Sábado, 27 de outubro de 2018, um dia antes da
eleição fatídica, que pode jogar o Brasil num atraso de pelo menos quatro anos
de conquistas civilizatórias. Caí da cama antes da hora, muito tenso com tudo o
que pode vir a acontecer de mal a tantas pessoas que conheço e que não conheço,
e abatido com meu despreparo físico e emocional para a luta da resistência
democrática – um estado de espírito que eu guardei no armário por mais de três
décadas, achando que não precisaria mais utilizar, que o caminho do Brasil para
a democracia era irreversível.
Neste dia, junto com minha frustração e desânimo, meu
pensamento também está virado e revirado para tentar entender o que
acontece. Como, em menos de dois meses, o que parecia uma piada de mau gosto
tornou-se um pesadelo?
Pra começar...
Não sou cientista político, sou jornalista com um histórico de militância política na esquerda carioca e por isso sou um permanente observador da realidade e das pessoas. Me esforço em analisar e explorar fatos e tendências. Às vezes erro, outras acerto, mas vou aprendendo com meus erros e tentando aprofundar meu conhecimento sobre o comportamento e as atitudes das pessoas. O bom Jornalismo, que eu sempre busquei praticar, é um permanente passeio por outras áreas de conhecimento, como a História, a Economia, a Política, a Cultura e a Psicologia Social. A gente não é especialista em nenhuma dessas cadeiras, mas convive com elas por tanto tempo que acaba entendendo um pouco como cada uma interage e afeta os fatos no dia a dia da sociedade.Vamos ao que interessa
Para mim, duas palavrinhas concentram o que mais deve ser
estudado para compreender a eleição de 2018 – a mais atípica, inesperada e
imprevisível de todos os tempos da nossa jovem democracia. Essas duas palavras
são: classe média.
Estou falando de uma classe social fortemente heterogênea.
Ela inclui, por exemplo, uma família de classe média baixa, com renda mensal em
torno dos R$ 5 mil e que se aperta num apartamento de 50 metros quadrados num
bairro da Zona Norte do Rio, como Inhaúma ou Osvaldo Cruz. Essa família não tem
carro, anda de ônibus, trem e metrô, nunca viaja nas férias, raramente faz
compras em shopping center e, quando precisa, come um prato feito de R$ 15 num
boteco da região e toma a cerveja mais barata que encontrar, não importa a
marca.
Mas o que chamamos de classe média brasileira também abarca,
por exemplo, uma família paulistana de classe média alta com renda familiar
mensal em torno dos R$ 40 mil, que reside num belo e amplo apartamento no Itaim
Bibi com uns 100 metros quadrados, que regularmente faz compras nas melhores lojas dos melhores shoppings,
que só come em restaurantes caros, onde o prato mais barato não sai por menos
de R$ 60, que tem carro novo e troca de modelo a cada três anos, e que viaja todas as férias para Miami, Paris, New York ou Roma.
A classe média brasileira é muito ampla e diversa. E é o setor da população
que, proporcionalmente à sua renda, é o que mais paga impostos no Brasil. Nosso sistema de impostos e tributos (que requer uma reforma urgente...) faz com que aqueles que tenham carteira assinada sofram maior carga tributária. Por exemplo, um vencimento mensal de R$ 8 mil de um profissional sem dependentes tem retenção de imposto de renda na fonte de R$ 1,330 mil, ou seja, 17% do salário bruto em carteira. Já para um salário de salário mensal de R$
20 mil por mês, sem dependentes, estamos falando de um desconto de R$ 4,630 mil – ou seja, o vencimento lançado na carteira de
trabalho, na prática, vira R$ 15,369 mil líquidos – uma retenção de 23%, quase um quarto do salário. Além disso, há os 7,5% descontados para a Previdência Social. O profissional liberal sem carteira assinada
(médicos, arquitetos, advogados, psicólogos etc.) têm uma carga de imposto de renda menor, mas pagam outros impostos como o IPTU do escritório ou consultório, a
contribuição social sobre o lucro líquido, o alvará etc.
Além dos tributos diretos, quanto maior o salário da pessoa,
mais ela consome, e, portanto, mais impostos indiretos (embutidos nos preços
dos produtos) ela paga. Na maioria das vezes, ela não percebe isso, apenas
reclama que “está tudo muito caro”. Mas, quando compra um carro novo, por
exemplo, a classe média desconhece que os impostos embutidos no preço do veículo
chegam a quase 50% do valor de venda ao consumidor (essa conta é da Anfavea, a
associação dos fabricantes automotivos). Ou seja, se o carro custa R$ 60 mil,
uns R$ 28 mil são de impostos (IPI, ICMS, PIS/Cofins etc.).
