sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os limites

“As charges não eram ataques pessoais, mas ataques a figuras mitológicas, que agradam a uns e não agradam a outros. Ninguém é obrigado a respeitar o sagrado dos outros. Para os hindus, a vaca é um animal sagrado, para os rastafaris, é a maconha. O sagrado é relativo.”  
Do humorista Gregório Duvivier, em artigo publicado em O Globo, 9/1/2015


Vivemos tempos cada vez mais radicais – frase clichê, mas adequada ao momento. 


A coisa começou em 2013 com o aumento das tarifas de um serviço bem ruim que é o de transporte público (uma violência diária contra o cidadão comum usuário desse transporte). Vieram os Black Blocs, respondendo com o uso da violência gratuita como forma de manifestação política. Na Jornada Mundial da Juventude Católica, tivemos um episódio pequeno, porém marcante, de feministas esculachando a cruz de Cristo, um símbolo importante para os católicos. Aí veio a morte trágica de Eduardo Campos, que serviu para radicalizar a campanha eleitoral de 2014. Surgiram os White Blocs antipetistas. Renasceram os Bolsonaro Boys fascistas. E agora temos o radicalismo da política internacional, com esse ataque chocante contra a Charlie Hebdo


As reações que vejo em minha página e nas páginas de alguns amigos no Facebook até que de modo geral tem sido equilibradas. Mas alguns pontos sensíveis foram tocados. Por exemplo, quando um querido colega, advogado, uma pessoa do bem, antenada e muito inteligente, postou o seguinte comentário: “Quem procura, acha”. Querendo dizer, claramente, que os cartunistas e jornalistas da Charlie Hebdo provocaram a ira dos assassinos que os mataram. Seu argumento foi esse:
“Quem se esconde atrás da liberdade de imprensa para dizer o que quer está sujeito a isso. Falta de educação e desrespeito à boa convivência comunitária num mundo como o atual pode gerar um fato danoso como o de hoje. Não tenho medo de ser politicamente incorreto mas, quem procura acha.”
Outra amiga postou um comentário curto, tocando na mesma questão:
“Nada justifica matar, mas pq ofender a fé alheia?!?! Não tem graça.....uma pena”
Minha prima Lívia respondeu com um comentário pertinente:
“Gente pára o mundo que eu quero descer! Sério? Alguém ainda acha que a culpa de ser estuprada é da moça de biquíni???? Eu tô velha e caduca! Quem procura acha? Deus e Alah me livre de gente que pensa assim em pleno 2015 século XXI! Ninguém tem o direito em nome do que quer que seja de tirar a vida ou a liberdade de expressão de ninguém. Mesmo um criminoso tem direito a expressar a sua defesa! Por isso respeito às opiniões acima, mas deixo aqui meu protesto!”
Eu concordo com Lívia: a frase de meu amigo foi infeliz. Nenhum daqueles profissionais procurou a própria morte. O que eles procuraram foi chamar a atenção da sociedade para questões importantes da política internacional, através da sua arte, que é a sátira em formato de desenhos, o cartum (ou cartoon). E essa é, a meu ver, uma das funções sociais do artista: cutucar, incomodar, chamar a atenção das pessoas para o que acontece à sua volta. De uma forma sutil, subjetiva, ou objetiva (de forma real, surrealista ou hiper-realista). Por isso, Chico Buarque e Milton Nascimento cantaram "Pai, afasta de mim esse cálice...", que não é uma canção sobre alcoolismo.


Mas... há uma coisa que inquieta meu amigo e que me inquieta também.


Há alguns meses, entrevistando minha genial e querida amiga Cláudia Werneck, uma especialista, militante e livre pensadora sobre a inclusão em nossa sociedade (inclusão no sentido amplo, geral e irrestrito, do jovem pobre ao portador de Síndrome de Down), ela me contou que uma das questões mais difíceis de se tratar era o conceito de “politicamente correto”, especialmente no tocante ao humor. E ela, que vive e discute questões como essa diariamente, tinha lá suas muitas dúvidas.


A questão aí, me parece, é de limite. “Quem tem limite é município”, adoram dizer alguns amigos meus, mais preocupados com o prazer e a diversão ao extremo. Pois é, mas eu me sinto muito um município desde que aprendi, na gestalt terapia, o quão importante é conhecer e respeitar seus próprios limites. Não que eles não possam ser ultrapassados – muitos vezes precisamos mais é romper mesmo esses limites. Mas tem vezes que não. Limite é bom, e eu gosto.


Há uma piada ótima do antigo Casseta & Planeta: “Quem espera sempre alcança. Menos o Nelson Ned”. Ri muito quando ouvi. Mas será que o Nelson Ned e outros anões acharam graça? Por falar em graça, a presidente da Petrobras, Graça Foster, e as pessoas que gostam dela não devem ter achado a menor graça quando um dos humoristas do Casseta & Planeta resolveu fazer piada em público com a pouca beleza dela – pouca beleza segundo o nosso padrão Gisele Bundchen... Foi uma piada de muito mau gosto, mas que somos educados a fazer no dia a dia. “Se é feio, já está pedindo para ser sacaneado, né?”. Vivemos numa lógica cultural dualista exclusivista dos fodões e dos fudidos, dos lindos e dos feios, dos atléticos e dos barriguidos, dos inteligentes e dos burros, dos endinheirados e dos favelados.


Temos o direito de fazer uma piada que humilha, diminui, marginaliza uma pessoa ou um grupo de pessoas, contribuindo para sua exclusão social? O que se ganha com isso? Uma parte da sociedade ri, o autor da piada tem seu ego massageado e se acha mais fodão como criador ou contador de piada. Esse é o ganho, muita gente se diverte. Em compensação, causa em outras pessoas um dos sentimentos mais horríveis que um ser humano pode sentir: a humilhação, sua redução em relação aos semelhantes, fazendo ele sentir-se menos ser, e menos humano. E achar-se excluído do mundo dos “lindos” que não são alvo de piada. E lá se vai a autoestima da pessoa ladeira abaixo. 


