domingo, 10 de maio de 2020

Covid-19: a Terceira Guerra Mundial?


Por algumas décadas o espectro da Terceira Guerra Mundial rondou o planeta.

Países ergueram abrigos antinucleares, Pequim construiu ruas no subsolo da cidade para a população poder fugir e continuar a levar uma vida "normal". O senso comum era de que havia tantos mísseis nucleares dos dois lados (capitalismo e comunismo) que se algum deles fosse disparado contra o "inimigo", imediatamente o outro lado responderia com mais mísseis, todos com ogivas nucleares capazes de destruir cidades grandes, numa escalada que ninguém sabe quem seria o vencedor, se é que haveria um vencedor. O critério que daria a vitória seria a velocidade com que seus mísseis chegassem ao adversário, antes que os mísseis deles atingissem seu território.

O certo é que teríamos países devastados e a mortal poeira atômica-nuclear solta no ar contaminaria indistintamente povos, nações e a natureza, ao sabor dos ventos e da chuva, que espalhariam a dor e a morte radioativa por todos os continentes. Máscaras contra gases, bunkers, toda sorte de coisas foi pensada para que algumas comunidades sobrevivessem à hecatombe nuclear. Nas últimas semanas, a Finlândia (país que todas as previsões diziam ser um dos primeiros alvos dos mísseis soviéticos) viu uma vantagem nisso: abriu enormes bunkers secretos construídos sob a guerra fria que continham milhares de máscaras anti-gases, que foram imediatamente usadas contra a Covid-19.

Agora, nestes dias sombrios comecei a pensar o seguinte: a Terceira Guerra Mundial afinal chegou. Mas de um jeito totalmente diferente do previsto pelos estrategistas militares e políticos da Guerra Fria (que durou do final dos anos 40 até o início dos anos 90).

O SARS Cov 2 (nome do vírus da família Corona causador da doença Covid-19) desencadeou uma Guerra Mundial diferente. Que não tem um conflito bélico – que é como tradicionalmente conhecemos as guerras. Esta é uma guerra completamente distinta, sem fuzis, canhões, tanques, jatos supersônicos, mísseis etc. É uma guerra sanitária, cujo inimigo é um só e é um inimigo comum a todas as nações do mundo: o vírus mortal.

Em termos de impacto econômico e social, essa Terceira Guerra Mundial me parece maior do que a Segunda e a Primeira Guerras Mundiais. Em número de mortos certamente não, afinal contam-se em várias dezenas de milhões o número de vítimas (militares e civis) da Segunda Guerra Mundial, em todos os continentes. Com a Covid, ainda estamos longe do primeiro milhão de mortos – nos próximos dias chegaremos aos 300 mil óbitos. Mas a Segunda Guerra durou 5 anos, a Covid tem apenas 5 meses… ok, mas até o ano que vem deveremos ter a vacina, a arma final que vencerá o vírus e encerrará a guerra sanitária.

O que todos os governos das áreas afetadas estão fazendo, bloqueando ruas e cidades inteiras, fechando o comércio, montando hospitais de campanha, saindo doidamente pelo mundo tentando comprar máscaras e respiradores, estourando orçamentos públicos com ações emergenciais, são típicas operações de guerra.

Entretanto, depois de descoberta a vacina, começará a acabar a guerra sanitária, mas temo que se inicie outra, a guerra econômica e política do pós-Covid, com impactos políticos, econômicos e sociais fortíssimos.

Explico. 

O mundo até dezembro de 2019 vivia uma guerra comercial das maiores dos últimos tempos. O cenário geopolítico-econômico era bem complexo. Os Estados Unidos da América de Donald Trump resolveram romper com o equilíbrio nas relações de trocas internacionais (o comércio mundial), alegando que vinham sendo prejudicados nos acordos de livre comércio e que só os chineses estavam se dando bem, dominando pouco a pouco a economia mundial e comprando cada vez mais empresas nos Estados Unidos. Esses acordos de livre comércio (chamados acordos multilaterais, assinados por vários países) são defendidos pela Organização Mundial de Comércio (OMC), porque permitem que os negócios entre as nações fluam de forma regular. É uma discussão que consumiria páginas e páginas de dados e análises. Vou tentar resumir alguns fatos relevantes.

