terça-feira, 11 de agosto de 2020

A corrida do ouro da vacina

A Rússia anunciou nas últimas semanas, com alguma pompa, que em outubro de 2020 começaria a aplicar a nova vacina contra a Covid-19 em milhares de russos. Agora, em 11 de agosto, renovou a pompa para comunicar que registrou sua vacina – a primeira e pioneira do mundo! O “registro” significa que a Anvisa russa autorizou o uso da vacina como um remédio legalmente aprovado pela autoridade de vigilância sanitária. “O presidente Vladimir Putin disse que uma de suas filhas já foi vacinada”, diz matéria do Uol.

Ninguém sabe ao certo se a vacina produzida na terra de Putin será eficaz e segura. Pelo que leio no noticiário, é uma vacina mais para roleta russa do que para inovação científica. Se colar, colou. O importante é chegar na frente do restante do mundo.

A Rússia está de olho no diferencial competitivo que significa sair na frente imunizando a população nacional contra a Covid-19. No noticiário, as informações vindas do diretor do Instituto Gamaleya, que desenvolve a vacina russa, preocupam os cientistas. O noticiário internacional aponta que os russos “atropelaram” a fase 3 dos testes para aprovação de sua vacina, contrariando normas científicas internacionais. Alguns médicos participantes da pesquisa teriam inclusive usado voluntariamente a vacina em si mesmos, como cobaias, prática condenada pela comunidade científica mais séria.

As vantagens de sair na frente como o primeiro país a ter a vacina contra o coronavirus SARS-CoV-2 são inúmeras – em tese, ou seja, desde que tudo funcione direitinho.

Em primeiro lugar, com a vacinação em massa, eliminando o vírus do corpo de milhões de pessoas de um país, mais gente poderá voltar mais rapidamente ao trabalho. Isso coloca a economia nacional em vantagem sobre seus concorrentes internacionais, além de amenizar os impactos econômicos fortíssimos, como o desemprego, a quebradeira de empresas e setores específicos (como o Turismo, as empresas aéreas e a indústria de entretenimento) e a paralisia da atividade econômica. Reduz também, de forma drástica, os gastos do Estado com saúde e outros recursos necessários para a imposição de quarentenas, isolamentos, lockdown e tratamentos médicos, incluindo a compra de equipamentos caros para as UTIs. Permite a reabertura das escolas e do comércio e indústrias em geral, além da normalização dos serviços públicos. E, com a economia voltando a funcionar, empresas e pessoas voltarão a pagar impostos, restabelecendo o equilíbrio fiscal. Diminui bastante os números de morte de idosos e demais grupos de riscos, elevando o moral da população.

Além disso, a Rússia poderá sair na frente de seus concorrentes na exportação da vacina pioneira, garantindo desde já seu papel na dianteira de uma das maiores guerras comerciais da história da humanidade – onde o regime de Putin enfrenta principalmente os Estados Unidos e a China.

Esse inesperado arrebatamento vacinal dos russos é o filme piloto da segunda temporada da nada popular série de reality show (e bota reality nisso) “A melhor Pandemia do mundo é aqui e agora”.

Atualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) há pelo menos 25 vacinas em fase de testes clínicos em seres humanos, de um total de 164 sendo desenvolvidas por farmacêuticas privadas e centros de pesquisa públicos ou independentes. E somente cinco entraram na famosa fase 3 dos testes.

Aqui vale uma explicação rápida para quem não acompanha de perto o assunto. Para se validar uma vacina antiviral é preciso que ela passe por três fases de testes com humanos, isso depois de já ter sido testada em laboratório (in vitro) e em animais. A primeira fase é com um grupo bem reduzido mesmo, tipo 20 pessoas. A segunda fase – que só acontece se na primeira os testes derem resultados promissores – já inclui um grupo bem maior, de até mil pessoas. Se os resultados continuarem bons, vem a terceira e decisiva fase, que significa a testagem em milhares de pessoas, algo como 15 mil a 20 mil seres humanos. Esse é o procedimento científico aceito mundialmente. Algumas vacinas chegam à fase 3 e não passam no último teste, e aí o investimento todo é perdido. Mas de maneira geral chegar à fase 3 é um ótimo indício de que o produto tem boas chances de vingar.

E quais são os critérios para se passar no Enem da vigilância sanitária dos países e ter um produto aprovado pelo órgão regulador de medicamentos e disponível para oferecer ao mercado epidêmico de Covid-19? Basicamente, é preciso atender a três critérios:

1 – Ser eficiente, ou seja, imunizar a grande maioria contra o vírus. A definição de “grande maioria” é vaga, mas o bom senso diria algo em torno de 80% a 99% dos pacientes. O ideal, claro, é 100%.

2 – Ter o mínimo de efeitos colaterais. Ou seja, não causar febres, diarreias, alergias, tonteiras, enjoos, arritmias cardíacas, inflamações, disfunção renal. Em outras palavras, o remédio não pode causar outras doenças.

3 – Não ter contraindicações. A vacina tem que servir para grávidas, hipertensos, diabéticos, cardíacos, alérgicos, esplenectomizados, alcoólatras, esquizofrênicos, para todo mundo mesmo.

Há outros fatores a serem considerados. A vacina será aplicada em apenas uma ou em mais doses? Qual o seu custo? Será uma gotinha aplicada na boca das pessoas, um comprimido ou terá que ser com injeção? A imunização oferecida vai durar apenas um ano, como acontece com a vacina contra a gripe – o que nos obrigará a nos vacinarmos anualmente contra a Covid-19? A produção industrial será suficiente para atender a toda a humanidade – mais de 7 bilhões de pessoas? A logística de vacinação conseguirá atingir a quantos por cento desses 7 bilhões? Será o suficiente para acabar com a Covid-19?

Outra questão, também altamente relevante, com fortíssimo impacto social, político e econômico, é o planejamento da aplicação das primeiras vacinas. Coisa que o Brasil (leia-se Ministério Militar da Saúde) sequer parece ter começado a fazer.

O cenário que nos espera é o seguinte. Sendo aprovada a vacina pela Anvisa de todos os países, um procedimento que costuma demorar anos mas que desta vez sairá a toque de caixa (com todos os erros esperados de processos a toque de caixa), não haverá vacina para todo mundo no primeiro momento (a capacidade de fabricação, distribuição e aplicação tem muitos limites). A questão é: quem deverá ser vacinado primeiro?

Pelo que tenho lido, há alguns consensos internacionais. O maior de todos é o de que os profissionais da Saúde devem ser os primeiros a receber a vacina, especialmente aqueles que trabalham em hospitais e postos de saúde. Faz muito sentido, esses heróis estão expostos o tempo todo ao vírus, muito mais do que as demais pessoas, e eles são fundamentais para tratar clinicamente os infectados.

Um segundo grupo prioritário seria a população dos grupos de risco, que são os que mais facilmente contraem a Covid-19 e mais facilmente morrem em consequência dela. A começar pelos idosos – faltando definir se idoso é quem atingiu 60, 65 ou 70 anos. Em seguida, viriam os portadores de doenças crônicas de todas as idades (cardíacos, hipertensos, com câncer, diabéticos, com doenças respiratórias etc.). Mais recentemente, os obesos e fumantes vêm sendo incluídos nessa classificação de risco.

Outro grupo prioritário seria o de trabalhadores nos serviços essenciais. Precisamos deles para que as coisas funcionem. Em primeiro lugar, há os trabalhadores do serviço público mais essencial: policiais, bombeiros, militares. Na iniciativa privada, teríamos os trabalhadores no comércio e na produção de alimentos e remédios, os agricultores, os aeronautas, os motoristas de carga, os motoboys do delivery, os taxistas e uberistas, os fabricantes e vendedores de quentinhas e embalagens (sem embalagens não há delivery...), os trabalhadores de manutenção dos serviços básicos (energia elétrica, internet, correios, gás, água, esgoto, limpeza urbana, coleta de lixo, iluminação pública), profissionais de rodoviárias, aeroportos e portos, técnicos de manutenção de computadores, de geladeiras, de máquinas de lavar, de televisores, de ar condicionado... A lista é enorme. E pode ser agregada de várias formas. Jornalista trabalha num serviço essencial? Eu acho que sim. Mecânicos de veículos (carros, ônibus, motos) eu acho mais que essencial. Operários da construção civil? Aí tenho dúvidas... Cozinheiros? Sim, com certeza. Garçons? Acho que não... Políticos em cargos eletivos e ministros e secretários de estados e municípios – são essenciais? E os presidiários, terão alguma prioridade? Ou irão se rebelar exigindo a vacina nos presídios como prioridade? E os professores: educação é essencial?

Percebem como a coisa pode ser extremamente complicada, complexa e polêmica?

E, depois dessa galera toda das prioridades, ainda tem eu e outros milhões de brasileiros que precisaremos da vacina. Quanto tempo demorará até recebermos? Acredito que não menos do que seis meses... E como ficaremos, vendo outras pessoas sendo vacinadas, com sua vida garantida pela vacina, enquanto vamos continuar nos expondo diariamente ao vírus e à morte?

E como fazer essa classificação de tantas categorias num país onde o governo sequer consegue definir com precisão quem tem direito a um auxílio emergencial, deixando milhares de brasileiros que precisam sem receber, e outros tantos milhares que não precisam recebendo indevidamente? Só no Brasil, temos quase 220 milhões de habitantes. Quem é idoso? Quem trabalha em serviço essencial? Como controlar quem vai tomar a vacina na primeira leva, na segunda, na terceira? E quem mora na capital, tem prioridade sobre as cidades do interior?

Podemos somar a isso questões políticas. Bolsonaro ontem disse que a culpa por tantos 100 mil mortos é dos governadores adversários. Será que ele vai considerar prioritário distribuir a vacina para estados do Sul, de Minas Gerais e do Centro-Oeste que são aliados, deixando para o final da fila os estados do Nordeste, São Paulo e Rio de Janeiro, governados pelo PT, por Dória, por Witzel, por Fábio Dino e por outros “inimigos”? E se ele resolver que, antes de todo mundo, até mesmo dos médicos, é mais importante vacinar todos os membros das Forças Armadas e suas famílias, criando uma casta de vacinados de farda?

