sábado, 11 de abril de 2020

Dia 227 - Um conto de ficção dos tempos de Corona


Hoje me toquei que estou escrevendo compulsivamente esse diário há quase oito meses, e que estou escrevendo ele praticamente só para mim, para poder falar coisas que a censura oficial e o isolamento não me deixam contar por aí.

“E se um dia alguém achar isso e ler? Não vai entender nada...”. Pois é, sou jornalista, escrevo para um público heterogêneo, de maneira que todos entendam, do porteiro do prédio ao dono da empresa. Mas parece que deixei meu diploma na parede e me esqueci disso por 226 dias. Logo eu, que sou jornalista... Meu trabalho é falar para o público, conto para as pessoas o que elas precisam saber. E sou bom nisso. Mas essa crise... tá pirando cada um de uma maneira diferente... Acho que essa é a minha piração... Virei jornalista de mim mesmo, eu sou meu próprio público.

Bom, caro leitor, você aí de um futuro longínquo que, algum dia, por acaso, deu com essas mal traçadas linhas à sua frente e não estava entendendo nada até agora, espera um pouco que vou te contar.

Quase um ano atrás veio a censura oficial, que me estimulou a escrever um diário tipo escondido, só para mim mesmo. Uma forma de manter minha sanidade mental e atender a algumas coisas que me incomodavam internamente. E um diário secreto, porque a polícia está muito em cima de quem cria dificuldades nesta situação, eles estão com poderes extraordinários para prender e isolar elementos “perigosos”, que atentem contra a solução da crise. Não quero ser “isolado”, não é uma experiência muito agradável, além de implicar na perda de meu precioso emprego.

A coisa aconteceu assim. Era 2022. O vírus Covid-25 estava deixando todo mundo louco. Era a sexta mutação do Covid-19, o antigo Corona, em apenas três anos. Como vocês devem saber, o Corona quase parou o mundo em 2020 e 2021. Quando estava começando a ir embora, com as vacinas em estágio avançado de testes, veio o Covid-20, e logo depois Covid-21, isso ainda em 2021. As Olimpíadas de Tóquio de 2020, que haviam sido adiadas para 2021, foram suspensas sine die e ainda não aconteceram. Voltamos a ter crescimento no número de infectados e de mortos, tanto pelo Covid-19 quanto pelo Covid-20 e logo depois pelo Covid-21. E novas quarentenas...

Naquela época, ainda no início de 2021, o dono do meu jornal (ainda chamamos de jornal, mas em verdade é apenas um site de notícias...), um jornalista empreendedor de classe alta que tinha um dinheiro de família guardado, resolveu investir nessa história e, num lance de genialidade e oportunismo, lançou o “Corona News”, um site geral de notícias que tinha como foco a epidemia, relacionando ela a todas as notícias de todas as áreas (política, economia, cidade, esportes, cultura etc.). Dei sorte de ser conhecido de um amigo dele, que gostava muito de mim, e me indicou para trabalhar no site. O projeto foi o maior sucesso, rapidamente tivemos muitos leitores e os poucos anunciantes ainda na ativa logo colocaram anúncios, que é o que mantém o jornal até hoje.

Os Covids 21, 22, 23 e 24 surgiram e se foram rapidamente, não eram lá tão resistentes ao nosso já deteriorado ambiente humano e causaram estrago em menor escala que os anteriores. Até que surgiu o Covid-25, já nos primeiros meses de 2022, logo depois do Carnaval – quer dizer, do Carnaval que não aconteceu, pelo segundo ano consecutivo.

Antes do Covid-25, a vida ameaçava voltar ao normal. O ciclo do Covid-22 foi rápido – assim como veio, em menos de 3 meses se foi. Derrubou muita gente, matou alguns milhares, especialmente quem já havia se recuperado dos Covids anteriores. Até hoje os cientistas e especialistas em vírus e epidemias não sabem o porquê. O estudo de vírus novos demora um tempo para ser realizado e chegar a conclusões confiáveis, não deu tempo para a comunidade científica caracterizar o comportamento exato de cada vírus. Até hoje está sem resposta por que o Covid-21 começou na África negra, em países até então pouco afetados pelos Covids 19 e 20. Ele mal chegou ao Brasil, mas causou rápida histeria, suficiente para a decretação de novo lockdown e retração de todas as atividades. E tivemos a volta da violência urbana, com mais assaltos e saques a lojas e supermercados. Durou pouco, mas foi mais um trauma. E por que o Covid-22 atacava mais quem havia se vacinado contra o Sarampo em 2020? Ninguém sabe... E ele foi embora rápido também, menos de 5 meses, nem deu tempo para estudar direito. Os Covids 23 e 24 foram parecidos, assustaram muito, mas duraram pouco. E não apresentaram nada de muito diferente, apenas causaram problemas respiratórios, matando os mais fracos, e mandando muito trabalhador infectado para casa ou para o hospital. Mas a cada novo Covid, uma nova histeria... desgastando o psicológico de populações inteiras em todos os 200 e tantos países do globo.

