Por algumas décadas
o espectro da Terceira Guerra Mundial rondou o planeta.
Países ergueram
abrigos antinucleares, Pequim construiu ruas no subsolo da cidade para a
população poder fugir e continuar a levar uma vida "normal". O senso
comum era de que havia tantos mísseis nucleares dos dois lados (capitalismo e
comunismo) que se algum deles fosse disparado contra o "inimigo",
imediatamente o outro lado responderia com mais mísseis, todos com ogivas
nucleares capazes de destruir cidades grandes, numa escalada que ninguém sabe
quem seria o vencedor, se é que haveria um vencedor. O critério que daria a
vitória seria a velocidade com que seus mísseis chegassem ao adversário, antes que
os mísseis deles atingissem seu território.
O certo é que
teríamos países devastados e a mortal poeira atômica-nuclear solta no ar
contaminaria indistintamente povos, nações e a natureza, ao sabor dos
ventos e da chuva, que espalhariam a dor e a morte radioativa por todos os
continentes. Máscaras contra gases, bunkers, toda sorte de coisas foi pensada
para que algumas comunidades sobrevivessem à hecatombe nuclear. Nas últimas
semanas, a Finlândia (país que todas as previsões diziam ser um dos primeiros alvos dos mísseis soviéticos) viu uma vantagem nisso: abriu enormes bunkers
secretos construídos sob a guerra fria que continham milhares de máscaras anti-gases,
que foram imediatamente usadas contra a Covid-19.
Agora, nestes dias
sombrios comecei a pensar o seguinte: a Terceira Guerra Mundial afinal chegou.
Mas de um jeito totalmente diferente do previsto pelos estrategistas militares
e políticos da Guerra Fria (que durou do final dos anos 40 até o início dos
anos 90).
O SARS Cov 2 (nome
do vírus da família Corona causador da doença Covid-19) desencadeou uma Guerra Mundial diferente. Que não tem um conflito bélico – que é como
tradicionalmente conhecemos as guerras. Esta é uma guerra completamente distinta,
sem fuzis, canhões, tanques, jatos supersônicos, mísseis etc. É uma guerra
sanitária, cujo inimigo é um só e é um inimigo comum a todas as nações do
mundo: o vírus mortal.
Em termos de
impacto econômico e social, essa Terceira Guerra Mundial me parece maior do que
a Segunda e a Primeira Guerras Mundiais. Em número de mortos certamente não,
afinal contam-se em várias dezenas de milhões o número de vítimas (militares e
civis) da Segunda Guerra Mundial, em todos os continentes. Com a Covid, ainda
estamos longe do primeiro milhão de mortos – nos próximos dias chegaremos aos
300 mil óbitos. Mas a Segunda Guerra durou 5 anos, a Covid tem apenas 5 meses…
ok, mas até o ano que vem deveremos ter a vacina, a arma final que vencerá o
vírus e encerrará a guerra sanitária.
O que todos os
governos das áreas afetadas estão fazendo, bloqueando ruas e cidades inteiras,
fechando o comércio, montando hospitais de campanha, saindo doidamente pelo
mundo tentando comprar máscaras e respiradores, estourando orçamentos públicos com ações emergenciais, são típicas operações de
guerra.
Entretanto, depois
de descoberta a vacina, começará a acabar a guerra sanitária, mas temo que se inicie outra, a guerra econômica e política do pós-Covid, com impactos políticos, econômicos
e sociais fortíssimos.
Explico.
O mundo até
dezembro de 2019 vivia uma guerra comercial das maiores dos últimos tempos. O
cenário geopolítico-econômico era bem complexo. Os Estados Unidos da América de Donald Trump
resolveram romper com o equilíbrio nas relações de trocas internacionais (o
comércio mundial), alegando que vinham sendo prejudicados nos acordos de livre
comércio e que só os chineses estavam se dando bem, dominando pouco a pouco a economia
mundial e comprando cada vez mais empresas nos Estados Unidos. Esses acordos de
livre comércio (chamados acordos multilaterais, assinados por vários países) são
defendidos pela Organização Mundial de Comércio (OMC), porque permitem que os
negócios entre as nações fluam de forma regular. É uma discussão que consumiria
páginas e páginas de dados e análises. Vou tentar resumir alguns fatos
relevantes.