A quantidade de cenários possíveis é grande nesse novo mundo pós-vacina. Muito provavelmente teremos diferentes vacinas sendo oferecidas em diferentes países, usando diferentes métodos de imunização, e com diferentes resultados e diferentes disponibilidades. Reparem que na última frase usei redundantemente, por cinco vezes, a palavra diferente. É porque a diversidade vacinal tende a ser enorme.

Entrarmos em 2021 com cerca de 10 vacinas sendo aplicadas é apenas um cenário modesto. Se apenas 20% das 164 vacinas sendo desenvolvidas no momento vingarem, só aí teremos umas 33 vacinas disponíveis para a mesma doença. E a disponibilidade delas será bastante variada. Muito provavelmente, algumas serão distribuídas prioritariamente nos países onde foram criadas, como é o caso da Rússia. Os Estados Unidos de Trump adotaram uma estratégia totalmente egoísta: o governo usou o dinheiro do contribuinte norte-americano para financiar meia dúzia de grandes empresas (coisa de quase US$ 2 bilhões por empresa), inclusive de fora dos EUA, para produzir o mais rapidamente uma vacina que será aplicada exclusivamente no povo norte-americano. O plano de Trump, revelado recentemente, é ter a primeira dessas vacinas aprovada na véspera da eleição presidencial nos EUA, em novembro. Conveniente, não? E o plano prevê que os fabricantes começarão a fabricar as vacinas em grande quantidade tão logo os primeiros resultados da fase 3 sejam promissores, para ganhar tempo. Se algo der errado na fase 3, é só jogar fora milhões de pílulas ou ampolas fabricadas.

Agora vamos especular o que pode acontecer no Brasil. Temos duas vacinas de primeira linha sendo testadas aqui, a de Oxford em conjunto com a binacional AstraZeneca (anglo-sueca), em parceria com a Fiocruz e o governo federal; e a da Sinovac, farmacêutica chinesa, em parceria com o governo estadual de São Paulo.

Ambas são vistas como top entre as vacinas sendo desenvolvidas mundo afora, já estão na fase 3 e para o Brasil trouxeram uma grande vantagem: em troca de facilitarmos as coisas para que elas fossem testadas aqui em milhares de brasileiros voluntários de vários estados, a Fiocruz e o Instituto Butantã poderão fabricar a vacina tão logo ela esteja aprovada, para imunizar prioritariamente a população brasileira. Assim, muito provavelmente teremos duas opções de vacinas: uma federal e outra estadual paulista. E acabo de ler que o governo do Paraná, oportunisticamente, tem uma conversa amanhã com a Embaixada da Rússia para ver se consegue fabricar a vacina deles em território paranaense...

Mas nada impede que outras vacinas surjam por aqui, de maneira comercial. Algum laboratório europeu ou chinês poderá vender sua vacina no Rio ou São Paulo, em qualquer farmácia ou hospital privado. Assim, endinheirados que não estejam entre os grupos prioritários, e que não querem esperar meses para chegar sua vez de receber a vacina, poderão pagar mais caro para ganhar logo a tão esperada imunidade. Alguma empresa poderá fazer o mesmo para garantir a saúde de seus funcionários e acelerar a volta ao trabalho. Dou um exemplo hipotético: a Havaianas, que em sua fábrica em Campina Grande (PB) fabrica quantidades absurdas como 4 pares por segundo, com uma venda na faixa dos 250 milhões de pares por ano, não é um serviço essencial, mas o volume de sua produção é tão relevante para o negócio que talvez possa justificar uma vacinação onerosa de todos os funcionários.

Assim, poderemos ter aqui no Brasil vacina federal, vacina paulista, vacina de rico, vacina de pobre, vacina de prioritário, vacina de não-prioritário. E vacina da boa (que tem comprovada eficiência) e vacina paraguaia (barata, mas que ninguém sabe direito como foi feita e se funciona mesmo).

Não me surpreenderia também se houvesse roubos de cargas de vacina, que, por exemplo, poderiam ser oferecidas com exclusividade pelas milícias nas áreas sob seu controle. Ou mesmo imunizar o exército de traficantes das favelas do Rio e do PCC em várias cidades país afora, pois esses cidadãos armados com certeza não alcançarão a prioridade necessária para serem vacinados logo.

A nova temporada dessa série macabra vai ser, com certeza, emocionante! Todo mundo vai querer ser vacinado logo, e não haverá vacina para todo mundo. Imaginem o que já acontece hoje às 5h da madrugada nas filas na porta das agências da Caixa onde milhares se apinham para tentar saber se têm direito a receber os R$ 600 reais, agora transponham esse cenário para os hospitais e postos de saúde vacinando milhões em milhares de cidades ao mesmo tempo. Certamente teremos pelo menos dois aplicativos, Vacina SUS e Vacina SP, tentando organizar as prioridades e dar informações. E se uma pessoa já tomou a vacina paulista, poderá tomar também a vacina federal, para aplicar uma dose dupla de veneno no vírus? Será que dá alguma ziquizira no organismo?

Um espectro ronda o mundo, o espectro da vacinação limitada, num primeiro momento, para poucos privilegiados. Não vacinados, uni-vos!

 

sábado, 11 de julho de 2020

O normal, o anormal e o novo normal



Encyclopedia Brittanica online:
Norm, also called Social Norm, 
rule or standard of behaviour shared
by members of a social group.



Dicionário Michaelis online: 
1 Conforme a norma; regular: 
O juiz aplicou a sanção normal ao caso.
2 Que é comum e que está presente
na maioria dos casos;
habitual, natural, usual:
“[…] essa dor que eu estou sentindo
no braço não pode ser normal”
3 Tudo que é permitido e aceito socialmente:
“Divorciar-se é prática
bastante normal hoje em dia”. 
4 Diz-se de pessoa que não tem defeitos 
ou problemas físicos ou mentais:
“Um aluno normal”. 


Caetano Veloso:
"De perto, ninguém é normal..."




Uma das grandes ansiedades destes tempos pandêmicos é sobre nosso futuro e a obsessão pela volta ao normal, à normalidade.


Quando a vida vai voltar ao normal?”, perguntam-se centenas de milhões de pessoas no mundo.

Como será o novo normal?”, questionam-se outras tantas, já convencidas de que nada será como antes, amanhã.

Que será, será, whatever will be, will be, the future's not ours to see, what will be, will be…”, já cantava em 1956 a linda Doris Day, no clássico de Alfred Hitchcock “O homem que sabia demais”.

A pandemia de Covid-19 (doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2) tem uma rapidez incomum de infecção e também em termos de impacto geral sobre o mundo todo. 

Estamos em meados de julho. A coisa começou pra valer no Brasil da segunda para a terceira semana de março, com as primeiras quarentenas. Ou seja, tem quatro meses apenas, equivalente a um Outono com mais algumas semanas de Inverno. E nesse curto período chegamos a mais de 70 mil mortos...

Ah, tá tudo normal, a verdade é que nunca houve isolamento, as lojas estão tudo aberta, cheio de gente na Mureta da Urca, na feira da Glória...”.

Essa visão de normalidade veio de uma amiga, no final de maio, revoltada com tanta gente que não cumpria o isolamento social.

Porém, um mês depois de o prefeito Marcelo Crivella ter iniciado o relaxamento gradual das normas de isolamento social, saio à rua aqui em Copacabana para ir a mercado e farmácia e continuo achando tudo muito anormal. 

Como poderia ser normal se há várias lojas, bares e restaurantes ainda fechados ou semiabertos? Se o produto mais vendido pelos camelôs é a máscara facial? Se vejo tantas pessoas com máscara na rua e, em número menor, outras com a máscara no queixo? O que tem de normal nisso? 

Atenção: Devido à pandemia do COVID-19, interprete os seus trânsitos considerando as normas de saúde e o isolamento social necessários neste período”. Como pode estar normal se, a cada e-mail que recebo de alerta sobre  meus trânsitos astrológicos do site Personare, vem essa mensagem em tarja preta? Como os astros podem trabalhar direito a nosso favor em meio ao isolamento social?

Vejam essa outra recomendação que recebi esta semana sobre um trânsito astrológico: 

Este tende a ser um perí­odo particularmente positivo para o sexo, o prazer, uma fase em que você provavelmente sentirá que está irradiando um magnetismo pessoal maior, e de fato estará... Só que um trânsito como este, no momento em que estamos vivendo uma crise sanitária sem precedentes, só deve ser aproveitado se você estiver não apenas em uma relação monogâmica, mas vivendo com a pessoa. Caso você não tenha um amor neste momento, convém se exibir mais, fazer-se ver, mas lembre-se: até a crise do coronavírus passar, tudo terá de ser online.

Não tem nada de normal nisso aí.

Em conversas com amigos pelo Facebook ou pelo zap, constato que várias pessoas se isolaram quase 100%. Alguns ficaram mais de 90 dias sem botar o pé na rua um único dia, vivendo de delivery lavado minunciosamente a álcool em gel. Teve isolamento social sim, e muita gente cumpriu à risca.

Ouvi o relato de uma amiga que já está aposentada e que teve que ir ao Itaú para fazer “prova de vida”, exigência para continuar a receber sua pensão. Ela é dessas que não têm saído de casa para nada, e ficou emocionalmente esgotada com essa experiência de ir ao banco, enfrentar fila para entrar, demorar para ser atendida e se estressar morrendo de medo de ser engolida por qualquer corona escondido atrás do caixa automático.