Aí veio o Covid-25, com um componente novo e arrasador. Tudo indica que o vírus fica no ar por dias, não apenas nas pessoas e nas coisas. Isso ainda não é certo, mas há indícios assustadores, que desafiam a ciência. Já teve gente que saiu para praticar exercício ao ar livre, não cruzou com ninguém, e se contagiou. Do nada. Há vários outros indícios do potencial destruidor desse Covid. Para os cientistas, não faz muito sentido o vírus ficar vivo no ar, mas os fatos apontam exatamente para isso. E, quando chove, ele pega carona nos pingos de água e contamina quem estiver na chuva. E se ele se disseminar no mar? E na água dos reservatórios que vai parar na casa das pessoas?

No momento em que as terríveis conclusões e dúvidas nesse sentido começaram a tomar forma, com inúmeros casos similares se repetindo em diferentes cidades e países, as autoridades começaram a achar que isso não era apenas lenda urbana. E logo concluíram que o pânico que essa informação poderia causar poderia provocar uma disrupção social ainda muito maior e a coisa sair de controle. Além dos saques e assaltos nas ruas promovidos pelos ladrões e desempregados dos bairros pobres, até as pessoas ainda sãs poderiam perder a cabeça. E desde que a posse de armas foi flexibilizada, ainda no Covid-22 – para permitir que as pessoas, principalmente comerciantes de rua e feirantes, além dos grandes supermercados, se defendessem de assaltos e tentativas de saques – temos um verdadeiro arsenal balístico nas mãos das chamadas pessoas de bem da classe média ainda endinheirada, muitos dos quais mal sabem apertar o gatilho. Já tivemos um ligeiro aumento de mulheres baleadas ou apenas ameaçadas por maridos e companheiros armados dentro de casa. E, paralelamente, temos a crise das polícias – incluindo as Polícias do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que desde o Covid-23 reforçam a segurança pública. Só aumenta o número de policiais de todas as forças que estão de licença – seja porque pegaram algum Covid, seja por esgotamento emocional-psicológico. Um novo estresse ainda mais forte pode ter consequências imprevisíveis.

Por isso, o governo federal resolveu restringir as informações mais críticas sobre o Covid-25. Aplicou, sem divulgar, um novo artigo da Constituição aprovado discretamente num pacote de medidas baixado um ano antes, que permite a censura oficial da imprensa por até 90 dias, renováveis por mais 90 dias quantas vezes forem necessárias. Medida de tempos de guerra. E desde o ano passado a grande maioria da população só sabe que o Covid-25 é mais agressivo que seus antecessores, e tome lockdown, isolamento, confinamento, quarentena...

Com a censura, fiquei na desconfortável situação de receber notícias, saber de coisas que a maioria das pessoas não sabe, querer escrever e publicar para que todos tenham conhecimento, e não posso fazer isso. A censura não é como nos tempos da ditadura militar, quando um censor recebia a matéria datilografada e cortava o que bem entendesse. Hoje a coisa é mais eficiente. Se sair alguma coisa fora do decálogo de “pode” e “não pode” do Ministério da Justiça, a Polícia Federal tem ordem para fechar o veículo na mesma hora, nem precisa de autorização judicial. O site fica só com as notícias antigas e eventuais comunicados oficiais, sem poder fazer qualquer outra atualização. E novos anúncios são proibidos, para punir o dono do site também de forma econômica. Se desobedecer, o dono do veículo e todos os jornalistas em cargo de chefia (editores, subeditores, chefes de reportagem) serão presos imediatamente. Depois de 30 dias, o site pode retomar sua liberdade, mas será obrigado a informar a um setor da Polícia quando quiser publicar alguma matéria que possa ser passível de censura.

Fiquei angustiado com aquela situação. Até então, não havia restrições. Ao contrário, nossas notícias sobre Corona davam ibope e meu chefe estimulava. E eu havia conseguido algumas exclusivas muito boas. Por exemplo, a que mostrava as empresas que estavam faturando com as crises, gerando até novos postos de trabalho. Foi o caso do que apelidei de “Indústria do Quinino”. Coca-Cola com quinino, guaraná com quinino, suco de maracujá com quinino, mate com quinino, suplementos proteicos com quinino, bananada com quinino, BIS com quinino, a indústria alimentícia fez a festa. E o governo não foi muito voluntarioso para contestar, pois o quinino trazia um efeito meio placebo que acalmava as massas.