Os impostos
Vou abrir um parênteses aqui.
Para que servem os impostos? Numa definição simples, os impostos são a receita principal do Estado para custear suas
despesas. Ou seja, é o dinheiro que garante o funcionamento dos hospitais e das
escolas públicas, a manutenção das ruas e estradas e o pagamento de
todas as despesas necessárias para termos segurança pública (salários dos
policiais, manutenção de quarteis e delegacias, compra de armas, balas,
uniformes, veículos, helicópteros, computadores, telefones celulares etc.,
entre muitos outros itens de despesas).
Uma vez, em junho de 2104, quando trabalhava no jornal
“Brasil Econômico” (que deixou de circular em 2015), tive a grata oportunidade
de entrevistar o italiano Domenico de Masi, um dos mais importantes pensadores
da atualidade, autor de vários best-sellers, como “O ócio criativo”, “O futuro
chegou e “O futuro do trabalho”. Octavio Costa fez a entrevista comigo e foi o
principal condutor dela, mas, não me lembro por que, o nome dele não saiu na
matéria. Dá pra ler a íntegra da entrevista aqui: https://goo.gl/djpFBy.
Perto da eleição que reelegeu Dilma, e ainda com muito das
manifestações de 2013 impactando nossa realidade política, perguntamos a De
Masi se ele não achava muito alta a carga tributária brasileira, que fica entre
35% e 40%. Ele respondeu comparando que a carga tributária na Suécia era de 60%
e que na Itália era de 57%. E complementou: “A diferença é que, na Suécia, os
impostos são devolvidos na forma de bons serviços para a população, mas na Itália,
não! Por causa da ineficiência burocrática e da corrupção no Estado italiano...”.
Essa é a grande questão dos impostos. Eles têm que ser
revertidos em serviços públicos de qualidade para a população. Da mesma forma
que o síndico de um prédio tem que garantir que todos os serviços funcionem
direito (portaria, limpeza, elevadores etc.), porque os condôminos pagam uma
taxa de condomínio alta e exigem um retorno disso.
Outro dia li em alguma análise econômica na imprensa que a
carga tributária no Brasil saltou de uns 22% nos anos 90 para 35% nos anos
2000, mas a qualidade dos serviços públicos piorou. Imagine se a taxa de
condomínio aumentasse 50%, mas depois desse reajuste os corredores do prédio
passaram a ficar mais sujos. O que acontece com os condôminos? Vão ficar muito incomodados
e vão reclamar, o síndico será severamente questionado...
Fecha parênteses...
Agora voltemos à classe média brasileira – fecha parênteses.
Em primeiro lugar, vale lembrar que a classe média de uma maneira geral nunca
teve uma participação política mais ativa no período da ditadura e também no
retorno à democracia, a partir de 1985. Participou discretamente das
manifestações pelas Diretas Já, na primeira metade dos anos 80, isso é fato. E a classe
média mais baixa dos grandes centros, especialmente Rio e São Paulo, teve um protagonismo político relevante, através dos fortes
movimentos sindicais de categorias do operariado nos anos 80 e 90. Alguns
movimentos de servidores públicos também mobilizaram a classe média de
funcionários estatais. Mas nunca vi um envolvimento político mais forte da
maioria da classe média brasileira, que está super concentrada nas grandes
cidades. Não tinha militância partidária, nem um partido que as representasse. Nunca
vi, até 2013.
Não consegui ir para as ruas durante as manifestações
daquele ano, mas ouvi relatos de repórteres que trabalhavam comigo e de amigos
que estiveram lá. E, sim, acho que o mais havia nas primeiras
manifestações eram, além de estudantes universitários e secundaristas, os trabalhadores
assalariados de classe média, média mesmo – nem tão ricos, nem tão pobres. Por
alguma razão, ainda a ser estudada por cientistas sociais, aquele setor da
sociedade que nunca ia nas manifestações políticas se viu estimulado a
acompanhar a multidão nas avenidas Rio Branco e Pres. Vargas, aqui no Rio, e em
outras vias país afora. Desconfio que aqueles 20 centavos acabaram tendo um impacto
simbólico e inconsciente muito grande para essa classe média recém entrante na cena política.
Talvez (isso é avaliação minha, estudos deveriam ser feitos para
comprovar), aquelas pessoas tenham identificado naquele pequeno aumento
abusivo uma empatia com seus incômodos de mais de uma década pagando impostos
altos sem o devido retorno da qualidade dos serviços públicos.
Como assim?