O sono é outra coisa que saiu do normal para muita gente. Não há mais horário para chegar ao trabalho, embora se tenha horário para entrar na reunião live do home-office. Escrevi esse artigo em dias alternados, sempre entre 4h e 6h da madrugada. Meu sono bagunçou já há várias semanas, meu horário normal de acordar seria umas 7h. Recentemente, numa live com amigos de faculdade, a insônia foi um dos temas. Uma amiga discorreu sobre os quatro remédios que ela cultiva há anos na cabeceira, um para cada ocasião de insônia, e que têm sido mais utilizados neste período incerto.

Minhas camisas sociais, que eu usava para trabalhar, estão socadas em uma mala, sem passar, esquecidas, sem perspectiva de uso. Calça comprida? Tem tempos que não uso. 

Algum amigo no Facebook contou de uma enquete que uma conhecida fez entre suas amigas: “Quem ainda está usando sutiã?”. Relatou que as respostas foram as mais estapafúrdias, mas a maioria das dezenas de respondentes disse que o sutiã está temporariamente fora de uso no dia a dia. 

E passar roupa? Praticamente aboli esse hábito da minha vida, e sei que muita gente também deixou de lado. Só para ficar em casa, não carece a formalidade de uma roupa bem passada para manter as aparências. A maioria usa roupas confortáveis com as quais não sairiam para trabalhar. O equivalente àquilo que antigamente chamávamos de pijama. Em outras palavras, tudo anormal. 

Chegou a mim uma matéria com um vídeo de uma audiência virtual da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça na Paraíba em que dois desembargadores chamam a atenção de um advogado:
Nós todos usamos gravata, é o padrão de quem exercita o labor jurídico. Sobremodo, em uma sessão solene”. 
O nobre advogado estava de terno e camisa social, bastante apresentável, e achou que, numa audiência online, a gravata não fazia sentido. Os desembargadores, entretanto, transportaram a normalidade do fórum para as telinhas do Zoom. Se debaixo do vídeo o advogado estava de short, bermuda ou apenas de cuecas, são outros 500, até porque ninguém conseguia ver na telinha do Zoom, e aí não há desembargador que dê jeito na aplicação da norma.

Live, home-office, zoom... Essas palavras de origem inglesa não eram normais quatro meses atrás. Agora, repetimos elas todo santo dia. Máscara no rosto? Só no carnaval ou para roubar banco. Santos Dumont e Congonhas sem viva alma às 7h da manhã numa segunda-feira? Impensável...

Outro dia acordei pensando numa cena que me veio em sonho. Eu estava na rua e vi uma amiga encontrar-se com um conhecido. Eles se abraçaram e conversaram felizes. Acordei confundindo sonho com realidade: “Já pode abraçar de novo? Voltamos ao normal?” O abraço é uma das coisas que uma amiga querida mais sente falta nesta quarentena infinita. Diariamente ela me relata essa sofrência da falta de abraços, do contato físico, do cara a cara sem máscaras com pessoas queridas.

Não sei se éramos realmente normais antes, mas fato é que estamos vivendo numa grande anormalidade. A Pizzaria Guanabara, ícone da boemia criativa do Baixo Leblon dos anos 80 e 90, anunciou seu encerramento definitivo. Será que a Livraria Argumento – minha livraria mais querida... – com seu delicioso Café Severino ao fundo, vai sobreviver a essa epidemia? Aliás, será que ainda teremos alguma livraria aberta quando a vida voltar ao “normal”? A Leonardo da Vinci (outra livraria muito querida) está reabrindo a duras penas. Em Santa Teresa, ouvi que o Bar do Mineiro (outro ícone da tradicional boemia carioca) não deve abrir mais; o restaurante Espírito Santa já formalizou seu fechamento, inclusive pondo à venda móveis e obras de arte que decoravam suas paredes. E o Arnaudo, a Adega do Pimenta, o Sobrenatural, será que sobreviverão? O Pavão Azul de Copacabana anda funcionando na base do delivery e quando Crivella afrouxou as normas já teve uma aglomeração pra chamar de sua. Estou sem notícias do Cervantes e da Fiorentina. A Trattoria da Fernando Mendes também respira com a ajuda do delivery.

O normal, como o conhecíamos, já não existe mais. E me parece que não tem volta. Vem aí um “novo normal”. No momento, porém, continua tudo bem anormal. Porque o futuro segue totalmente indefinido. 

Teremos vacina? Quando? Sequer sabemos se haverá Jogos Olímpicos em 2021, daqui a um ano. O Carnaval de 2021 já subiu em cima do muro, talvez aconteça em junho ou julho, depende da vacina...

Um grande amigo, pesquisador científico com pós doutorado, estava acostumado a viajar ao menos uma vez por mês, para dar palestras, participar de seminários, reuniões de trabalho ou realizar alguma pesquisa. Ia ao exterior em média duas a três vezes por ano. Ele gostava dessa rotina meio nômade, pois conhecia lugares e pessoas novas. Hoje, já sabe, desconsolado, que essa vida acabou. As passagens aéreas ficarão caríssimas e todas as instituições já descobriram que dá para economizar nas viagens de avião e quebrar o galho com reuniões e conferências virtuais, que são muito mais baratas.
Como live cansa, meu Deus...”. 
Desabafo de outra amiga, depois de ficar ouvindo seu chefe na telinha pequena dentro do monitor do computador por quase duas horas. Live não tem cheiro, não tem detalhes do rosto da pessoa, não tem a temperatura ambiente, não sabemos o que acontece da janela pra fora naquele local onde está a outra pessoa. É uma coisa fria, de imagens embaçadas e de vozes nem sempre em tom audível. Mas não teve jeito, tivemos que aceitar as lives sem questionamentos e sem preparo prévio. Porém, live não é normal, é artificial. E ainda tem os travamentos, quando a imagem da pessoa congela e perdemos parte do que ela disse. Numa reunião presencial, se alguém trava e congela, chamamos logo um médico... na live, só nos resta culpar a Net, a Vivo, a Claro... 

Esta semana, vi corrida de Fórmula 1 e Fla-Flu na TV, ambos sem público. As duas competições numa anormalidade só... O técnico à beira do gramado usava máscara, os jogadores, o juiz e os bandeirinhas em campo, não usavam. O juiz foi advertir o técnico, falando com ele a menos de meio metro de distância: o juiz sem máscara, o técnico mascarado. Tudo errado. No banco de reservas, a maioria com máscara, mas não todos. Estavam separados por uma cadeira, mas na hora do gol, todos se abraçaram, mascarados e não mascarados. Jogador discutindo com juiz é um tal de soltar gotículas para lá, gotículas para cá, diretamente na cara um do outro... A norma estava bem bagunçada, não dava para entender o critério. O jovem corredor novato da F1 que chegou em terceiro lugar, um grande feito para ele, tão logo saiu do carro correu eufórico para abraçar alguém de sua equipe. Ambos sem máscara. Tem lugar para a euforia no protocolo? Porque esporte sem a euforia da vitória não existe...

A ansiedade em torno do futuro é ampla, geral a irrestrita. Universidades federais, que não têm os mesmo recursos que as privadas para partir para a aventura didática das aulas online, estão falando em retomar os trabalhos educativos somente quando vier a vacina – algo esperado, na prática (com filas de vacinação em todo o país), em meados do primeiro semestre de 2021. Um colega professor da UFRJ me disse que já estão falando por lá em a volta de um ano letivo normal acontecer apenas em 2022. Escolas de ensino básico e fundamental estão voltando com parte dos alunos na sala, parte em casa, em esquema de rodízio. Isso é normal?

A volta ao trabalho no escritório é outro drama. Quando volta? Quem volta e quem continuará definitivamente em home-office? Como será essa volta? A única coisa que se sabe é que não será uma volta ao antigo normal. Alguns, inclusive, não irão a lugar nenhum, pois já foram demitidos no meio da crise. 

Boa parte dos restaurantes a quilo do Centro do Rio, por exemplo, dificilmente reabrirá as portas; para os trabalhadores que voltarem aos escritórios, haverá menos lugares para comer na rua. E aqueles que têm filhos na escola e dependem de empregada e babá para poder trabalhar? Sem a escola funcionando normalmente, como poderão retornar ao escritório?

Lavar o pacote de batata palha que chegou do supermercado é normal? Nunca foi, mas pode começar a entrar na lista de normalidades de muita gente boa por aí. Antigamente, era normal convivermos com bactérias mis. Quantas e quantas latas de cerveja de ambulantes eu bebi colocando minha boca direto naquele metal que veio misturado sabe-se lá com o quê no isopor sem qualquer medida de higiene, com a água derretida daquele gelo sem qualquer comprovação de procedência ou limpeza? E a água do mate da praia, cuja procedência sempre foi um grande mistério, mas que nunca matou ninguém?

Vivemos e ainda viveremos acho que por alguns anos esses tempos sanitários que não são normais. Antigamente (tipo, em fevereiro passado...) o contato com a sujeira tinha até uma qualidade: criava anticorpos. Comer um doce com uma formiguinha no meio? “Faz bem pros olhos”. Salgado bom na vitrine do balcão do boteco? "É aquele que tem a mosca em cima, pois mosca entende de salgado...". O normal era fazermos vista grossa a inconsistências sanitárias do dia a dia de bares e restaurantes. E agora, José?

Outra questão: será que abraços e afagos físicos voltarão a ser o normal? Esses eu desconfio que sim. Cariocas, e brasileiros de maneira geral, adoram se abraçar, pegar na mão, no braço, ter contato físico mesmo, olho no olho. Eu sou assim, muita gente é assim. A vontade e a ansiedade natural de se abraçar acho que ainda não foram extintas pelos protocolos da anormalidade.

Mais uma questão: quando a aglomeração voltar e o Maracanã encher-se novamente, duvido que os homens passem a lavar as mãos após fazer xixi no banheiro. A bem da verdade, muitos, como eu, lavam suas mãos no mictório (às vezes apenas com água, porque nem sempre tem sabão). Mas é grande a percentagem de homens que ignoram solenemente o lavar de mãos após pegar na genitália e soltar o xixi no vaso. Será que isso vai mudar, depois de tanta propaganda para a importância de se lavar as mãos? Tenho dúvida. O antigo normal é capaz de falar mais forte.