É o que provavelmente acontecia com os negros da Senzala, nos tempos da Casa Grande. E que acontece hoje com qualquer empregada doméstica ou porteiro – negro, branco ou japonês –, que é obrigado a usar apenas o elevador de serviço do prédio. Ou com um cadeirante que não consegue andar numa calçada ou subir num avião porque não há acesso adequado para ele, ainda por cima obrigando-o a ver todo mundo andando tranquilamente pelas ruas e pleas escadas de avião sem o menor problema. O “errado” é ele, que nasceu “torto”.


Somos uma sociedade altamente excludente e que adora ter deuses na moda para glorificar e seguir como exemplo. É a sociedade dos lindos, sarados, saudáveis e endinheirados, onde os demais são o resto, os que não merecem figurar na primeira página e, por isso, não têm como subir na vida. 


Eu acho que o humor que humilha pessoas por causa de algum defeito, deficiência ou outra coisa “menor” que a diminua deveria ser evitado. Com isso, perderíamos inúmeras piadas de português, de anão, de viado. E levantamos uma questão. Como fazer isso? Com censura? Com autocensura? Quem vai censurar? A melhor resposta seria: com bom senso. Simples, não? Nem um pouco...


Vejamos na prática. Se um cartunista faz um desenho de uma menina de cinco anos chupando o pau de um bispo, pode ser interpretado como uma crítica ou até denúncia da pedofilia de alguns membros da Igreja Católica. Mas se ele faz um desenho erótico no qual, em lugar do bispo, está um homem de 40 anos, é pedofilia. É crime. O limite é muito sutil, não acham?


No caso específico da Charlie Hebdo, a carga deles nunca foi especificamente contra a religião islâmica. Já sacanearam o papa católico mais de uma vez. Não sou um especialista ou leitor assíduo da revista, mas pelo que vi e li me parece que o foco deles foi criticar contradições da Igreja Católica. E, no caso do islamismo, denunciar e criticar o uso do santo nome de Alah em vão, como justificativa para as atrocidades que al-Qaeda, Estado “Islâmico” e Boko Haram cometem contra outros seres humanos em nome de uma suposta fé islâmica. (Cada vez mais me convenço que o islamismo é apenas um pretexto para as maluquices desse pessoal. Eles não são religiosos nem islâmicos, são obcecados, fanáticos. Em alguns casos há uma origem de revolta social e política legítima, contra injustiças e violências cometidas por Estados Unidos, Arábia Saudita, Israel. Mas violência não justifica violência, apenas gera mais violência. E mais guerras. E mais mortes indiscriminadas.)


Eu não tenho solução para toda essa questão. Mas sei perfeitamente que liberdade de expressão é um bem muito precioso para a democracia e, justamente para mantê-lo precioso, é preciso que seja bem usada. Como o Estado ou a Justiça deveria atuar para garantir que essa liberdade seja bem usada? Com certeza com base em leis, leis legitimamente discutidas e aprovadas pela sociedade. Bonito, mas nada fácil. (Basta ver a lenha que é para se aprovar qualquer lei no Congresso.) E uma coisa que deveria haver na legislação é previsão de punição contra os excessos e mau uso da liberdade de expressão. Vide o caso da Escola Cuba, que arrasou a vida de meia dúzia de pessoas, que vem conseguindo, apenas 20 anos depois, alguns milhões de indenização que nem de longe compensarão o que passaram, a violência social e econômica que sofreram.


O discurso em defesa da liberdade irrestrita de expressão eu acho uma grande hipocrisia badalada pelos donos de jornais, revistas, rádios e TVs – e que só interessa a eles. Eles e os jornalistas, como eu, somos todos cidadãos como quaisquer outros e temos que responder por nossos erros quando causamos prejuízo a alguém. 


No caso da arte, a liberdade é essencial para sua existência – e sem arte, não há vida como a conhecemos. Mas a arte sendo usada para um crime ou para humilhar um ser humano, aí o lado artístico dela passa a ser secundário, por mais bela que seja a obra. E essa é mais uma baita discussão polêmica. Inclusive quando se entra na questão de quem serão os “julgadores”... será que eles terão capacidade para interpretar e separar o que é arte e o que é crime?


Caramba, baita discussão... Levantei a bola, porque pensar, discutir e navegar é preciso. Viver também. Mas não tenho a solução perfeita. 


Termino este post reproduzindo um comentário muito bom do Mario Marona, jornalista e colega das redações da vida, colocado em sua página no Face no dia do massacre na França.

“Falta-nos coragem para dizer que o que ocorreu hoje em Paris foi mais um episódio do conflito insolúvel entre estágios civilizatórios diferentes: de um lado o iluminismo, o conceito de direitos humanos, de livre arbítrio e de liberdade de expressão; do outro lado, a cegueira religiosa, a inveja secular, a selvageria fundamentalista, a repressão às mulheres e às minorias, a falta de liberdade política e cultural. Uma parte deste antagonismo se deve ao fanatismo religioso. Outra parte aos efeitos de um prolongado colonialismo, que produziu miséria e importou ressentimento. E parece óbvio que os conservadores se aproveitarão do ódio que este e outros massacres produziram e ainda produzirão. Mas, em nome da civilização, defendo que digamos não ao terrorismo, ao fanatismo, ao Estado Islâmico e ao relativismo cultural.  Sem atenuantes, sem concessões.” 

Je suis Charlie.  




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