Os EUA, que
emergiram da Segunda Guerra Mundial como a economia mais forte do mundo, chegaram
a 2020 ainda como um país hegemônico em termos econômicos. A moeda padrão da
economia mundial ainda é o dólar. A língua mais importante de se falar no mundo
é o inglês – seja na Academia e na Ciência, seja no mundo dos negócios ou da
política (na ONU, um diplomata da Tailândia ao conversar com um colega do
Paraguai, conseguirá se comunicar em inglês, e não em espanhol ou tailandês). A
cultura mais forte do mundo e a que mais influencia outras culturas é a
norte-americana; os maiores sucessos do cinema e das séries de TVs em todo
mundo são Made in USA, os grandes artistas da música idem. No streaming de
vídeo, negócio que prospera de vento em popa com o isolamento social, Netflix,
Amazon e HBO navegam de braçada. A indústria do software dominante nos negócios
e na vida diária do mundo conectado vem do Vale do Silício, na Califórnia
(Microsoft, Apple, Google, Facebook, Oracle, IBM, Adobe, Symantec etc.). Seis
das dez maiores farmacêuticas do mundo são norte-americanas (Pfizer, Johnson
& Johnson, Merck, AbbVie, Amgen e Bristol-Myers Squibb). Igualmente seis
das dez maiores fabricantes de tênis do mundo são dos EUA (Nike, Under Armour,
Air Jordan, Converse, Vans e New Balance). E o que dizer do mundo fast food?
Subway, McDonald's, Burguer King, KFC, Starbucks, Pizza Hut, Taco Bell, todas
norte-americanas, que servem Coca-Cola e Pepsi, os gigantes do mercado mundial
de refrigerantes, igualmente nativos da terra do Tio Sam.
Mesmo com todo esse
domínio, os Estados Unidos vêm perdendo terreno nos últimos anos para a China.
E de uma maneira que fere profundamente o orgulho pátrio dos norte-americanos.
Chineses compram fábricas na “América” e impõem sua cultura rígida, seus
costumes duros, sua língua estranha, seu inglês raquítico, seus salários mais
baixos, sua maior carga horária de trabalho, sua indiferença com o lazer de
entretenimento ocidental e seu desprezo solene aos outrora fortes sindicatos
norte-americanos. Trump usou esse sentimento de humilhação diante dos
chineses para criar um forte apoio eleitoral em todas as classes sociais e
virar presidente dos EUA. Por isso, até hoje continua a tentar demonizar a
China, acusando-a formalmente como responsável pela pandemia de SARS Cov 2.
Agora estamos nos
aproximando de um novo mundo. Que começa aos poucos a se delinear com alguns
fatos marcantes:
• China,
Coreia do Sul e outros países asiáticos estão saindo rapidamente do pior da
crise e estão aos poucos voltando à vida normal. Isso significa também retomar
sua capacidade produtiva em nível nacional, bruscamente interrompida por alguns
meses.
• Ao
mesmo tempo, a Europa, os Estados Unidos e a Rússia, principais concorrentes
econômicos da China no comércio mundial, além de serem antagônicos na política internacional
(os Estados Unidos em grande parte, a Rússia e a Europa, menos), estão sofrendo
um impacto muitas vezes maior do que a China e deverão demorar mais tempo para
a volta à “normalidade” produtiva e econômica. E, além disso, voltarão com menos
recursos econômicos do que antes, perderão numa proporção bem maior do que a
China.
• Este
cenário é bastante favorável para que os chineses cresçam rapidamente nas
economias ocidentais, comprando grandes empresas norte-americanas, europeias,
brasileiras, mexicanas, africanas etc., e tudo na bacia das almas, a preço de banana,
ampliando seu controle econômico sobre o Ocidente. E os Estados Unidos e a Europa
estarão bem enfraquecidos para resistir à avalanche de bilhões de renminbis
(moeda chinesa), que dizer então de Brasil, México, Argentina, Peru, Venezuela,
Colômbia etc.