E a máscara, veio para ficar? Falam muito nisso, mas também tenho sérias dúvidas. Sempre que se come, se bebe ou se fuma, tira-se a máscara. Alguns tiram inclusive para falar ao celular. Outros para fazer exercícios. 

Creio que quando voltar a segurança de que não tem mais nenhum vírus no ar ameaçando mandar todo mundo para a UTI, as pessoas começarão a deixar as máscaras em casa. Como paquerar alguém com máscara (sem ver o rosto e a expressão dos lábios...) e distanciamento de metro e meio? Máscara não é normal, ninguém gosta dela, usamos porque não tem jeito, tem que usar...  Alguma normalidade à antiga as pessoas irão manter.

O Rio de Janeiro é uma cidade rueira, cariocas de maneira geral gostam de sair de casa, de segunda a domingo, todo dia é dia, toda hora é hora. Sair para caminhar, para jantar ou beber com amigos, para fazer compras, para ir à academia, ao cabeleireiro, ao ensaio do bloco, à praia, ao cinema, pra tomar um sol ou apenas ver outras pessoas. Esse é o normal da Cidade Maravilhosa. Onde ninguém aguenta mais ficar tanto tempo dentro de casa.

E o sexo? Apaixonados, amantes, frequentadores de casas de saliência, a galera do Tinder e do Happn, azaradores em geral, paqueradores de ocasião, casais de namorados... Eu não tenho dúvidas de que, como cantava Nelson Cavaquinho, “O sol há de brilhar mais uma vez...”. Se será do jeito normal, ou não, é que é difícil saber. Será que o tesão vai vencer o medo? 

Com tudo isso, com toda saudade e apego a nossas normalidades culturais e históricas, um novo normal vem por aí. Cheio de anormalidades, é claro. Mas será a norma. 

Porém, tem uma coisa que me preocupa e incomoda muito: a morte cada vez mais sendo encarada como uma coisa normal. 

Para mim, esse é um dos legados mais negativos desta epidemia. Até fevereiro, se acontecesse um acidente de carro com 5 mortos no Aterro, a Zona Sul inteira comentaria horrorizada. Hoje, morrem mais de mil brasileiros por dia e as pessoas mais e mais estão se incomodando muito pouco isso. Alguns até viram de canal na hora que entram essas notícias. "Mil e duzentos mortos? Normal, nada de novo..."

Só que não. Não é nada normal. É, sim, o fim da picada. Onde foi parar nossa revolta emocionada, nossa insatisfação com esse estado de coisas? 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

“O home-office veio para ficar”


Esse é um novo mantra no ambiente das grandes corporações. E também de pequenas e médias empresas de vários tipos, que têm em sua força de trabalho grande número de profissionais cuja principal ferramenta de ofício é um computador ligado à Internet.

Algumas grandes empresas já anunciaram oficialmente que vão adotar o home-office, em diferentes níveis. A pandemia de Covid-19 ainda não acabou e por isso todavia é cedo para afirmar que todas as declarações corporativas de primeiro momento irão se cumprir, a coisa está muito dinâmica e fatos novos podem surgir para impor mudanças de rumo.

Mas são muitas as evidências apontando para esse mantra. Há poucos dias, num webinar (neologismo que também veio para ficar) promovido pela Abracom e pelo Comunique-se sobre “Impactos da Covid-19 na Comunicação Corporativa”, os participantes, líderes de importantes agências de comunicação e a diretora head de Comunicação do PayPal, Tânia Magalhães, relataram que várias empresas estão constatando – com surpresa – que a produtividade de seus funcionários aumentou com o home-office. E havia consenso entre eles de que as empresas partirão efetivamente para o home-office, em maior ou menor escala e sem um padrão comum pré-definido. Cada uma está ensaiando seus próprios modelos.

Do que ouvi nesse webinar – e também li em diferentes matérias e artigos de opinião, e ouvi de conversas com amigos – percebo que há certa segurança em se dizer que só pequenas empresas, e de determinados setores (como TI), conseguirão 100% de home-office. Ao mesmo tempo, vários modelos de home-office parcial vêm sendo cogitados. Por exemplo, colocar parte da força de trabalho para trabalhar em casa full-time, num percentual que vai variar de empresa para empresa (de acordo com as características de cada negócio). Um terço, metade ou dois terços da força de trabalho em home-office são algumas ideias que vejo repetidas por aí.

Outro modelo sendo discutido é a colocação de uma grande parte dos funcionários em home-office parcial, por 3 a 4 dias por semana. Isso reservaria ao menos um dia para reuniões físicas e resolução de eventuais problemas burocráticos que podem exigir a presença do funcionário, além de promover maior integração entre colegas que trabalham remotamente. Já vi um esquema assim uns oito anos atrás, com a equipe de comunicação digital (mídias sociais) de uma agência que prestava serviço ao governo do Estado, onde eu trabalhava. Os “funcionários” da agência eram nerds especialistas em mídias sociais que trabalhavam de casa. Porém, uma vez por semana, na sexta à tarde, se reuniam na agência com seu coordenador por várias horas para alinhar o trabalho e receber orientações.

Esse webinar revelou-me muitas coisas interessantes sobre o tema, informações que coincidentemente eu complementei com outras ouvidas no mercado. Por exemplo, o aumento de produtividade aconteceu para razoável maioria, mas não com todos. E as exceções são importantes, especialmente para empresas onde seu principal recurso são os profissionais qualificados e já treinados para o que precisam.

Ouvi pela primeira vez a expressão “hell-office”, um trocadilho muito inteligente com home-office. É aplicado principalmente a mães com filhos e que tiveram que começar a trabalhar isoladas socialmente, mas com as crianças dentro de casa. Da noite para o dia, essas mulheres foram forçadas a se multiplicar em três neste período pandêmico: para trabalhar para a empresa (1); para cuidar das crianças em tempo integral e atuar como professora improvisada de apoio às aulas online (2); e para gerenciar a casa no modo isolamento – limpeza sem empregada, compras delivery que tem que ser lavadas ao chegar, providenciar comida para todos etc. (3).

Outro grupo detectado que não aumentou a produtividade é o de profissionais que funcionam melhor tendo a convivência física com colegas de trabalho. Sou um desses. Apesar de estar há muito tempo trabalhando de casa, adoro um escritório, um crachá, sair de casa para trabalhar, sou bem mais produtivo e motivado no ambiente corporativo. Em casa, me distraio muito, é mais difícil me concentrar no trabalho. Entendo perfeitamente essa minoria.

Mas a coisa não para por aí. O home-office traz muitos outros desafios para as empresas. Kiki Moretti, fundadora e CEO da In Press (uma das maiores agências de comunicação do Brasil), contou no webinar que teve que providenciar a remessa de cadeiras do escritório da sede da empresa para a casa de seus colaboradores. Coincidentemente, ouvi de uma amiga que a filha dela, que trabalha aqui no Rio para uma multinacional com sede na Califórnia, recebeu da empresa um depósito de R$ 1.300 para comprar uma cadeira de escritório decente para trabalhar em casa. 

Essa preocupação faz todo sentido. Pouquíssimos tinham um escritório em casa, adequado para ficar 8 a 12 horas por dia sentado em frente ao micro, com ar condicionado, cadeira confortável, mesa do tamanho adequado, tela grande de computador, máquina de café etc. De repente, muitos se viram bastante desconfortáveis trabalhando de casa, em mesas e cadeiras improvisadas, com luz inadequada. As costas e outras partes do corpo começaram a reclamar. Alguns sequer tinham computador rápido como os que usavam no trabalho, ou com memória e sistema operacional que aceitasse os softwares utilizados pela empresa.

Futuramente, não me surpreenderia se questões médicas aflorarem como fruto do longo isolamento. Não apenas nas colunas, mas tendinite nos pulsos e problemas de visão – sem falar em questões de saúde mental, pois alguns agora estão sozinhos em casa, não apenas isolados, mas totalmente solitários. Por exemplo, passar de repente de um monitor de 20 e poucas polegadas com boa resolução para a telinha de 14 polegadas e resolução baixa dos laptops pode ocasionar, a médio e longo prazos, problemas de vista cansada e ao mesmo tempo afetar a cervical (a pessoa força o pescoço para frente, para enxergar melhor o que antes estava acostumada a ver em formatos maiores). Sem contar que muitos laptops pessoais que viraram micros profissionais da noite para o dia são bem mais lentos e obrigam o funcionário a ficar mais tempo na frente do computador, causando estresse mental (ninguém tem muito saco para esperar máquinas que demoram a abrir programas e documentos...). A ergonomia, que as grandes empresas adotaram fortemente com programas regulares para evitar funcionários de licença médica com tendinite e problemas de coluna, na casa de cada um torna-se uma ciência sem controle. Todo um esforço de anos das áreas médica e de recursos humanos das corporações para melhorar a qualidade de vida vai por água abaixo no novo escritório caseiro.

Os desafios trazidos pelo home-office obrigatório extrapolam as questões de saúde e de qualidade e vida. Por exemplo, a hora extra. Corporações maiores têm controle da hora extra através das catracas eletrônicas que registram horários de entrada e saída de todo mundo – que irão determinar as compensações, seja com o pagamento da hora extra trabalhada, seja com bancos de horas. Mas como controlar o período trabalhado no home-office além do turno de 8 horas previsto em lei? Há questões financeiras também. Em casa, numa cidade como o Rio de Janeiro, o funcionário gastará mais ar condicionado e terá a iluminação ligada por mais tempo, aumentando sua conta de luz. A empresa compensará isso de alguma forma? E os tíquetes refeição, que em algumas empresas são relativamente altos e funcionam quase que como um benefício extra, serão suspensos? E nas empresas que tiverem parte da equipe em home-office, e parte no escritório oficial, uma parcela dos funcionários ganhará tíquete refeição, mas a outra parte não? A legislação trabalhista permite isso? A judicialização é um risco real para o home-office, não a ponto de impedi-lo, mas pode dar alguma dor de cabeça e gerar despesas inesperadas com advogados trabalhistas.