Nos anos 2000, a classe média começou a perceber que era
obrigada a pagar planos de saúde caríssimos porque a saúde pública era uma
quase tragédia. Pagava colégios particulares que custavam os olhos da cara,
porque as escolas municipais e estaduais eram precaríssimas. Pagava táxi,
seguro e manutenção de carro particular e transporte escolar privado porque os
transportes públicos deixavam muito a desejar. Pagava condomínio alto pacas,
para sustentar as despesas com grades na portaria, câmeras de segurança, alarmes,
porteiro 24 horas por dia... porque a segurança pública era cada vez pior e não
dava segurança.
Paralelamente, no governo Lula, grande esforço foi feito
para promover uma melhoria de vida das classes menos favorecidas. Em poucos
anos, a classe média que pagava pelos serviços de domésticas, bombeiros
hidráulicos, eletricistas, porteiros, manicures, consertadores de geladeiras e outros trabalhadores de baixa renda começou
a ver que o nível de vida dessas pessoas melhorava. Presenciar a empregada
doméstica que pela primeira vez na vida pegaria um avião para visitar a família no
Nordeste durante suas férias chocou muita gente. Alguns de forma positiva, mas
outros de maneira negativa.
Subconscientemente, eu acredito, muitas famílias de classe média se questionaram lá no fundo de sua alma tradicionalmente pequeno burguesa: “Peraí, meu salário não aumenta mais que a inflação, o supermercado está cada dia mais caro, os impostos consomem quase 30% do meu salário, a mensalidade da escola dos meus filhos sobe mais que meus ganhos, o plano de saúde reajusta todo ano mais que a inflação, o condomínio aumentou para poder pagar as câmeras e os alarmes, e os serviços públicos só pioram... Enquanto isso, minha empregada e meu porteiro melhoram de vida e conseguem até viajar de avião para o Nordeste... Como assim? Tem alguma coisa errada aí, acho que estão me fazendo de otário, estão me sacaneando...”.
Subconscientemente, eu acredito, muitas famílias de classe média se questionaram lá no fundo de sua alma tradicionalmente pequeno burguesa: “Peraí, meu salário não aumenta mais que a inflação, o supermercado está cada dia mais caro, os impostos consomem quase 30% do meu salário, a mensalidade da escola dos meus filhos sobe mais que meus ganhos, o plano de saúde reajusta todo ano mais que a inflação, o condomínio aumentou para poder pagar as câmeras e os alarmes, e os serviços públicos só pioram... Enquanto isso, minha empregada e meu porteiro melhoram de vida e conseguem até viajar de avião para o Nordeste... Como assim? Tem alguma coisa errada aí, acho que estão me fazendo de otário, estão me sacaneando...”.
Essa classe média em alguns momentos também se beneficiou – ficou mais fácil passar as férias no exterior e o emprego na iniciativa
privada abundou por alguns anos. O mercado de consumo ficou aquecido, produtos
importados estavam disponíveis nas lojas, milhares de estudantes conseguiram
estudar um tempo no exterior através do programa Ciência sem Fronteiras,
tivemos os jogos Olímpicos no Rio, o Brasil era elogiado lá fora. Mas aí veio a
crise econômica mundial de 2008, que de início foi só a marolinha batizada pelo
Lula, mas em 2013 já começava a mostrar suas garras, e em 2014, 15, 16, 17 e 18
só foi piorando. E o governo Dilma não mostrava nem um terço da competência política e do carisma de Lula em gerenciar a economia e o Congresso.
Como agravante, em 2015, juntamente com Dilma, tomou posse o Congresso mais conservador e corrupto que vimos desde a redemocratização, em 1985. Seu representante mais poderoso, Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados, hoje cumpre pena na cadeia.
Como agravante, em 2015, juntamente com Dilma, tomou posse o Congresso mais conservador e corrupto que vimos desde a redemocratização, em 1985. Seu representante mais poderoso, Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados, hoje cumpre pena na cadeia.
“A culpa é do PT...”
Paralelamente, essa classe média conviveu durante alguns
anos com notícias negativas da grande imprensa contra o Partido dos
Trabalhadores e seus dirigentes, devido ao envolvimento de integrantes do seu alto
escalão com a corrupção (com C maiúsculo), no Mensalão e na Lava Jato. Foi um
massacre, por uma década a grande imprensa (organizações Globo, Editora
Abril/Veja, Estadão, Folha de S. Paulo, Editora3/Istoé) não perdoou. E muitas vezes pegou mais
pesado com os petistas do que com ladrões de outros partidos. (Contribuiu para isso, a meu ver, a postura
arrogante do PT, que nunca reconheceu seus erros publicamente, mas isso é outra
história). O peso dessa grande imprensa sobre a formação da opinião da
classe média foi enorme. E contribuiu muito para criar o famoso antipetismo, o ódio coletivo ao
PT que tanto vemos hoje – me arrisco a dizer que quase metade do país odeia Lula e o PT.