• Em
resumo: EUA, Europa, Rússia e América Latina estarão mais enfraquecidas para
enfrentar a blitzkrieg econômica da China, que voltará ao ataque com bem menos danos
coronários.
• Por
algum laboratório ou instituto de pesquisas público ou sem fins lucrativos.
Neste caso, sua patente provavelmente será aberta para que todos os
fabricantes, públicos (como a nossa Fiocruz) e privados (como as grandes
farmacêuticas internacionais) possam produzi-la livremente, o que vai acelerar
a vacinação em todo o planeta.
Nesse cenário, temo
que possamos ter uma pré-guerra econômica que vá causar ainda mais mortes no
mundo. E é a vacina que pode vir a ser o “epicentro” dessa nova guerra.
É o seguinte. Há
uma corrida internacional em busca da vacina. É possível que as primeiras descobertas
sejam anunciadas ainda em 2020. Porém, daí a vacinar todo o mundo contra a SARS
Cov 2, vai uma grande distância... é preciso fabricar bilhões de vacinas,
distribuí-la por 200 países e vacinar 7 bilhões de pessoas.
Há algumas
variáveis (possibilidades que ainda não temos como cravar) preocupantes. A
vacina pode ser descoberta de diferentes formas. Vejamos as principais
possibilidades:
• Por algum laboratório ou instituto sob controle do Estado chinês
(uma ditadura). Nesse caso, corremos alguns riscos. A China pode decidir
destinar o primeiro lote de 1,4 bilhão de vacinas para imunizar primeiro sua
população, aumentando seu diferencial competitivo no comércio e na disputa pela
hegemonia político-econômica mundial. Pois serão centenas de milhões de trabalhadores rapidamente
aptos a voltar à ativa, atividades comerciais reabertas sem limites, enquanto o
restante do mundo ainda ficaria em um semi-isolamento, com economia
parcialmente parada. Quanto tempo demorará para vacinar 1,4 bilhão de chineses?
Certamente várias semanas. E o restante do mundo que espere sua hora.
• Do
outro lado do mundo, se a vacina for descoberta por algum laboratório privado
norte-americano. O governo Trump certamente agirá para que as primeiras vacinas
sejam aplicadas nos cerca de 330 milhões de norte-americanos, antes que o fabricante
comece a exportar para outros países. Provavelmente adotará medidas legais nesse
sentido, como já fez com as máscaras produzidas por fabricantes nos EUA, que foram proibidos de exportar no auge
da crise, só podiam vender para os estados e para o governo central
norte-americano primeiro.
• Se for descoberta por um laboratório privado na União Europeia, pode ser que tenhamos também essa postura, primeiro os europeus, depois o mundo. O mesmo vale para a Rússia, Índia ou Japão.
Ou seja, a
aplicação da vacina pode virar um diferencial competitivo num mundo movido a
dinheiro proveniente de negócios. Quem se vacinar primeiro, vai conseguir se “normalizar”
primeiro e produzir mais e vender mais.
Com esses cenários,
o Brasil, a América Latina, a África, o Oriente Médio, a Oceania e a maioria
dos países da Ásia voltarão à “normalidade” alguns meses depois dos
descobridores da vacina, e nessa volta estarão ainda mais fracos economicamente
do que já estão hoje.
Claro, há outras possibilidades, como duas ou três vacinas serem descobertas ao mesmo tempo ou algum desses países, até mesmo a China, terem uma visão mais humanitária e resolverem abrir a patente para que a vacina possa ser fabricada e aplicada ao mesmo tempo em vários países do mundo, encurtando o tempo de imunização da humanidade e, consequentemente, a volta das economias nacionais ao “normal”.
Por fim... Este pensata que compartilho com vocês tem várias especulações, com alguma base, mas ainda assim especulações. Ninguém pode dizer que será assim ou assado.
Quem
viver (literalmente...), verá.