A economia em geral também sofrerá baques. Empresas farão muita economia de custos – de luz, de móveis de escritório, de serviços de limpeza e manutenção, de aluguel de imóveis, de tíquetes refeição, de material de papelaria, de gastos com impressoras, até no cafezinho e no papel higiênico irão economizar. Mas o que significa isso para uma região como o Centro do Rio de Janeiro, ou a Barra da Tijuca, onde se concentram a maioria das grandes e médias corporações da cidade? Imagine se 40% dos trabalhadores ficarem em home-office. Proporcionalmente, na mesma região onde trabalham devem cair em 40% as vendas dos restaurantes a quilo, de fast-food e de cafés/docerias; das papelarias; das lojas de roupas e sapatarias; dos quiosques de produtos de informática; das drogarias; das lojas de telefonia celular; dos barbeiros e cabeleireiros; do comércio de produtos naturais. Além disso, os donos de imóveis corporativos terão grande prejuízo, suas salas e andares passarão a ser elefantes brancos que ninguém irá querer alugar. E logo suas propriedades (que continuarão gerando gastos de IPTU e condomínio) ficarão abandonadas e poderão se deteriorar. Por outro lado, espaços no estilo coworking serão alugados para reuniões, gerando novos negócios imobiliários – porém numa escala muito menor do que o aluguel de imóveis empresariais.

Um ex-banqueiro que eu conheço há uma semana me disse que alguns costumes jamais serão abolidos pela febre do home-office, especialmente o face a face para discutir e fechar negócios financeiros e empresariais. Ninguém fechará um negócio de milhões de dólares pela internet, me assegurou. Outro amigo meu, veterano executivo do mercado de seguros, me chamou a atenção para questões de compliance que exigirão a presença física de alguns profissionais dentro da empresa, para que sua atuação possa ser devidamente monitorada. Nem toda função pode ou vale a pena ser terceirizada, isso ainda é fato. Serviços públicos, por exemplo, acredito que terão menos afã de partir para o trabalho remoto, seja por razões políticas, seja por motivos legais. E, para completar, temos ainda a incerteza sobre o futuro da epidemia, com muitas perguntas sem resposta sobre as vacinas e o risco (sempre presente) de o vírus SARS-CoV-2 sofrer alguma mutação e atrapalhar a busca pela imunização mundial, estendendo ainda mais os períodos de isolamento social.

Outra questão pendente é a data da “volta à normalidade”, que permitiria (em tese) o fim do home-office, ou sua assunção definitiva por parte das empresas. No webinar, a diretora do PayPal disse que sua empresa já avisou a seus funcionários em toda a América Latina que antes de outubro eles não voltam à empresa, ficarão trabalhando de casa. A TIM Brasil por sua vez fixou a continuidade do home-office para pelo menos até o final de agosto. Uma advogada amiga me contou que seu escritório no Centro do Rio vem trabalhando com metas quinzenais, mas a cada quinzena adia por mais 15 dias o fim do home-office e a volta de todos à sede da empresa. E aí nessa volta há uma questão crucial. Quem garante que o retorno à atividade normal é segura, em termos de risco de contaminação da Covid-19? Certamente governos municipais, estaduais e até o Ministério Militar da Saúde não garantem nada, por mais tempestivos que estejam sendo em acelerar o relaxamento da quarentena. O risco cairá nas mãos dos executivos e donos de empresas. Por exemplo, se um profissional se contaminar 15 dias depois de ter voltado ao escritório, ele poderá processar a empresa e/ou seu gerente por tê-lo colocado em risco de uma doença que pode ser mortal. 

Outra questão chave são os grupos de risco. Minha amiga advogada possui duas doenças autoimunes, o que a colocam no grupo de risco, mesmo tendo pouco mais de 30 anos de idade. O mesmo acontece com outra amiga que trabalha no BNDES e que tem 40 e poucos anos. Uma prima minha, que é psicóloga hospitalar, está com 67 anos e tem um histórico de problemas respiratórios. Ela encontra-se diante do dilema de se aposentar de vez, ou voltar a trabalhar no Hospital Universitário, que é referência do tratamento à Covid em sua cidade. Ela quer continuar trabalhando, tem grande experiência e sabe que ainda pode atuar e ser útil por muitos anos. Mas só o fará se o hospital assegurar que ela terá condições de exercer funções remotamente, sem ir ao local de trabalho, onde o risco de contaminação é bem alto. Baixar na UTI presa a um respirador com risco iminente de morte definitivamente está fora de seus planos.

O que fará uma empresa diante de um trabalhador que diz que não irá voltar ao trabalho porque está em grupo de risco? E de onde virá a informação de que já é seguro ou não voltar ao trabalho? Quem irá bancar isso? A empresa? Os governos? Desconfio que a decisão vai acabar é nos tribunais...

Em resumo... Há o mantra, o home-office vem aí, e vem forte. Mas também há um caminhão de incertezas sobre o futuro e seus reais impactos em toda a cadeia econômica. E há ainda inúmeros desafios que as empresas e os trabalhadores terão que encarar e resolver. Muitas vezes, com o auxílio do nosso moroso e complicado Judiciário.

Quem viver, verá...

domingo, 10 de maio de 2020

Covid-19: a Terceira Guerra Mundial?


Por algumas décadas o espectro da Terceira Guerra Mundial rondou o planeta.

Países ergueram abrigos antinucleares, Pequim construiu ruas no subsolo da cidade para a população poder fugir e continuar a levar uma vida "normal". O senso comum era de que havia tantos mísseis nucleares dos dois lados (capitalismo e comunismo) que se algum deles fosse disparado contra o "inimigo", imediatamente o outro lado responderia com mais mísseis, todos com ogivas nucleares capazes de destruir cidades grandes, numa escalada que ninguém sabe quem seria o vencedor, se é que haveria um vencedor. O critério que daria a vitória seria a velocidade com que seus mísseis chegassem ao adversário, antes que os mísseis deles atingissem seu território.

O certo é que teríamos países devastados e a mortal poeira atômica-nuclear solta no ar contaminaria indistintamente povos, nações e a natureza, ao sabor dos ventos e da chuva, que espalhariam a dor e a morte radioativa por todos os continentes. Máscaras contra gases, bunkers, toda sorte de coisas foi pensada para que algumas comunidades sobrevivessem à hecatombe nuclear. Nas últimas semanas, a Finlândia (país que todas as previsões diziam ser um dos primeiros alvos dos mísseis soviéticos) viu uma vantagem nisso: abriu enormes bunkers secretos construídos sob a guerra fria que continham milhares de máscaras anti-gases, que foram imediatamente usadas contra a Covid-19.

Agora, nestes dias sombrios comecei a pensar o seguinte: a Terceira Guerra Mundial afinal chegou. Mas de um jeito totalmente diferente do previsto pelos estrategistas militares e políticos da Guerra Fria (que durou do final dos anos 40 até o início dos anos 90).

O SARS Cov 2 (nome do vírus da família Corona causador da doença Covid-19) desencadeou uma Guerra Mundial diferente. Que não tem um conflito bélico – que é como tradicionalmente conhecemos as guerras. Esta é uma guerra completamente distinta, sem fuzis, canhões, tanques, jatos supersônicos, mísseis etc. É uma guerra sanitária, cujo inimigo é um só e é um inimigo comum a todas as nações do mundo: o vírus mortal.

Em termos de impacto econômico e social, essa Terceira Guerra Mundial me parece maior do que a Segunda e a Primeira Guerras Mundiais. Em número de mortos certamente não, afinal contam-se em várias dezenas de milhões o número de vítimas (militares e civis) da Segunda Guerra Mundial, em todos os continentes. Com a Covid, ainda estamos longe do primeiro milhão de mortos – nos próximos dias chegaremos aos 300 mil óbitos. Mas a Segunda Guerra durou 5 anos, a Covid tem apenas 5 meses… ok, mas até o ano que vem deveremos ter a vacina, a arma final que vencerá o vírus e encerrará a guerra sanitária.

O que todos os governos das áreas afetadas estão fazendo, bloqueando ruas e cidades inteiras, fechando o comércio, montando hospitais de campanha, saindo doidamente pelo mundo tentando comprar máscaras e respiradores, estourando orçamentos públicos com ações emergenciais, são típicas operações de guerra.

Entretanto, depois de descoberta a vacina, começará a acabar a guerra sanitária, mas temo que se inicie outra, a guerra econômica e política do pós-Covid, com impactos políticos, econômicos e sociais fortíssimos.

Explico. 

O mundo até dezembro de 2019 vivia uma guerra comercial das maiores dos últimos tempos. O cenário geopolítico-econômico era bem complexo. Os Estados Unidos da América de Donald Trump resolveram romper com o equilíbrio nas relações de trocas internacionais (o comércio mundial), alegando que vinham sendo prejudicados nos acordos de livre comércio e que só os chineses estavam se dando bem, dominando pouco a pouco a economia mundial e comprando cada vez mais empresas nos Estados Unidos. Esses acordos de livre comércio (chamados acordos multilaterais, assinados por vários países) são defendidos pela Organização Mundial de Comércio (OMC), porque permitem que os negócios entre as nações fluam de forma regular. É uma discussão que consumiria páginas e páginas de dados e análises. Vou tentar resumir alguns fatos relevantes.