Até hoje há controvérsias sobre o real efeito do quinino na cura dos Covids, através da cloroquina e outros elementos químicos a base do quinino. Em alguns pacientes funciona, em outros não, é um milagre pela metade. Mas desde que surgiu essa hipótese, em 2020, de usar um remédio eficaz contra a malária no combate ao Covid, a ideia se popularizou e quatro quintos da população mundial passaram a acreditar que o quinino era eficaz contra a praga.

Outra reportagem que fiz foi com os motoboys. Vários deles foram contaminados, em todos os ciclos do Covid, pois sua profissão é de altíssimo risco, lidam com muita gente diferente de diferentes lugares. Mas eles sempre deram um jeito de continuar trabalhando, mesmo contaminados e doentes, pois é uma categoria que, se parar, morre de fome. Conversei com vários motociclistas e contei as histórias deles, impressionantes. E o nem o Ministério da Saúde, nem a Procuradoria do Trabalho mexeram uma palha para ajudar esses trabalhadores, jovens em sua maioria, que têm garantido a entrega de compras de supermercados, farmácias, petshops etc. em todos os confinamentos.

Foi a partir dessa história que passei a fazer meus pedidos de entrega e minhas viagens somente pela Rio 66, uma cooperativa de taxistas nova, totalmente brasileira. Depois que a chinesa Didi Chuxing (dona do Pop 99) comprou a Uber (e também as empresas de entregas por motoboys), ficamos à mercê do monopólio Uber-99, e os preços das corridas dispararam. A coisa está tão complicada que só falta nos obrigarem a aprender mandarim. Os chineses já compraram as fábricas da Ford, da Volks e da GM no Brasil, adquiriram o controle da Embraer, da Alpargatas (Havaianas), do Leite de Rosas, dos Correios, e estão rapidamente aumentando sua participação acionária na Petrobras, na Vale, na JBS, na TAM, no Banco do Brasil e nas organizações Globo, entre outros.  

Também fiz uma boa matéria sobre a SDC, a Síndrome de Depressão Confinatória, uma nova doença que recebeu classificação da Organização Mundial de Saúde e que, de repente, a partir do final de 2021, atingiu fortemente os adultos acima de 30 anos, após tantas semanas de confinamentos que aconteceram naqueles anos. Mostrei o despreparo de médicos, psicólogos e psiquiatras para tratar desse novo mal, que chega a incapacitar alguns trabalhadores de home-office, que tomaram verdadeira “alergia” a computador e engolem remédios para conseguir dormir.

Mas, quando veio a censura em 2022, de repente, não mais que de repente, surgiu um clima de tensão na redação. Os editores foram severamente orientados a não deixar sair nada que pudesse conflitar com as regras da censura. Comecei a ter minhas pautas rejeitadas, uma atrás da outra. E tive que reaprender a elaborar uma pauta jornalística, para não perder tempo vendo minhas matérias derrubadas e ser obrigado a recomeçar do zero.

Foi assim que, após algumas semanas vivendo aquela situação, decidi começar a escrever neste diário as notícias que descobria, sem mostrar para ninguém. Para... sei lá, presunção minha, deixar para a História... Será que, algum dia, serão publicadas? Ou ajudarão a contar a história desse período? Não me conformava em não fazer alguma coisa com as informações tão relevantes que encontrava. Foi quando alguma voz interior me mandou começar a colocar essas histórias num canto secreto de mim mesmo.

Esse, caro hipotético futuro leitor, é o pano de fundo que me fez chegar até aqui, com mais de 200 dias de histórias que eu vi, mas não pude contar. Agora, prepare-se, porque tem mais uma.

Há uns quatro dias, da janela daqui de casa, vi um carro da polícia levando um morador de rua. No dia seguinte, quando desci para receber minha comida trazida pelo motoqueiro da Rio 66, presenciei uma abordagem de policiais a outro morador de rua, um que costumava aparecer na esquina e às vezes cantava músicas de Roberto Carlos. Chamou-me a atenção que os policiais não perguntaram, simplesmente foram pegando ele pelo braço e levando para o carro. Ele não resistiu, mas estava com a cara meio assustada. Dois moradores de rua, em dois dias seguidos, o que a polícia estava querendo com eles?

