“As charges não eram ataques pessoais, mas
ataques a figuras mitológicas, que agradam a uns e não agradam a outros.
Ninguém é obrigado a respeitar o sagrado dos outros. Para os hindus, a vaca é um
animal sagrado, para os rastafaris, é a maconha. O sagrado é relativo.”
Do humorista Gregório Duvivier, em
artigo publicado em O Globo,
9/1/2015
Vivemos tempos cada vez mais radicais –
frase clichê, mas adequada ao momento.
A coisa começou em 2013 com o aumento das tarifas de um serviço bem ruim que é
o de transporte público (uma violência diária contra o cidadão comum usuário
desse transporte). Vieram os Black Blocs, respondendo com o uso da violência
gratuita como forma de manifestação política. Na Jornada Mundial da Juventude
Católica, tivemos um episódio pequeno, porém marcante, de feministas
esculachando a cruz de Cristo, um símbolo importante para os católicos. Aí veio
a morte trágica de Eduardo Campos, que serviu para radicalizar a campanha
eleitoral de 2014. Surgiram os White Blocs antipetistas. Renasceram os
Bolsonaro Boys fascistas. E agora temos o radicalismo da política
internacional, com esse ataque chocante contra a Charlie Hebdo.
As reações que vejo em minha página e nas páginas de alguns amigos no Facebook até que de
modo geral tem sido equilibradas. Mas alguns pontos sensíveis foram tocados.
Por exemplo, quando um querido colega, advogado, uma pessoa do bem, antenada e
muito inteligente, postou o seguinte comentário: “Quem procura, acha”. Querendo
dizer, claramente, que os cartunistas e jornalistas da Charlie Hebdo provocaram a ira dos assassinos que os
mataram. Seu argumento foi esse:
“Nada justifica matar, mas pq ofender a fé alheia?!?! Não tem
graça.....uma pena”
Minha prima Lívia respondeu com um
comentário pertinente:
“Gente pára o mundo que eu quero descer! Sério? Alguém ainda acha
que a culpa de ser estuprada é da moça de biquíni???? Eu tô velha e caduca!
Quem procura acha? Deus e Alah me livre de gente que pensa assim em pleno 2015
século XXI! Ninguém tem o direito em nome do que quer que seja de tirar a vida
ou a liberdade de expressão de ninguém. Mesmo um criminoso tem direito a
expressar a sua defesa! Por isso respeito às opiniões acima, mas deixo aqui meu
protesto!”
Eu concordo com Lívia: a frase de meu
amigo foi infeliz. Nenhum daqueles profissionais procurou a própria morte. O
que eles procuraram foi chamar a atenção da sociedade para questões importantes
da política internacional, através da sua arte, que é a sátira em formato de
desenhos, o cartum (ou cartoon).
E essa é, a meu ver, uma das funções sociais do artista: cutucar, incomodar,
chamar a atenção das pessoas para o que acontece à sua volta. De uma forma
sutil, subjetiva, ou objetiva (de forma real, surrealista ou hiper-realista).
Por isso, Chico Buarque e Milton Nascimento cantaram "Pai, afasta de mim
esse cálice...", que não é uma canção sobre alcoolismo.
Mas... há uma coisa que inquieta meu amigo e que me inquieta também.
Há alguns meses, entrevistando minha genial e querida amiga Cláudia Werneck,
uma especialista, militante e livre pensadora sobre a inclusão em nossa
sociedade (inclusão no sentido amplo, geral e irrestrito, do jovem pobre ao
portador de Síndrome de Down), ela me contou que uma das questões mais difíceis
de se tratar era o conceito de “politicamente correto”, especialmente no
tocante ao humor. E ela, que vive e discute questões como essa diariamente,
tinha lá suas muitas dúvidas.
A questão aí, me parece, é de limite. “Quem
tem limite é município”, adoram dizer alguns amigos meus, mais preocupados
com o prazer e a diversão ao extremo. Pois é, mas eu me sinto muito um município
desde que aprendi, na gestalt terapia, o quão importante é conhecer e respeitar
seus próprios limites. Não que eles não possam ser ultrapassados – muitos vezes
precisamos mais é romper mesmo esses limites. Mas tem vezes que não. Limite é
bom, e eu gosto.
Há uma piada ótima do antigo Casseta & Planeta: “Quem espera sempre alcança. Menos
o Nelson Ned”. Ri muito quando ouvi. Mas será que o Nelson Ned e outros
anões acharam graça? Por falar em graça, a presidente da Petrobras, Graça
Foster, e as pessoas que gostam dela não devem ter achado a menor graça quando
um dos humoristas do Casseta & Planeta resolveu fazer piada em público com
a pouca beleza dela – pouca beleza segundo o nosso padrão Gisele Bundchen...
Foi uma piada de muito mau gosto, mas que somos educados a fazer no dia a dia.
“Se é feio, já está pedindo para ser sacaneado, né?”. Vivemos numa
lógica cultural dualista exclusivista dos fodões e dos fudidos, dos lindos e
dos feios, dos atléticos e dos barriguidos, dos inteligentes e dos burros, dos
endinheirados e dos favelados.
Temos o direito de fazer uma piada que humilha, diminui, marginaliza uma pessoa
ou um grupo de pessoas, contribuindo para sua exclusão social? O que se ganha
com isso? Uma parte da sociedade ri, o autor da piada tem seu ego massageado e
se acha mais fodão como criador ou contador de piada. Esse é o ganho, muita
gente se diverte. Em compensação, causa em outras pessoas um dos sentimentos
mais horríveis que um ser humano pode sentir: a humilhação, sua redução em
relação aos semelhantes, fazendo ele sentir-se menos ser, e menos humano. E
achar-se excluído do mundo dos “lindos” que não são alvo de piada. E lá se vai
a autoestima da pessoa ladeira abaixo.