Os EUA, que emergiram da Segunda Guerra Mundial como a economia mais forte do mundo, chegaram a 2020 ainda como um país hegemônico em termos econômicos. A moeda padrão da economia mundial ainda é o dólar. A língua mais importante de se falar no mundo é o inglês – seja na Academia e na Ciência, seja no mundo dos negócios ou da política (na ONU, um diplomata da Tailândia ao conversar com um colega do Paraguai, conseguirá se comunicar em inglês, e não em espanhol ou tailandês). A cultura mais forte do mundo e a que mais influencia outras culturas é a norte-americana; os maiores sucessos do cinema e das séries de TVs em todo mundo são Made in USA, os grandes artistas da música idem. No streaming de vídeo, negócio que prospera de vento em popa com o isolamento social, Netflix, Amazon e HBO navegam de braçada. A indústria do software dominante nos negócios e na vida diária do mundo conectado vem do Vale do Silício, na Califórnia (Microsoft, Apple, Google, Facebook, Oracle, IBM, Adobe, Symantec etc.). Seis das dez maiores farmacêuticas do mundo são norte-americanas (Pfizer, Johnson & Johnson, Merck, AbbVie, Amgen e Bristol-Myers Squibb). Igualmente seis das dez maiores fabricantes de tênis do mundo são dos EUA (Nike, Under Armour, Air Jordan, Converse, Vans e New Balance). E o que dizer do mundo fast food? Subway, McDonald's, Burguer King, KFC, Starbucks, Pizza Hut, Taco Bell, todas norte-americanas, que servem Coca-Cola e Pepsi, os gigantes do mercado mundial de refrigerantes, igualmente nativos da terra do Tio Sam.

Mesmo com todo esse domínio, os Estados Unidos vêm perdendo terreno nos últimos anos para a China. E de uma maneira que fere profundamente o orgulho pátrio dos norte-americanos. Chineses compram fábricas na “América” e impõem sua cultura rígida, seus costumes duros, sua língua estranha, seu inglês raquítico, seus salários mais baixos, sua maior carga horária de trabalho, sua indiferença com o lazer de entretenimento ocidental e seu desprezo solene aos outrora fortes sindicatos norte-americanos. Trump usou esse sentimento de humilhação diante dos chineses para criar um forte apoio eleitoral em todas as classes sociais e virar presidente dos EUA. Por isso, até hoje continua a tentar demonizar a China, acusando-a formalmente como responsável pela pandemia de SARS Cov 2.

Agora estamos nos aproximando de um novo mundo. Que começa aos poucos a se delinear com alguns fatos marcantes:

• A economia mundial está devastada ou fortemente afetada na maioria dos países, especialmente porque o mundo já começava a entrar em uma nova crise econômica, provocada pela guerra comercial que os Estados unidos vinham declarando à China.

• China, Coreia do Sul e outros países asiáticos estão saindo rapidamente do pior da crise e estão aos poucos voltando à vida normal. Isso significa também retomar sua capacidade produtiva em nível nacional, bruscamente interrompida por alguns meses.

• Ao mesmo tempo, a Europa, os Estados Unidos e a Rússia, principais concorrentes econômicos da China no comércio mundial, além de serem antagônicos na política internacional (os Estados Unidos em grande parte, a Rússia e a Europa, menos), estão sofrendo um impacto muitas vezes maior do que a China e deverão demorar mais tempo para a volta à “normalidade” produtiva e econômica. E, além disso, voltarão com menos recursos econômicos do que antes, perderão numa proporção bem maior do que a China.

• Este cenário é bastante favorável para que os chineses cresçam rapidamente nas economias ocidentais, comprando grandes empresas norte-americanas, europeias, brasileiras, mexicanas, africanas etc., e tudo na bacia das almas, a preço de banana, ampliando seu controle econômico sobre o Ocidente. E os Estados Unidos e a Europa estarão bem enfraquecidos para resistir à avalanche de bilhões de renminbis (moeda chinesa), que dizer então de Brasil, México, Argentina, Peru, Venezuela, Colômbia etc.

• Em resumo: EUA, Europa, Rússia e América Latina estarão mais enfraquecidas para enfrentar a blitzkrieg econômica da China, que voltará ao ataque com bem menos danos coronários.  

Nesse cenário, temo que possamos ter uma pré-guerra econômica que vá causar ainda mais mortes no mundo. E é a vacina que pode vir a ser o “epicentro” dessa nova guerra.

É o seguinte. Há uma corrida internacional em busca da vacina. É possível que as primeiras descobertas sejam anunciadas ainda em 2020. Porém, daí a vacinar todo o mundo contra a SARS Cov 2, vai uma grande distância... é preciso fabricar bilhões de vacinas, distribuí-la por 200 países e vacinar 7 bilhões de pessoas.

Há algumas variáveis (possibilidades que ainda não temos como cravar) preocupantes. A vacina pode ser descoberta de diferentes formas. Vejamos as principais possibilidades:

• Por algum laboratório ou instituto de pesquisas público ou sem fins lucrativos. Neste caso, sua patente provavelmente será aberta para que todos os fabricantes, públicos (como a nossa Fiocruz) e privados (como as grandes farmacêuticas internacionais) possam produzi-la livremente, o que vai acelerar a vacinação em todo o planeta.

• Por algum laboratório ou instituto sob controle do Estado chinês (uma ditadura). Nesse caso, corremos alguns riscos. A China pode decidir destinar o primeiro lote de 1,4 bilhão de vacinas para imunizar primeiro sua população, aumentando seu diferencial competitivo no comércio e na disputa pela hegemonia político-econômica mundial. Pois serão centenas de milhões de trabalhadores rapidamente aptos a voltar à ativa, atividades comerciais reabertas sem limites, enquanto o restante do mundo ainda ficaria em um semi-isolamento, com economia parcialmente parada. Quanto tempo demorará para vacinar 1,4 bilhão de chineses? Certamente várias semanas. E o restante do mundo que espere sua hora. 

• Do outro lado do mundo, se a vacina for descoberta por algum laboratório privado norte-americano. O governo Trump certamente agirá para que as primeiras vacinas sejam aplicadas nos cerca de 330 milhões de norte-americanos, antes que o fabricante comece a exportar para outros países. Provavelmente adotará medidas legais nesse sentido, como já fez com as máscaras produzidas por fabricantes nos  EUA, que foram proibidos de exportar no auge da crise, só podiam vender para os estados e para o governo central norte-americano primeiro. 

• Se for descoberta por um laboratório privado na União Europeia, pode ser que tenhamos também essa postura, primeiro os europeus, depois o mundo. O mesmo vale para a Rússia, Índia ou Japão.

Ou seja, a aplicação da vacina pode virar um diferencial competitivo num mundo movido a dinheiro proveniente de negócios. Quem se vacinar primeiro, vai conseguir se “normalizar” primeiro e produzir mais e vender mais.

Com esses cenários, o Brasil, a América Latina, a África, o Oriente Médio, a Oceania e a maioria dos países da Ásia voltarão à “normalidade” alguns meses depois dos descobridores da vacina, e nessa volta estarão ainda mais fracos economicamente do que já estão hoje.

Claro, há outras possibilidades, como duas ou três vacinas serem descobertas ao mesmo tempo ou algum desses países, até mesmo a China, terem uma visão mais humanitária e resolverem abrir a patente para que a vacina possa ser fabricada e aplicada ao mesmo tempo em vários países do mundo, encurtando o tempo de imunização da humanidade e, consequentemente, a volta das economias nacionais ao “normal”.

Por fim... Este pensata que compartilho com vocês tem várias especulações, com alguma base, mas ainda assim especulações. Ninguém pode dizer que será assim ou assado. 

Quem viver (literalmente...), verá.

sábado, 11 de abril de 2020

Dia 227 - Um conto de ficção dos tempos de Corona


Hoje me toquei que estou escrevendo compulsivamente esse diário há quase oito meses, e que estou escrevendo ele praticamente só para mim, para poder falar coisas que a censura oficial e o isolamento não me deixam contar por aí.

“E se um dia alguém achar isso e ler? Não vai entender nada...”. Pois é, sou jornalista, escrevo para um público heterogêneo, de maneira que todos entendam, do porteiro do prédio ao dono da empresa. Mas parece que deixei meu diploma na parede e me esqueci disso por 226 dias. Logo eu, que sou jornalista... Meu trabalho é falar para o público, conto para as pessoas o que elas precisam saber. E sou bom nisso. Mas essa crise... tá pirando cada um de uma maneira diferente... Acho que essa é a minha piração... Virei jornalista de mim mesmo, eu sou meu próprio público.

Bom, caro leitor, você aí de um futuro longínquo que, algum dia, por acaso, deu com essas mal traçadas linhas à sua frente e não estava entendendo nada até agora, espera um pouco que vou te contar.

Quase um ano atrás veio a censura oficial, que me estimulou a escrever um diário tipo escondido, só para mim mesmo. Uma forma de manter minha sanidade mental e atender a algumas coisas que me incomodavam internamente. E um diário secreto, porque a polícia está muito em cima de quem cria dificuldades nesta situação, eles estão com poderes extraordinários para prender e isolar elementos “perigosos”, que atentem contra a solução da crise. Não quero ser “isolado”, não é uma experiência muito agradável, além de implicar na perda de meu precioso emprego.

A coisa aconteceu assim. Era 2022. O vírus Covid-25 estava deixando todo mundo louco. Era a sexta mutação do Covid-19, o antigo Corona, em apenas três anos. Como vocês devem saber, o Corona quase parou o mundo em 2020 e 2021. Quando estava começando a ir embora, com as vacinas em estágio avançado de testes, veio o Covid-20, e logo depois Covid-21, isso ainda em 2021. As Olimpíadas de Tóquio de 2020, que haviam sido adiadas para 2021, foram suspensas sine die e ainda não aconteceram. Voltamos a ter crescimento no número de infectados e de mortos, tanto pelo Covid-19 quanto pelo Covid-20 e logo depois pelo Covid-21. E novas quarentenas...

Naquela época, ainda no início de 2021, o dono do meu jornal (ainda chamamos de jornal, mas em verdade é apenas um site de notícias...), um jornalista empreendedor de classe alta que tinha um dinheiro de família guardado, resolveu investir nessa história e, num lance de genialidade e oportunismo, lançou o “Corona News”, um site geral de notícias que tinha como foco a epidemia, relacionando ela a todas as notícias de todas as áreas (política, economia, cidade, esportes, cultura etc.). Dei sorte de ser conhecido de um amigo dele, que gostava muito de mim, e me indicou para trabalhar no site. O projeto foi o maior sucesso, rapidamente tivemos muitos leitores e os poucos anunciantes ainda na ativa logo colocaram anúncios, que é o que mantém o jornal até hoje.