Chegando em casa, mandei mensagem para o Pereira, velho conhecido que trabalha como escriturário da Polícia Civil. Como ele não respondeu, voltei à minha rotina meio sem graça: a busca de notícias para escrever para o dia, a contínua troca de mensagens com meu editor e com outros colegas de redação, cada um em sua casa, ou em algum dos cafés “liberados” – um respiro nesse sufoco de repetidos confinamentos, casas de lanches com wi-fi e preparadas para receber clientes sem que ninguém se contamine, uma pequena mas importantíssima opção para sair de casa durante um lockdown. Tantos anos dentro de casa, com poucos períodos sem confinamento, precisam de alguns escapes. Senão, ninguém aguenta.

Umas três horas depois, o Pereira me respondeu:

“Jornalista, deixa quieto... CR”.

Opa... Para o Pereira falar isso, o negócio é sério e tem notícia ali (a ser censurada, claro...). CR é “classificação reservada”, um código que o Pereira inventou para me dizer quando o assunto era segredo de Estado. Moradores de rua, mendigos, sem teto... O que pode ser??

Modéstia à parte, sou repórter, sinto cheiro de notícia à distância. Sondei meus colegas de redação, ninguém ouvira falar nada a respeito. Será que os moradores de rua começaram a cometer violências? Ou estão atrapalhando de alguma forma a quarentena? Ou terá a ver com a saúde pública? Comecei a ver que a apuração não seria fácil.

Liguei para a comunicação social da Polícia para ver se tinham estatísticas de ocorrências com esse povo da rua. Para minha surpresa, os registros eram mínimos. Liguei para a Secretaria de Saúde atrás de registros de ocorrências médicas com moradores de rua. Nada além do normal. Voltei-me para a Secretaria de Assistência Social, que costumava lidar com a turma da rua. Nenhuma informação relevante, nada que saísse da rotina. Bom, os dois incidentes que vi envolviam Polícia Militar, então mandei mensagem para eles. Responderam de forma lacônica, minimizando a coisa.

Percorri os caminhos normais da informação... e nada. Parti então para o roteiro mais difícil, as vias não normais. Morador de rua, sem teto, mendigo, polícia, Covid. Qual a relação? Precisava de algum especialista para me ajudar a ligar os pontos – se é que havia pontos a ligar. E tinha um problema: se era CR, seria perda de tempo falar com algumas fontes, além do risco de despertar suspeitas contra mim. Teria que seguir trilhas alternativas. Lembrei então do Zé, Zé Silveira. Eu havia falado com ele semana passada. Zé é amigo de colégio, virou cientista, nem sei direito de que área, mas sei que está envolvido nas pesquisas médicas relacionadas ao Covid em alguma universidade no interior de São Paulo. Mandei mensagem. A resposta veio logo, incisiva:

“O que você sabe exatamente?”.

Quase nada, respondi ao Zé, apenas vi os mendigos sendo levados pela PM e uma fonte me disse que o tema era espinhoso. Dessa vez, Zé demorou a responder. No dia seguinte, mandou o seguinte:

“Posso te ligar?”.

Claro, respondi prontamente. Ele não ligou. Quer dizer, me mandou um áudio bem mais tarde da noite.

“Rapaz, isso que você me disse é meio preocupante. O que eu sei é que aí no Rio os pesquisadores começaram a perceber que os moradores de rua estão resistindo bem ao Covid-25, já teriam feito testes em uns dois ou três que estão bem expostos nas ruas e nada apareceu. Ouvi falar também que iriam começar a estudar isso, pois talvez os que vivem nas ruas tenham desenvolvido alguma resistência natural ao vírus e isso poderia ser uma informação útil para o desenvolvimento da vacina. Mas será que estão catando moradores de rua à força para fazer testes?? Nunca ouvi falar disso e é chocante se realmente estiver acontecendo, isso seria mais um atentado contra os direitos individuais das pessoas, um passo forte em direção à ditadura, que esses militares que estão dando as cartas no governo federal desde a queda do Bolsonaro tanto gostam. Vou procurar saber e qualquer coisa eu te digo. E se você souber de algo novo, me conta também. E, olha, esse assunto é bem delicado, os ânimos estão exaltados, ninguém aguenta mais combater vírus, vai com cuidado nessa história. Abraço grande! Te cuida!”.

De repente, um quadro absurdo começava a se montar à minha frente. Mendigos, sem teto, pedintes de rua, aqueles maluquinhos dormindo debaixo das marquises, essa galera é resistente ao Covid-25?

