sábado, 11 de julho de 2020

O normal, o anormal e o novo normal



Encyclopedia Brittanica online:
Norm, also called Social Norm, 
rule or standard of behaviour shared
by members of a social group.



Dicionário Michaelis online: 
1 Conforme a norma; regular: 
O juiz aplicou a sanção normal ao caso.
2 Que é comum e que está presente
na maioria dos casos;
habitual, natural, usual:
“[…] essa dor que eu estou sentindo
no braço não pode ser normal”
3 Tudo que é permitido e aceito socialmente:
“Divorciar-se é prática
bastante normal hoje em dia”. 
4 Diz-se de pessoa que não tem defeitos 
ou problemas físicos ou mentais:
“Um aluno normal”. 


Caetano Veloso:
"De perto, ninguém é normal..."




Uma das grandes ansiedades destes tempos pandêmicos é sobre nosso futuro e a obsessão pela volta ao normal, à normalidade.


Quando a vida vai voltar ao normal?”, perguntam-se centenas de milhões de pessoas no mundo.

Como será o novo normal?”, questionam-se outras tantas, já convencidas de que nada será como antes, amanhã.

Que será, será, whatever will be, will be, the future's not ours to see, what will be, will be…”, já cantava em 1956 a linda Doris Day, no clássico de Alfred Hitchcock “O homem que sabia demais”.

A pandemia de Covid-19 (doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2) tem uma rapidez incomum de infecção e também em termos de impacto geral sobre o mundo todo. 

Estamos em meados de julho. A coisa começou pra valer no Brasil da segunda para a terceira semana de março, com as primeiras quarentenas. Ou seja, tem quatro meses apenas, equivalente a um Outono com mais algumas semanas de Inverno. E nesse curto período chegamos a mais de 70 mil mortos...

Ah, tá tudo normal, a verdade é que nunca houve isolamento, as lojas estão tudo aberta, cheio de gente na Mureta da Urca, na feira da Glória...”.

Essa visão de normalidade veio de uma amiga, no final de maio, revoltada com tanta gente que não cumpria o isolamento social.

Porém, um mês depois de o prefeito Marcelo Crivella ter iniciado o relaxamento gradual das normas de isolamento social, saio à rua aqui em Copacabana para ir a mercado e farmácia e continuo achando tudo muito anormal. 

Como poderia ser normal se há várias lojas, bares e restaurantes ainda fechados ou semiabertos? Se o produto mais vendido pelos camelôs é a máscara facial? Se vejo tantas pessoas com máscara na rua e, em número menor, outras com a máscara no queixo? O que tem de normal nisso? 

Atenção: Devido à pandemia do COVID-19, interprete os seus trânsitos considerando as normas de saúde e o isolamento social necessários neste período”. Como pode estar normal se, a cada e-mail que recebo de alerta sobre  meus trânsitos astrológicos do site Personare, vem essa mensagem em tarja preta? Como os astros podem trabalhar direito a nosso favor em meio ao isolamento social?

Vejam essa outra recomendação que recebi esta semana sobre um trânsito astrológico: 

Este tende a ser um perí­odo particularmente positivo para o sexo, o prazer, uma fase em que você provavelmente sentirá que está irradiando um magnetismo pessoal maior, e de fato estará... Só que um trânsito como este, no momento em que estamos vivendo uma crise sanitária sem precedentes, só deve ser aproveitado se você estiver não apenas em uma relação monogâmica, mas vivendo com a pessoa. Caso você não tenha um amor neste momento, convém se exibir mais, fazer-se ver, mas lembre-se: até a crise do coronavírus passar, tudo terá de ser online.

Não tem nada de normal nisso aí.

Em conversas com amigos pelo Facebook ou pelo zap, constato que várias pessoas se isolaram quase 100%. Alguns ficaram mais de 90 dias sem botar o pé na rua um único dia, vivendo de delivery lavado minunciosamente a álcool em gel. Teve isolamento social sim, e muita gente cumpriu à risca.

Ouvi o relato de uma amiga que já está aposentada e que teve que ir ao Itaú para fazer “prova de vida”, exigência para continuar a receber sua pensão. Ela é dessas que não têm saído de casa para nada, e ficou emocionalmente esgotada com essa experiência de ir ao banco, enfrentar fila para entrar, demorar para ser atendida e se estressar morrendo de medo de ser engolida por qualquer corona escondido atrás do caixa automático.