É o que provavelmente acontecia com os negros da Senzala, nos tempos da Casa
Grande. E que acontece hoje com qualquer empregada doméstica ou porteiro –
negro, branco ou japonês –, que é obrigado a usar apenas o elevador de serviço
do prédio. Ou com um cadeirante que não consegue andar numa calçada ou subir
num avião porque não há acesso adequado para ele, ainda por cima obrigando-o a
ver todo mundo andando tranquilamente pelas ruas e pleas escadas de avião sem o menor
problema. O “errado” é ele, que nasceu “torto”.
Somos uma sociedade altamente excludente e que adora ter deuses na moda para
glorificar e seguir como exemplo. É a sociedade dos lindos, sarados, saudáveis
e endinheirados, onde os demais são o resto, os que não merecem figurar na
primeira página e, por isso, não têm como subir na vida.
Eu acho que o humor que humilha pessoas por causa de algum defeito, deficiência
ou outra coisa “menor” que a diminua deveria ser evitado. Com isso, perderíamos
inúmeras piadas de português, de anão, de viado. E levantamos uma questão. Como
fazer isso? Com censura? Com autocensura? Quem vai censurar? A melhor resposta
seria: com bom senso. Simples, não? Nem um pouco...
Vejamos na prática. Se um cartunista faz um desenho de uma menina de cinco anos
chupando o pau de um bispo, pode ser interpretado como uma crítica ou até
denúncia da pedofilia de alguns membros da Igreja Católica. Mas se ele faz um
desenho erótico no qual, em lugar do bispo, está um homem de 40 anos, é
pedofilia. É crime. O limite é muito sutil, não acham?
No caso específico da Charlie
Hebdo, a carga deles nunca foi especificamente contra a religião islâmica.
Já sacanearam o papa católico mais de uma vez. Não sou um especialista ou
leitor assíduo da revista, mas pelo que vi e li me parece que o foco deles foi criticar
contradições da Igreja Católica. E, no caso do islamismo, denunciar e criticar
o uso do santo nome de Alah em vão, como justificativa para as atrocidades que
al-Qaeda, Estado “Islâmico” e Boko Haram cometem contra outros seres humanos em
nome de uma suposta fé islâmica. (Cada vez mais me convenço que o islamismo é
apenas um pretexto para as maluquices desse pessoal. Eles não são religiosos
nem islâmicos, são obcecados, fanáticos. Em alguns casos há uma origem de
revolta social e política legítima, contra injustiças e violências cometidas
por Estados Unidos, Arábia Saudita, Israel. Mas violência não justifica
violência, apenas gera mais violência. E mais guerras. E mais mortes
indiscriminadas.)
Eu não tenho solução para toda essa questão. Mas sei perfeitamente que
liberdade de expressão é um bem muito precioso para a democracia e, justamente
para mantê-lo precioso, é preciso que seja bem usada. Como o Estado ou a
Justiça deveria atuar para garantir que essa liberdade seja bem usada? Com
certeza com base em leis, leis legitimamente discutidas e aprovadas pela
sociedade. Bonito, mas nada fácil. (Basta ver a lenha que é para se aprovar
qualquer lei no Congresso.) E uma coisa que deveria haver na legislação é
previsão de punição contra os excessos e mau uso da liberdade de expressão.
Vide o caso da Escola Cuba, que arrasou a vida de meia dúzia de pessoas, que
vem conseguindo, apenas 20 anos depois, alguns milhões de indenização que nem
de longe compensarão o que passaram, a violência social e econômica que
sofreram.
O discurso em defesa da liberdade irrestrita de expressão eu acho uma grande
hipocrisia badalada pelos donos de jornais, revistas, rádios e TVs – e que só
interessa a eles. Eles e os jornalistas, como eu, somos todos cidadãos como
quaisquer outros e temos que responder por nossos erros quando causamos
prejuízo a alguém.
No caso da arte, a liberdade é essencial para sua existência – e sem arte, não
há vida como a conhecemos. Mas a arte sendo usada para um crime ou para
humilhar um ser humano, aí o lado artístico dela passa a ser secundário, por
mais bela que seja a obra. E essa é mais uma baita discussão polêmica.
Inclusive quando se entra na questão de quem serão os “julgadores”... será que
eles terão capacidade para interpretar e separar o que é arte e o que é crime?
Caramba, baita discussão... Levantei a bola, porque pensar, discutir e navegar
é preciso. Viver também. Mas não tenho a solução perfeita.
Termino este post reproduzindo um comentário muito bom do Mario Marona,
jornalista e colega das redações da vida, colocado em sua página no Face no dia
do massacre na França.
“Falta-nos coragem para dizer que o
que ocorreu hoje em Paris foi mais um episódio do conflito insolúvel entre
estágios civilizatórios diferentes: de um lado o iluminismo, o conceito de
direitos humanos, de livre arbítrio e de liberdade de expressão; do outro lado,
a cegueira religiosa, a inveja secular, a selvageria fundamentalista, a
repressão às mulheres e às minorias, a falta de liberdade política e cultural. Uma parte deste antagonismo se deve ao
fanatismo religioso. Outra parte aos efeitos de um prolongado colonialismo, que
produziu miséria e importou ressentimento. E parece óbvio que os conservadores
se aproveitarão do ódio que este e outros massacres produziram e ainda
produzirão. Mas, em nome da
civilização, defendo que digamos não ao terrorismo, ao fanatismo, ao Estado
Islâmico e ao relativismo cultural. Sem
atenuantes, sem concessões.”
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