Pensando bem, pode fazer algum sentido. Já li estudo mostrando que a rua faz uma seleção natural, aqueles que chegam nela desde adolescentes conseguem desenvolver rapidamente anticorpos contra todas as bactérias e outros males que ingerem na água suja e na comida que tiram das lixeiras. Os que não desenvolvem, acabam morrendo, é a seleção natural da sarjeta. Eles comem porcarias estragadas e fedendo a coisa podre retiradas de qualquer saco de lixo, e que a qualquer um de nós – os “normais” – faria um mal danado. Mas eles aguentam bem e ainda conseguem extrair alguma proteína dessa podridão. Bebem água suja de todos os tipos, são visitados toda noite por ratos, baratas, pulgas, formigas, larvas e mosquitos, e continuam aí nas ruas. Vivos. Saúde mental zero, mas a saúde física segue mais ou menos – o suficiente para se levantarem e correrem atrás de comida e até se atirarem numa briga de rua. Resfriado? Gripe? Eles não têm mais. Aguentam chuva fria, sol tórrido, mudanças bruscas de temperatura. Não morrem facilmente.

E se, realmente, eles estão resistindo ao Covid-25?? Faz sentido, faz sentido... Podem até estar virando cobaias de estudos científicos. Lá atrás, no Covid-19, prefeituras chegaram a abrigar moradores de rua em centros de “acolhimento”, mas eles não ficaram muito tempo. São seres inquietos, desconfiados, mal acostumados à vida nas ruas, onde se viram melhor e não ficam parados o dia inteiro sem fazer nada numa cama de “acolhida”.

Mas será que chegamos a esse cenário de filme de ficção científica em que forças policiais perseguem cidadãos marginalizados nas ruas para levá-los à força para uma mesa onde ficarão amarrados e serão submetidos aos mais cruéis testes na busca desenfreada de uma solução contra o Covid-25?? Será que esses maltrapilhos que vivem nas ruas do Rio irão salvar a humanidade com seu sangue sujo, que de repente tornou-se miraculoso??

E aí tenho outra questão. Se eles têm efetivamente a resposta, a cura, será que não é válido que esse grupo, que não contribui para a evolução e sobrevivência da raça humana, seja estudado para que alcancemos a cura para bilhões de pessoas? É um pensamento pouco ou nada humanista, mais para a extrema-direita nazista que gostava de fazer pesquisas pseudocientíficas com gente viva, gente considerada inferior, como negros, judeus, ciganos, doentes mentais etc. Mas que nesses tempos radicais certamente pode virar "racional".

E aí? Se essa história realmente estiver acontecendo (e faz até sentido que esteja...), vai ser bem complicado correr atrás. E, mais do que isso, vai ser arriscado, porque devem ter subido todas as defesas policiais e militares possíveis para evitar vazamentos. Para que a opinião pública, o público em geral, a população brasileira, não saiba de nada antes da hora. Porque, senão, os advogados das ONGs e os partidos de esquerda cairão em cima e tentarão ações judiciais para impedir a busca da cura. E se os mendigos estiverem sofrendo torturas nessas pesquisas secretas? Por exemplo, se tiraram um rim, ou um pâncreas, para estudar melhor as defesas naturais que desenvolveram? A dor de meia dúzia de mendigos pode evitar a morte de milhões, isso não justificaria esses experimentos??

Com certeza acabarei ouvindo argumentos assim se prosseguir nessa apuração. É uma história e tanto, em tempos normais eu ganharia um prêmio Pulitzer com essa revelação bombástica. Mas... será que vale a pena? Não posso perder esse emprego agora, acabaria na rua, sendo mais um desses mendigos e, de repente, me veria na cama de testes ao lado deles, tendo meu corpo dissecado por cientistas ansiosos por descobrir o segredo de meus pulmões ultra-resistentes ao Covid-25...

Minha outra opção é a mediocridade jornalística censurada. E minha vida continuar como está, com dinheiro pra comprar comida e pagar o aluguel, com meu trabalho que tem me dado pouco prazer, mas que me paga salário em dia e dá acesso a informações “privilegiadas”.

227 dias... Estou cansado, mas ao menos não estou tossindo. Vou dormir e amanhã vejo o que faço com essa história. Acho que vou deixar quieto, não aguento mais apurar tanta coisa importante que não posso publicar. Cansado de dar murro em ponta de faca. Frustrado de ficar brincando de fazer notícia para um pseudojornal que só eu leio. Acho que tá na hora de encarar a derrota, não consigo ir contra a censura. Perdeu, playboy, já era, c’est fini, parte pra outra.

É isso. The End. Chega de perder tempo. Basta. Cabô. Demorô. Bola pra frente, que atrás vem gente. Vamos tocar o barco.

Mas... sei lá...  amanhã... de repente... Acho que vou conversar com alguns mendigos. 



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