O sono é outra coisa que saiu do normal para muita gente. Não há mais horário para chegar ao trabalho, embora se tenha horário para entrar na reunião live do home-office. Escrevi esse artigo em dias alternados, sempre entre 4h e 6h da madrugada. Meu sono bagunçou já há várias semanas, meu horário normal de acordar seria umas 7h. Recentemente, numa live com amigos de faculdade, a insônia foi um dos temas. Uma amiga discorreu sobre os quatro remédios que ela cultiva há anos na cabeceira, um para cada ocasião de insônia, e que têm sido mais utilizados neste período incerto.

Minhas camisas sociais, que eu usava para trabalhar, estão socadas em uma mala, sem passar, esquecidas, sem perspectiva de uso. Calça comprida? Tem tempos que não uso. 

Algum amigo no Facebook contou de uma enquete que uma conhecida fez entre suas amigas: “Quem ainda está usando sutiã?”. Relatou que as respostas foram as mais estapafúrdias, mas a maioria das dezenas de respondentes disse que o sutiã está temporariamente fora de uso no dia a dia. 

E passar roupa? Praticamente aboli esse hábito da minha vida, e sei que muita gente também deixou de lado. Só para ficar em casa, não carece a formalidade de uma roupa bem passada para manter as aparências. A maioria usa roupas confortáveis com as quais não sairiam para trabalhar. O equivalente àquilo que antigamente chamávamos de pijama. Em outras palavras, tudo anormal. 

Chegou a mim uma matéria com um vídeo de uma audiência virtual da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça na Paraíba em que dois desembargadores chamam a atenção de um advogado:
Nós todos usamos gravata, é o padrão de quem exercita o labor jurídico. Sobremodo, em uma sessão solene”. 
O nobre advogado estava de terno e camisa social, bastante apresentável, e achou que, numa audiência online, a gravata não fazia sentido. Os desembargadores, entretanto, transportaram a normalidade do fórum para as telinhas do Zoom. Se debaixo do vídeo o advogado estava de short, bermuda ou apenas de cuecas, são outros 500, até porque ninguém conseguia ver na telinha do Zoom, e aí não há desembargador que dê jeito na aplicação da norma.

Live, home-office, zoom... Essas palavras de origem inglesa não eram normais quatro meses atrás. Agora, repetimos elas todo santo dia. Máscara no rosto? Só no carnaval ou para roubar banco. Santos Dumont e Congonhas sem viva alma às 7h da manhã numa segunda-feira? Impensável...

Outro dia acordei pensando numa cena que me veio em sonho. Eu estava na rua e vi uma amiga encontrar-se com um conhecido. Eles se abraçaram e conversaram felizes. Acordei confundindo sonho com realidade: “Já pode abraçar de novo? Voltamos ao normal?” O abraço é uma das coisas que uma amiga querida mais sente falta nesta quarentena infinita. Diariamente ela me relata essa sofrência da falta de abraços, do contato físico, do cara a cara sem máscaras com pessoas queridas.

Não sei se éramos realmente normais antes, mas fato é que estamos vivendo numa grande anormalidade. A Pizzaria Guanabara, ícone da boemia criativa do Baixo Leblon dos anos 80 e 90, anunciou seu encerramento definitivo. Será que a Livraria Argumento – minha livraria mais querida... – com seu delicioso Café Severino ao fundo, vai sobreviver a essa epidemia? Aliás, será que ainda teremos alguma livraria aberta quando a vida voltar ao “normal”? A Leonardo da Vinci (outra livraria muito querida) está reabrindo a duras penas. Em Santa Teresa, ouvi que o Bar do Mineiro (outro ícone da tradicional boemia carioca) não deve abrir mais; o restaurante Espírito Santa já formalizou seu fechamento, inclusive pondo à venda móveis e obras de arte que decoravam suas paredes. E o Arnaudo, a Adega do Pimenta, o Sobrenatural, será que sobreviverão? O Pavão Azul de Copacabana anda funcionando na base do delivery e quando Crivella afrouxou as normas já teve uma aglomeração pra chamar de sua. Estou sem notícias do Cervantes e da Fiorentina. A Trattoria da Fernando Mendes também respira com a ajuda do delivery.