Os EUA, que emergiram da Segunda Guerra Mundial como a economia mais forte do mundo, chegaram a 2020 ainda como um país hegemônico em termos econômicos. A moeda padrão da economia mundial ainda é o dólar. A língua mais importante de se falar no mundo é o inglês – seja na Academia e na Ciência, seja no mundo dos negócios ou da política (na ONU, um diplomata da Tailândia ao conversar com um colega do Paraguai, conseguirá se comunicar em inglês, e não em espanhol ou tailandês). A cultura mais forte do mundo e a que mais influencia outras culturas é a norte-americana; os maiores sucessos do cinema e das séries de TVs em todo mundo são Made in USA, os grandes artistas da música idem. No streaming de vídeo, negócio que prospera de vento em popa com o isolamento social, Netflix, Amazon e HBO navegam de braçada. A indústria do software dominante nos negócios e na vida diária do mundo conectado vem do Vale do Silício, na Califórnia (Microsoft, Apple, Google, Facebook, Oracle, IBM, Adobe, Symantec etc.). Seis das dez maiores farmacêuticas do mundo são norte-americanas (Pfizer, Johnson & Johnson, Merck, AbbVie, Amgen e Bristol-Myers Squibb). Igualmente seis das dez maiores fabricantes de tênis do mundo são dos EUA (Nike, Under Armour, Air Jordan, Converse, Vans e New Balance). E o que dizer do mundo fast food? Subway, McDonald's, Burguer King, KFC, Starbucks, Pizza Hut, Taco Bell, todas norte-americanas, que servem Coca-Cola e Pepsi, os gigantes do mercado mundial de refrigerantes, igualmente nativos da terra do Tio Sam.

Mesmo com todo esse domínio, os Estados Unidos vêm perdendo terreno nos últimos anos para a China. E de uma maneira que fere profundamente o orgulho pátrio dos norte-americanos. Chineses compram fábricas na “América” e impõem sua cultura rígida, seus costumes duros, sua língua estranha, seu inglês raquítico, seus salários mais baixos, sua maior carga horária de trabalho, sua indiferença com o lazer de entretenimento ocidental e seu desprezo solene aos outrora fortes sindicatos norte-americanos. Trump usou esse sentimento de humilhação diante dos chineses para criar um forte apoio eleitoral em todas as classes sociais e virar presidente dos EUA. Por isso, até hoje continua a tentar demonizar a China, acusando-a formalmente como responsável pela pandemia de SARS Cov 2.

Agora estamos nos aproximando de um novo mundo. Que começa aos poucos a se delinear com alguns fatos marcantes:

• A economia mundial está devastada ou fortemente afetada na maioria dos países, especialmente porque o mundo já começava a entrar em uma nova crise econômica, provocada pela guerra comercial que os Estados unidos vinham declarando à China.

• China, Coreia do Sul e outros países asiáticos estão saindo rapidamente do pior da crise e estão aos poucos voltando à vida normal. Isso significa também retomar sua capacidade produtiva em nível nacional, bruscamente interrompida por alguns meses.

• Ao mesmo tempo, a Europa, os Estados Unidos e a Rússia, principais concorrentes econômicos da China no comércio mundial, além de serem antagônicos na política internacional (os Estados Unidos em grande parte, a Rússia e a Europa, menos), estão sofrendo um impacto muitas vezes maior do que a China e deverão demorar mais tempo para a volta à “normalidade” produtiva e econômica. E, além disso, voltarão com menos recursos econômicos do que antes, perderão numa proporção bem maior do que a China.

• Este cenário é bastante favorável para que os chineses cresçam rapidamente nas economias ocidentais, comprando grandes empresas norte-americanas, europeias, brasileiras, mexicanas, africanas etc., e tudo na bacia das almas, a preço de banana, ampliando seu controle econômico sobre o Ocidente. E os Estados Unidos e a Europa estarão bem enfraquecidos para resistir à avalanche de bilhões de renminbis (moeda chinesa), que dizer então de Brasil, México, Argentina, Peru, Venezuela, Colômbia etc.