É importante destacar que a classe média brasileira, de maneira geral
sempre foi despolitizada ou pouco politizada. Nunca acompanhou com atenção o noticiário político,
fixava-se em algumas manchetes de tempos em tempos, mas sequer se lembra em
quais deputados votou na última eleição, e tem apenas uma mera ideia do que os
representantes de seu Estado fazem no Congresso de terça a quinta-feira em
Brasília.
Mas o noticiário diário da Lava Jato durante alguns anos, com matérias de longa duração e chamadas diárias no Jornal Nacional e em todos os demais telejornais, acabou capturando sua atenção. E quem sequer sabia direito a diferença entre esquerda e direita numa democracia como a nossa, começou a se educar para a política formal através de chavões do tipo “político não presta”, “é tudo ladrão” e a sintética e conclusiva “todo petista é ladrão”.
Mas o noticiário diário da Lava Jato durante alguns anos, com matérias de longa duração e chamadas diárias no Jornal Nacional e em todos os demais telejornais, acabou capturando sua atenção. E quem sequer sabia direito a diferença entre esquerda e direita numa democracia como a nossa, começou a se educar para a política formal através de chavões do tipo “político não presta”, “é tudo ladrão” e a sintética e conclusiva “todo petista é ladrão”.
Após 2013, essa classe média começou a construir uma identidade política, meio difusa, apartidária, inexperiente e com pouco conhecimento teórico. Um gigante em termos de quantidade de eleitores começou a se levantar e em 2014 tivemos os primeiros efeitos disso. Um último voto de confiança foi dado ao PT, apesar de uma grande divisão nacional – Dilma venceu no segundo turno com 54 milhões de votos, contra 50 milhões para Aécio. Mas, apenas dois anos depois, em 2016, esse voto foi retirado com o apoio amplo dessa mesma classe média ao impeachment de Dilma.
No meio disso tudo, temos o surgimento de movimentos como o
MBL, a bateção de panelas, a camisa da seleção brasileira em seguidas passeatas
dominicais (porque, durante a semana, a pragmática classe média não pode faltar ao trabalho...) – tudo contra Dilma e pela derrubada do “dinastia” petista. Veio em seguida a insatisfação com o governo
Temer e seus escândalos, a economia continuou a se deteriorar, a reforma da
Previdência ameaçava a aposentadoria e a reforma trabalhista ameaçava o emprego.
O PT continuou sendo açoitado pela imprensa até Lula ser condenado e ficar
preso em Curitiba. E a greve dos caminhoneiros em 2018 mostrou de forma dramaticamente ameaçadora – com prateleiras vazias nos supermercados e carros parados na garagem
por falta de combustível – que o Palácio do Planalto, símbolo máximo do poder
político brasileiro, não tinha mais o poder de outrora.
Liberou demais
Paralelamente, a classe média, que sempre foi baseada em famílias conservadoras (mesmo quando dava voto ao PT), foi se incomodando (calada, mas de cara fechada, se corroendo por dentro) com a crescente liberalização dos costumes que se aprofundou sob os governos do PT. Nas ruas, passou a ver homem beijando homem, mulher beijando mulher, jovens e adultos fumando maconha abertamente, grandes passeatas “obscenas” nas Paradas Gay, mulheres com os peitos de fora quebrando imagens de santas em plena Praia de Copacabana, blocos de carnaval interrompendo o trânsito e tocando alto madrugada adentro em ruas residenciais.
Em meio a isso tudo, as UPPs faliram, o PCC cresceu, a insegurança pública
aumentou em todos os estados, e a classe média tem sido um de seus principais alvos.
Passou a ficar com medo de andar com joias na rua ou de ter um carro muito
visado pelos ladrões. Pior, a bandidagem começou a esfaquear, balear e matar pessoas
indefesas sem qualquer pretexto. E, pelo noticiário que saía e que era lido
pela classe média, a grande maioria das vítimas eram seus pares, podia ser seu irmão, sua
filha, a filha do vizinho, um pequeno empresário saindo do trabalho, a médica chegando no plantão.
Paralelamente, o Estado do Rio – e outros, como o Rio Grande
do Sul e o Distrito Federal – quase declararam falência, começaram a atrasar
salários e pagamentos de fornecedores. Empresas foram quebrando e o desemprego
aumentando. A sensação de caos e de desordem social foi crescendo. E o culpado
era o governo, ainda encarnado na figura do PT, alvo de todo ódio pelas mazelas
do país. Sérgio Cabral, governador do Rio, foi preso por corrupção, mas ele não
era apoiado pelo Lula? Então, tem dedo do PT na história.