Os Covids 21, 22, 23 e 24 surgiram e se foram rapidamente, não eram lá tão resistentes ao nosso já deteriorado ambiente humano e causaram estrago em menor escala que os anteriores. Até que surgiu o Covid-25, já nos primeiros meses de 2022, logo depois do Carnaval – quer dizer, do Carnaval que não aconteceu, pelo segundo ano consecutivo.

Antes do Covid-25, a vida ameaçava voltar ao normal. O ciclo do Covid-22 foi rápido – assim como veio, em menos de 3 meses se foi. Derrubou muita gente, matou alguns milhares, especialmente quem já havia se recuperado dos Covids anteriores. Até hoje os cientistas e especialistas em vírus e epidemias não sabem o porquê. O estudo de vírus novos demora um tempo para ser realizado e chegar a conclusões confiáveis, não deu tempo para a comunidade científica caracterizar o comportamento exato de cada vírus. Até hoje está sem resposta por que o Covid-21 começou na África negra, em países até então pouco afetados pelos Covids 19 e 20. Ele mal chegou ao Brasil, mas causou rápida histeria, suficiente para a decretação de novo lockdown e retração de todas as atividades. E tivemos a volta da violência urbana, com mais assaltos e saques a lojas e supermercados. Durou pouco, mas foi mais um trauma. E por que o Covid-22 atacava mais quem havia se vacinado contra o Sarampo em 2020? Ninguém sabe... E ele foi embora rápido também, menos de 5 meses, nem deu tempo para estudar direito. Os Covids 23 e 24 foram parecidos, assustaram muito, mas duraram pouco. E não apresentaram nada de muito diferente, apenas causaram problemas respiratórios, matando os mais fracos, e mandando muito trabalhador infectado para casa ou para o hospital. Mas a cada novo Covid, uma nova histeria... desgastando o psicológico de populações inteiras em todos os 200 e tantos países do globo.

Aí veio o Covid-25, com um componente novo e arrasador. Tudo indica que o vírus fica no ar por dias, não apenas nas pessoas e nas coisas. Isso ainda não é certo, mas há indícios assustadores, que desafiam a ciência. Já teve gente que saiu para praticar exercício ao ar livre, não cruzou com ninguém, e se contagiou. Do nada. Há vários outros indícios do potencial destruidor desse Covid. Para os cientistas, não faz muito sentido o vírus ficar vivo no ar, mas os fatos apontam exatamente para isso. E, quando chove, ele pega carona nos pingos de água e contamina quem estiver na chuva. E se ele se disseminar no mar? E na água dos reservatórios que vai parar na casa das pessoas?

No momento em que as terríveis conclusões e dúvidas nesse sentido começaram a tomar forma, com inúmeros casos similares se repetindo em diferentes cidades e países, as autoridades começaram a achar que isso não era apenas lenda urbana. E logo concluíram que o pânico que essa informação poderia causar poderia provocar uma disrupção social ainda muito maior e a coisa sair de controle. Além dos saques e assaltos nas ruas promovidos pelos ladrões e desempregados dos bairros pobres, até as pessoas ainda sãs poderiam perder a cabeça. E desde que a posse de armas foi flexibilizada, ainda no Covid-22 – para permitir que as pessoas, principalmente comerciantes de rua e feirantes, além dos grandes supermercados, se defendessem de assaltos e tentativas de saques – temos um verdadeiro arsenal balístico nas mãos das chamadas pessoas de bem da classe média ainda endinheirada, muitos dos quais mal sabem apertar o gatilho. Já tivemos um ligeiro aumento de mulheres baleadas ou apenas ameaçadas por maridos e companheiros armados dentro de casa. E, paralelamente, temos a crise das polícias – incluindo as Polícias do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que desde o Covid-23 reforçam a segurança pública. Só aumenta o número de policiais de todas as forças que estão de licença – seja porque pegaram algum Covid, seja por esgotamento emocional-psicológico. Um novo estresse ainda mais forte pode ter consequências imprevisíveis.

Por isso, o governo federal resolveu restringir as informações mais críticas sobre o Covid-25. Aplicou, sem divulgar, um novo artigo da Constituição aprovado discretamente num pacote de medidas baixado um ano antes, que permite a censura oficial da imprensa por até 90 dias, renováveis por mais 90 dias quantas vezes forem necessárias. Medida de tempos de guerra. E desde o ano passado a grande maioria da população só sabe que o Covid-25 é mais agressivo que seus antecessores, e tome lockdown, isolamento, confinamento, quarentena...

Com a censura, fiquei na desconfortável situação de receber notícias, saber de coisas que a maioria das pessoas não sabe, querer escrever e publicar para que todos tenham conhecimento, e não posso fazer isso. A censura não é como nos tempos da ditadura militar, quando um censor recebia a matéria datilografada e cortava o que bem entendesse. Hoje a coisa é mais eficiente. Se sair alguma coisa fora do decálogo de “pode” e “não pode” do Ministério da Justiça, a Polícia Federal tem ordem para fechar o veículo na mesma hora, nem precisa de autorização judicial. O site fica só com as notícias antigas e eventuais comunicados oficiais, sem poder fazer qualquer outra atualização. E novos anúncios são proibidos, para punir o dono do site também de forma econômica. Se desobedecer, o dono do veículo e todos os jornalistas em cargo de chefia (editores, subeditores, chefes de reportagem) serão presos imediatamente. Depois de 30 dias, o site pode retomar sua liberdade, mas será obrigado a informar a um setor da Polícia quando quiser publicar alguma matéria que possa ser passível de censura.

Fiquei angustiado com aquela situação. Até então, não havia restrições. Ao contrário, nossas notícias sobre Corona davam ibope e meu chefe estimulava. E eu havia conseguido algumas exclusivas muito boas. Por exemplo, a que mostrava as empresas que estavam faturando com as crises, gerando até novos postos de trabalho. Foi o caso do que apelidei de “Indústria do Quinino”. Coca-Cola com quinino, guaraná com quinino, suco de maracujá com quinino, mate com quinino, suplementos proteicos com quinino, bananada com quinino, BIS com quinino, a indústria alimentícia fez a festa. E o governo não foi muito voluntarioso para contestar, pois o quinino trazia um efeito meio placebo que acalmava as massas.

Até hoje há controvérsias sobre o real efeito do quinino na cura dos Covids, através da cloroquina e outros elementos químicos a base do quinino. Em alguns pacientes funciona, em outros não, é um milagre pela metade. Mas desde que surgiu essa hipótese, em 2020, de usar um remédio eficaz contra a malária no combate ao Covid, a ideia se popularizou e quatro quintos da população mundial passaram a acreditar que o quinino era eficaz contra a praga.

Outra reportagem que fiz foi com os motoboys. Vários deles foram contaminados, em todos os ciclos do Covid, pois sua profissão é de altíssimo risco, lidam com muita gente diferente de diferentes lugares. Mas eles sempre deram um jeito de continuar trabalhando, mesmo contaminados e doentes, pois é uma categoria que, se parar, morre de fome. Conversei com vários motociclistas e contei as histórias deles, impressionantes. E o nem o Ministério da Saúde, nem a Procuradoria do Trabalho mexeram uma palha para ajudar esses trabalhadores, jovens em sua maioria, que têm garantido a entrega de compras de supermercados, farmácias, petshops etc. em todos os confinamentos.

Foi a partir dessa história que passei a fazer meus pedidos de entrega e minhas viagens somente pela Rio 66, uma cooperativa de taxistas nova, totalmente brasileira. Depois que a chinesa Didi Chuxing (dona do Pop 99) comprou a Uber (e também as empresas de entregas por motoboys), ficamos à mercê do monopólio Uber-99, e os preços das corridas dispararam. A coisa está tão complicada que só falta nos obrigarem a aprender mandarim. Os chineses já compraram as fábricas da Ford, da Volks e da GM no Brasil, adquiriram o controle da Embraer, da Alpargatas (Havaianas), do Leite de Rosas, dos Correios, e estão rapidamente aumentando sua participação acionária na Petrobras, na Vale, na JBS, na TAM, no Banco do Brasil e nas organizações Globo, entre outros.  

Também fiz uma boa matéria sobre a SDC, a Síndrome de Depressão Confinatória, uma nova doença que recebeu classificação da Organização Mundial de Saúde e que, de repente, a partir do final de 2021, atingiu fortemente os adultos acima de 30 anos, após tantas semanas de confinamentos que aconteceram naqueles anos. Mostrei o despreparo de médicos, psicólogos e psiquiatras para tratar desse novo mal, que chega a incapacitar alguns trabalhadores de home-office, que tomaram verdadeira “alergia” a computador e engolem remédios para conseguir dormir.

Mas, quando veio a censura em 2022, de repente, não mais que de repente, surgiu um clima de tensão na redação. Os editores foram severamente orientados a não deixar sair nada que pudesse conflitar com as regras da censura. Comecei a ter minhas pautas rejeitadas, uma atrás da outra. E tive que reaprender a elaborar uma pauta jornalística, para não perder tempo vendo minhas matérias derrubadas e ser obrigado a recomeçar do zero.

Foi assim que, após algumas semanas vivendo aquela situação, decidi começar a escrever neste diário as notícias que descobria, sem mostrar para ninguém. Para... sei lá, presunção minha, deixar para a História... Será que, algum dia, serão publicadas? Ou ajudarão a contar a história desse período? Não me conformava em não fazer alguma coisa com as informações tão relevantes que encontrava. Foi quando alguma voz interior me mandou começar a colocar essas histórias num canto secreto de mim mesmo.