• Em resumo: EUA, Europa, Rússia e América Latina estarão mais enfraquecidas para enfrentar a blitzkrieg econômica da China, que voltará ao ataque com bem menos danos coronários.  

Nesse cenário, temo que possamos ter uma pré-guerra econômica que vá causar ainda mais mortes no mundo. E é a vacina que pode vir a ser o “epicentro” dessa nova guerra.

É o seguinte. Há uma corrida internacional em busca da vacina. É possível que as primeiras descobertas sejam anunciadas ainda em 2020. Porém, daí a vacinar todo o mundo contra a SARS Cov 2, vai uma grande distância... é preciso fabricar bilhões de vacinas, distribuí-la por 200 países e vacinar 7 bilhões de pessoas.

Há algumas variáveis (possibilidades que ainda não temos como cravar) preocupantes. A vacina pode ser descoberta de diferentes formas. Vejamos as principais possibilidades:

• Por algum laboratório ou instituto de pesquisas público ou sem fins lucrativos. Neste caso, sua patente provavelmente será aberta para que todos os fabricantes, públicos (como a nossa Fiocruz) e privados (como as grandes farmacêuticas internacionais) possam produzi-la livremente, o que vai acelerar a vacinação em todo o planeta.

• Por algum laboratório ou instituto sob controle do Estado chinês (uma ditadura). Nesse caso, corremos alguns riscos. A China pode decidir destinar o primeiro lote de 1,4 bilhão de vacinas para imunizar primeiro sua população, aumentando seu diferencial competitivo no comércio e na disputa pela hegemonia político-econômica mundial. Pois serão centenas de milhões de trabalhadores rapidamente aptos a voltar à ativa, atividades comerciais reabertas sem limites, enquanto o restante do mundo ainda ficaria em um semi-isolamento, com economia parcialmente parada. Quanto tempo demorará para vacinar 1,4 bilhão de chineses? Certamente várias semanas. E o restante do mundo que espere sua hora. 

• Do outro lado do mundo, se a vacina for descoberta por algum laboratório privado norte-americano. O governo Trump certamente agirá para que as primeiras vacinas sejam aplicadas nos cerca de 330 milhões de norte-americanos, antes que o fabricante comece a exportar para outros países. Provavelmente adotará medidas legais nesse sentido, como já fez com as máscaras produzidas por fabricantes nos  EUA, que foram proibidos de exportar no auge da crise, só podiam vender para os estados e para o governo central norte-americano primeiro. 

• Se for descoberta por um laboratório privado na União Europeia, pode ser que tenhamos também essa postura, primeiro os europeus, depois o mundo. O mesmo vale para a Rússia, Índia ou Japão.

Ou seja, a aplicação da vacina pode virar um diferencial competitivo num mundo movido a dinheiro proveniente de negócios. Quem se vacinar primeiro, vai conseguir se “normalizar” primeiro e produzir mais e vender mais.

Com esses cenários, o Brasil, a América Latina, a África, o Oriente Médio, a Oceania e a maioria dos países da Ásia voltarão à “normalidade” alguns meses depois dos descobridores da vacina, e nessa volta estarão ainda mais fracos economicamente do que já estão hoje.

Claro, há outras possibilidades, como duas ou três vacinas serem descobertas ao mesmo tempo ou algum desses países, até mesmo a China, terem uma visão mais humanitária e resolverem abrir a patente para que a vacina possa ser fabricada e aplicada ao mesmo tempo em vários países do mundo, encurtando o tempo de imunização da humanidade e, consequentemente, a volta das economias nacionais ao “normal”.

Por fim... Este pensata que compartilho com vocês tem várias especulações, com alguma base, mas ainda assim especulações. Ninguém pode dizer que será assim ou assado. 

Quem viver (literalmente...), verá.