Em poucos anos, após 2013, criou-se na classe média a sensação
de medo, caos e desordem na sociedade, com os governos perdendo o controle da
situação.
A novidade e o despachante
Nessa linha de tempo, em algum momento depois de 2014 Jair
Bolsonaro resolveu candidatar-se a presidente. Ele já fazia, há muitos anos,
uma campanha sutil nas academias militares. Todo ano, por exemplo, era ovacionado na formatura de cadetes da tradicionalíssima Escola Militar de Agulhas Negras. Mas a partir da segunda metade de 2017
começou a costurar mais a sério sua campanha presidencial.
A classe média brasileira tem, historicamente, a cultura do
despachante. Adora alguém que resolve os problemas para ela, mesmo que tenha
que pagar a taxa do despachante. Nas Diretas Já, com a eleição de Tancredo
Neves de forma indireta, a campanha sumiu das ruas. O povo, de maneira geral,
ficou contente com o desfecho, mesmo sem ter conseguido as eleições diretas.
Henfil, cartunista genial e grande figura humana e política, comentou na época,
com precisão, que Tancredo Neves assumiu o papel de despachante do povo
brasileiro. Assim, mais tranquila, a classe média pode voltar ao trabalho e a
seus afazeres diários, não precisava mais se preocupar com política. Terceirizou
o problema com o presidente eleito indiretamente, que lhe parecia honesto e
disposto a começar um novo caminho democrático.
Em algum momento entre junho e setembro de 2018, Bolsonaro começou a
ser visto pela classe média, especialmente aquela que batera panelas e fora às
ruas contra Dilma, como um bom despachante para resolver os problemas
brasileiros. O ódio ao PT, acirrado a seu extremo pela imprensa por mais de uma
década, acabou ganhando novo combustível: a inundação de fake News nas redes
sociais, financiada secretamente por mais de 150 empresários do baixo clero da
indústria e do comércio. E a classe média espalhou isso para outras classes, atraindo até o porteiro do prédio e a manicure do salão de cabelereiro frequentado pela patroa.
Acho que nunca conseguiremos mensurar o estrago feito pelas fake news bolsonarianas em termos de motivação de pessoas para votar no candidato e odiar o PT. Mas todos nós temos indícios muito fortes da força dessa esperteza eleitoral imoral e ilegal. Teria Bolsonaro chegado tão longe sem ajuda das fábricas secretas de distribuição de fake news? Difícil saber, sequer conseguimos mensurar o impacto das mentiras profissionais distribuídas pelas redes sociais...
Acho que nunca conseguiremos mensurar o estrago feito pelas fake news bolsonarianas em termos de motivação de pessoas para votar no candidato e odiar o PT. Mas todos nós temos indícios muito fortes da força dessa esperteza eleitoral imoral e ilegal. Teria Bolsonaro chegado tão longe sem ajuda das fábricas secretas de distribuição de fake news? Difícil saber, sequer conseguimos mensurar o impacto das mentiras profissionais distribuídas pelas redes sociais...
Enfim...
Resumindo a história, tenho para mim que as
pessoas que estão hoje tão empolgadas com a verborragia fascista violenta e preconceituosa
são principalmente representantes da classe média que estão cansados da falta
de solução e resolveram apelar, escolheram aquele que tinha mais jeito do Capitão
Nascimento da Tropa de Elite para resolver os problemas do país. E pronto. Não querem e não aceitam ser
questionados, querem apenas eleger o ex-capitão militar, na esperança cega
de que ele funcione como o “despachante-salvador da pátria”. Adotaram um pensamento simplório, emocional e sem espaço para o racional.
Ao longo de todos esses anos de democracia, os governos Itamar, FHC, Lula e Dilma não deram a devida atenção à classe média. Agora, o gigante adormecido deixou de ficar deitado eternamente num berço que já não é tão esplêndido e decidiu botar a boca no trombone. E o trombone que mais se adaptou à sua boca é o desse ex-capitão fascista. Não importa o que ele diga, o problema é dos gays e das lésbicas, não é da classe média. O importante é que ele seja eleito e dê um jeito nas coisas. Programa de governo? Tampouco interessa. Valores éticos e morais? Besteira. O PT sempre falou em programas de governo e valores e acabou roubando como os que criticava. Então, isso não importa mais...
O papel da classe média na ascensão de Bolsonaro é algo que precisa ser estudado. Com a palavra, os
cientistas sociais e políticos.
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