Esse, caro hipotético futuro leitor, é o pano de fundo que me fez chegar até aqui, com mais de 200 dias de histórias que eu vi, mas não pude contar. Agora, prepare-se, porque tem mais uma.

Há uns quatro dias, da janela daqui de casa, vi um carro da polícia levando um morador de rua. No dia seguinte, quando desci para receber minha comida trazida pelo motoqueiro da Rio 66, presenciei uma abordagem de policiais a outro morador de rua, um que costumava aparecer na esquina e às vezes cantava músicas de Roberto Carlos. Chamou-me a atenção que os policiais não perguntaram, simplesmente foram pegando ele pelo braço e levando para o carro. Ele não resistiu, mas estava com a cara meio assustada. Dois moradores de rua, em dois dias seguidos, o que a polícia estava querendo com eles?

Chegando em casa, mandei mensagem para o Pereira, velho conhecido que trabalha como escriturário da Polícia Civil. Como ele não respondeu, voltei à minha rotina meio sem graça: a busca de notícias para escrever para o dia, a contínua troca de mensagens com meu editor e com outros colegas de redação, cada um em sua casa, ou em algum dos cafés “liberados” – um respiro nesse sufoco de repetidos confinamentos, casas de lanches com wi-fi e preparadas para receber clientes sem que ninguém se contamine, uma pequena mas importantíssima opção para sair de casa durante um lockdown. Tantos anos dentro de casa, com poucos períodos sem confinamento, precisam de alguns escapes. Senão, ninguém aguenta.

Umas três horas depois, o Pereira me respondeu:

“Jornalista, deixa quieto... CR”.

Opa... Para o Pereira falar isso, o negócio é sério e tem notícia ali (a ser censurada, claro...). CR é “classificação reservada”, um código que o Pereira inventou para me dizer quando o assunto era segredo de Estado. Moradores de rua, mendigos, sem teto... O que pode ser??

Modéstia à parte, sou repórter, sinto cheiro de notícia à distância. Sondei meus colegas de redação, ninguém ouvira falar nada a respeito. Será que os moradores de rua começaram a cometer violências? Ou estão atrapalhando de alguma forma a quarentena? Ou terá a ver com a saúde pública? Comecei a ver que a apuração não seria fácil.

Liguei para a comunicação social da Polícia para ver se tinham estatísticas de ocorrências com esse povo da rua. Para minha surpresa, os registros eram mínimos. Liguei para a Secretaria de Saúde atrás de registros de ocorrências médicas com moradores de rua. Nada além do normal. Voltei-me para a Secretaria de Assistência Social, que costumava lidar com a turma da rua. Nenhuma informação relevante, nada que saísse da rotina. Bom, os dois incidentes que vi envolviam Polícia Militar, então mandei mensagem para eles. Responderam de forma lacônica, minimizando a coisa.

Percorri os caminhos normais da informação... e nada. Parti então para o roteiro mais difícil, as vias não normais. Morador de rua, sem teto, mendigo, polícia, Covid. Qual a relação? Precisava de algum especialista para me ajudar a ligar os pontos – se é que havia pontos a ligar. E tinha um problema: se era CR, seria perda de tempo falar com algumas fontes, além do risco de despertar suspeitas contra mim. Teria que seguir trilhas alternativas. Lembrei então do Zé, Zé Silveira. Eu havia falado com ele semana passada. Zé é amigo de colégio, virou cientista, nem sei direito de que área, mas sei que está envolvido nas pesquisas médicas relacionadas ao Covid em alguma universidade no interior de São Paulo. Mandei mensagem. A resposta veio logo, incisiva:

“O que você sabe exatamente?”.

Quase nada, respondi ao Zé, apenas vi os mendigos sendo levados pela PM e uma fonte me disse que o tema era espinhoso. Dessa vez, Zé demorou a responder. No dia seguinte, mandou o seguinte:

“Posso te ligar?”.

Claro, respondi prontamente. Ele não ligou. Quer dizer, me mandou um áudio bem mais tarde da noite.

“Rapaz, isso que você me disse é meio preocupante. O que eu sei é que aí no Rio os pesquisadores começaram a perceber que os moradores de rua estão resistindo bem ao Covid-25, já teriam feito testes em uns dois ou três que estão bem expostos nas ruas e nada apareceu. Ouvi falar também que iriam começar a estudar isso, pois talvez os que vivem nas ruas tenham desenvolvido alguma resistência natural ao vírus e isso poderia ser uma informação útil para o desenvolvimento da vacina. Mas será que estão catando moradores de rua à força para fazer testes?? Nunca ouvi falar disso e é chocante se realmente estiver acontecendo, isso seria mais um atentado contra os direitos individuais das pessoas, um passo forte em direção à ditadura, que esses militares que estão dando as cartas no governo federal desde a queda do Bolsonaro tanto gostam. Vou procurar saber e qualquer coisa eu te digo. E se você souber de algo novo, me conta também. E, olha, esse assunto é bem delicado, os ânimos estão exaltados, ninguém aguenta mais combater vírus, vai com cuidado nessa história. Abraço grande! Te cuida!”.

De repente, um quadro absurdo começava a se montar à minha frente. Mendigos, sem teto, pedintes de rua, aqueles maluquinhos dormindo debaixo das marquises, essa galera é resistente ao Covid-25?

Pensando bem, pode fazer algum sentido. Já li estudo mostrando que a rua faz uma seleção natural, aqueles que chegam nela desde adolescentes conseguem desenvolver rapidamente anticorpos contra todas as bactérias e outros males que ingerem na água suja e na comida que tiram das lixeiras. Os que não desenvolvem, acabam morrendo, é a seleção natural da sarjeta. Eles comem porcarias estragadas e fedendo a coisa podre retiradas de qualquer saco de lixo, e que a qualquer um de nós – os “normais” – faria um mal danado. Mas eles aguentam bem e ainda conseguem extrair alguma proteína dessa podridão. Bebem água suja de todos os tipos, são visitados toda noite por ratos, baratas, pulgas, formigas, larvas e mosquitos, e continuam aí nas ruas. Vivos. Saúde mental zero, mas a saúde física segue mais ou menos – o suficiente para se levantarem e correrem atrás de comida e até se atirarem numa briga de rua. Resfriado? Gripe? Eles não têm mais. Aguentam chuva fria, sol tórrido, mudanças bruscas de temperatura. Não morrem facilmente.

E se, realmente, eles estão resistindo ao Covid-25?? Faz sentido, faz sentido... Podem até estar virando cobaias de estudos científicos. Lá atrás, no Covid-19, prefeituras chegaram a abrigar moradores de rua em centros de “acolhimento”, mas eles não ficaram muito tempo. São seres inquietos, desconfiados, mal acostumados à vida nas ruas, onde se viram melhor e não ficam parados o dia inteiro sem fazer nada numa cama de “acolhida”.

Mas será que chegamos a esse cenário de filme de ficção científica em que forças policiais perseguem cidadãos marginalizados nas ruas para levá-los à força para uma mesa onde ficarão amarrados e serão submetidos aos mais cruéis testes na busca desenfreada de uma solução contra o Covid-25?? Será que esses maltrapilhos que vivem nas ruas do Rio irão salvar a humanidade com seu sangue sujo, que de repente tornou-se miraculoso??

E aí tenho outra questão. Se eles têm efetivamente a resposta, a cura, será que não é válido que esse grupo, que não contribui para a evolução e sobrevivência da raça humana, seja estudado para que alcancemos a cura para bilhões de pessoas? É um pensamento pouco ou nada humanista, mais para a extrema-direita nazista que gostava de fazer pesquisas pseudocientíficas com gente viva, gente considerada inferior, como negros, judeus, ciganos, doentes mentais etc. Mas que nesses tempos radicais certamente pode virar "racional".

E aí? Se essa história realmente estiver acontecendo (e faz até sentido que esteja...), vai ser bem complicado correr atrás. E, mais do que isso, vai ser arriscado, porque devem ter subido todas as defesas policiais e militares possíveis para evitar vazamentos. Para que a opinião pública, o público em geral, a população brasileira, não saiba de nada antes da hora. Porque, senão, os advogados das ONGs e os partidos de esquerda cairão em cima e tentarão ações judiciais para impedir a busca da cura. E se os mendigos estiverem sofrendo torturas nessas pesquisas secretas? Por exemplo, se tiraram um rim, ou um pâncreas, para estudar melhor as defesas naturais que desenvolveram? A dor de meia dúzia de mendigos pode evitar a morte de milhões, isso não justificaria esses experimentos??

Com certeza acabarei ouvindo argumentos assim se prosseguir nessa apuração. É uma história e tanto, em tempos normais eu ganharia um prêmio Pulitzer com essa revelação bombástica. Mas... será que vale a pena? Não posso perder esse emprego agora, acabaria na rua, sendo mais um desses mendigos e, de repente, me veria na cama de testes ao lado deles, tendo meu corpo dissecado por cientistas ansiosos por descobrir o segredo de meus pulmões ultra-resistentes ao Covid-25...

Minha outra opção é a mediocridade jornalística censurada. E minha vida continuar como está, com dinheiro pra comprar comida e pagar o aluguel, com meu trabalho que tem me dado pouco prazer, mas que me paga salário em dia e dá acesso a informações “privilegiadas”.

227 dias... Estou cansado, mas ao menos não estou tossindo. Vou dormir e amanhã vejo o que faço com essa história. Acho que vou deixar quieto, não aguento mais apurar tanta coisa importante que não posso publicar. Cansado de dar murro em ponta de faca. Frustrado de ficar brincando de fazer notícia para um pseudojornal que só eu leio. Acho que tá na hora de encarar a derrota, não consigo ir contra a censura. Perdeu, playboy, já era, c’est fini, parte pra outra.

É isso. The End. Chega de perder tempo. Basta. Cabô. Demorô. Bola pra frente, que atrás vem gente. Vamos tocar o barco.

Mas... sei lá...  amanhã... de repente... Acho que vou conversar com alguns mendigos.