo hipotético: a Havaianas, que em sua fábrica em Campina Grande (PB) fabrica quantidades absurdas como 4 pares por segundo, com uma venda na faixa dos 250 milhões de pares por ano, não é um serviço essencial, mas o volume de sua produção é tão relevante para o negócio que talvez possa justificar uma vacinação onerosa de todos os funcionários.
Assim, poderemos ter aqui no Brasil vacina federal, vacina paulista, vacina de rico, vacina de pobre, vacina de prioritário, vacina de não-prioritário. E vacina da boa (que tem comprovada eficiência) e vacina paraguaia (barata, mas que ninguém sabe direito como foi feita e se funciona mesmo).
Não me surpreenderia também se houvesse roubos de cargas de vacina, que, por exemplo, poderiam ser oferecidas com exclusividade pelas milícias nas áreas sob seu controle. Ou mesmo imunizar o exército de traficantes das favelas do Rio e do PCC em várias cidades país afora, pois esses cidadãos armados com certeza não alcançarão a prioridade necessária para serem vacinados logo.
A nova temporada dessa série macabra vai ser, com certeza, emocionante! Todo mundo vai querer ser vacinado logo, e não haverá vacina para todo mundo. Imaginem o que já acontece hoje às 5h da madrugada nas filas na porta das agências da Caixa onde milhares se apinham para tentar saber se têm direito a receber os R$ 600 reais, agora transponham esse cenário para os hospitais e postos de saúde vacinando milhões em milhares de cidades ao mesmo tempo. Certamente teremos pelo menos dois aplicativos, Vacina SUS e Vacina SP, tentando organizar as prioridades e dar informações. E se uma pessoa já tomou a vacina paulista, poderá tomar também a vacina federal, para aplicar uma dose dupla de veneno no vírus? Será que dá alguma ziquizira no organismo?
Um espectro ronda o mundo, o espectro da vacinação limitada, num primeiro momento, para poucos privilegiados. Não vacinados, uni-vos!