O normal, como o conhecíamos, já não existe mais. E me parece que não tem volta. Vem aí um “novo normal”. No momento, porém, continua tudo bem anormal. Porque o futuro segue totalmente indefinido. 

Teremos vacina? Quando? Sequer sabemos se haverá Jogos Olímpicos em 2021, daqui a um ano. O Carnaval de 2021 já subiu em cima do muro, talvez aconteça em junho ou julho, depende da vacina...

Um grande amigo, pesquisador científico com pós doutorado, estava acostumado a viajar ao menos uma vez por mês, para dar palestras, participar de seminários, reuniões de trabalho ou realizar alguma pesquisa. Ia ao exterior em média duas a três vezes por ano. Ele gostava dessa rotina meio nômade, pois conhecia lugares e pessoas novas. Hoje, já sabe, desconsolado, que essa vida acabou. As passagens aéreas ficarão caríssimas e todas as instituições já descobriram que dá para economizar nas viagens de avião e quebrar o galho com reuniões e conferências virtuais, que são muito mais baratas.
Como live cansa, meu Deus...”. 
Desabafo de outra amiga, depois de ficar ouvindo seu chefe na telinha pequena dentro do monitor do computador por quase duas horas. Live não tem cheiro, não tem detalhes do rosto da pessoa, não tem a temperatura ambiente, não sabemos o que acontece da janela pra fora naquele local onde está a outra pessoa. É uma coisa fria, de imagens embaçadas e de vozes nem sempre em tom audível. Mas não teve jeito, tivemos que aceitar as lives sem questionamentos e sem preparo prévio. Porém, live não é normal, é artificial. E ainda tem os travamentos, quando a imagem da pessoa congela e perdemos parte do que ela disse. Numa reunião presencial, se alguém trava e congela, chamamos logo um médico... na live, só nos resta culpar a Net, a Vivo, a Claro... 

Esta semana, vi corrida de Fórmula 1 e Fla-Flu na TV, ambos sem público. As duas competições numa anormalidade só... O técnico à beira do gramado usava máscara, os jogadores, o juiz e os bandeirinhas em campo, não usavam. O juiz foi advertir o técnico, falando com ele a menos de meio metro de distância: o juiz sem máscara, o técnico mascarado. Tudo errado. No banco de reservas, a maioria com máscara, mas não todos. Estavam separados por uma cadeira, mas na hora do gol, todos se abraçaram, mascarados e não mascarados. Jogador discutindo com juiz é um tal de soltar gotículas para lá, gotículas para cá, diretamente na cara um do outro... A norma estava bem bagunçada, não dava para entender o critério. O jovem corredor novato da F1 que chegou em terceiro lugar, um grande feito para ele, tão logo saiu do carro correu eufórico para abraçar alguém de sua equipe. Ambos sem máscara. Tem lugar para a euforia no protocolo? Porque esporte sem a euforia da vitória não existe...

A ansiedade em torno do futuro é ampla, geral a irrestrita. Universidades federais, que não têm os mesmo recursos que as privadas para partir para a aventura didática das aulas online, estão falando em retomar os trabalhos educativos somente quando vier a vacina – algo esperado, na prática (com filas de vacinação em todo o país), em meados do primeiro semestre de 2021. Um colega professor da UFRJ me disse que já estão falando por lá em a volta de um ano letivo normal acontecer apenas em 2022. Escolas de ensino básico e fundamental estão voltando com parte dos alunos na sala, parte em casa, em esquema de rodízio. Isso é normal?

A volta ao trabalho no escritório é outro drama. Quando volta? Quem volta e quem continuará definitivamente em home-office? Como será essa volta? A única coisa que se sabe é que não será uma volta ao antigo normal. Alguns, inclusive, não irão a lugar nenhum, pois já foram demitidos no meio da crise. 

Boa parte dos restaurantes a quilo do Centro do Rio, por exemplo, dificilmente reabrirá as portas; para os trabalhadores que voltarem aos escritórios, haverá menos lugares para comer na rua. E aqueles que têm filhos na escola e dependem de empregada e babá para poder trabalhar? Sem a escola funcionando normalmente, como poderão retornar ao escritório?

Lavar o pacote de batata palha que chegou do supermercado é normal? Nunca foi, mas pode começar a entrar na lista de normalidades de muita gente boa por aí. Antigamente, era normal convivermos com bactérias mis. Quantas e quantas latas de cerveja de ambulantes eu bebi colocando minha boca direto naquele metal que veio misturado sabe-se lá com o quê no isopor sem qualquer medida de higiene, com a água derretida daquele gelo sem qualquer comprovação de procedência ou limpeza? E a água do mate da praia, cuja procedência sempre foi um grande mistério, mas que nunca matou ninguém?

Vivemos e ainda viveremos acho que por alguns anos esses tempos sanitários que não são normais. Antigamente (tipo, em fevereiro passado...) o contato com a sujeira tinha até uma qualidade: criava anticorpos. Comer um doce com uma formiguinha no meio? “Faz bem pros olhos”. Salgado bom na vitrine do balcão do boteco? "É aquele que tem a mosca em cima, pois mosca entende de salgado...". O normal era fazermos vista grossa a inconsistências sanitárias do dia a dia de bares e restaurantes. E agora, José?

Outra questão: será que abraços e afagos físicos voltarão a ser o normal? Esses eu desconfio que sim. Cariocas, e brasileiros de maneira geral, adoram se abraçar, pegar na mão, no braço, ter contato físico mesmo, olho no olho. Eu sou assim, muita gente é assim. A vontade e a ansiedade natural de se abraçar acho que ainda não foram extintas pelos protocolos da anormalidade.

Mais uma questão: quando a aglomeração voltar e o Maracanã encher-se novamente, duvido que os homens passem a lavar as mãos após fazer xixi no banheiro. A bem da verdade, muitos, como eu, lavam suas mãos no mictório (às vezes apenas com água, porque nem sempre tem sabão). Mas é grande a percentagem de homens que ignoram solenemente o lavar de mãos após pegar na genitália e soltar o xixi no vaso. Será que isso vai mudar, depois de tanta propaganda para a importância de se lavar as mãos? Tenho dúvida. O antigo normal é capaz de falar mais forte.

E a máscara, veio para ficar? Falam muito nisso, mas também tenho sérias dúvidas. Sempre que se come, se bebe ou se fuma, tira-se a máscara. Alguns tiram inclusive para falar ao celular. Outros para fazer exercícios. 

Creio que quando voltar a segurança de que não tem mais nenhum vírus no ar ameaçando mandar todo mundo para a UTI, as pessoas começarão a deixar as máscaras em casa. Como paquerar alguém com máscara (sem ver o rosto e a expressão dos lábios...) e distanciamento de metro e meio? Máscara não é normal, ninguém gosta dela, usamos porque não tem jeito, tem que usar...  Alguma normalidade à antiga as pessoas irão manter.

O Rio de Janeiro é uma cidade rueira, cariocas de maneira geral gostam de sair de casa, de segunda a domingo, todo dia é dia, toda hora é hora. Sair para caminhar, para jantar ou beber com amigos, para fazer compras, para ir à academia, ao cabeleireiro, ao ensaio do bloco, à praia, ao cinema, pra tomar um sol ou apenas ver outras pessoas. Esse é o normal da Cidade Maravilhosa. Onde ninguém aguenta mais ficar tanto tempo dentro de casa.

E o sexo? Apaixonados, amantes, frequentadores de casas de saliência, a galera do Tinder e do Happn, azaradores em geral, paqueradores de ocasião, casais de namorados... Eu não tenho dúvidas de que, como cantava Nelson Cavaquinho, “O sol há de brilhar mais uma vez...”. Se será do jeito normal, ou não, é que é difícil saber. Será que o tesão vai vencer o medo? 

Com tudo isso, com toda saudade e apego a nossas normalidades culturais e históricas, um novo normal vem por aí. Cheio de anormalidades, é claro. Mas será a norma. 

Porém, tem uma coisa que me preocupa e incomoda muito: a morte cada vez mais sendo encarada como uma coisa normal. 

Para mim, esse é um dos legados mais negativos desta epidemia. Até fevereiro, se acontecesse um acidente de carro com 5 mortos no Aterro, a Zona Sul inteira comentaria horrorizada. Hoje, morrem mais de mil brasileiros por dia e as pessoas mais e mais estão se incomodando muito pouco isso. Alguns até viram de canal na hora que entram essas notícias. "Mil e duzentos mortos? Normal, nada de novo..."

Só que não. Não é nada normal. É, sim, o fim da picada. Onde foi parar nossa revolta emocionada, nossa insatisfação com esse estado de coisas?