Um colega me sugeriu, e aí está uma pensata que
postei na minha página do Facebook, sobre as manifestações anti-Dilma e anti-PT
de ontem, domingo, 15 de março de 2015. Mais do que afirmações categóricas ou
absolutas, são pontos para se pensar e discutir:
--------------------
Alguns pontos.
• Números de multidão sempre são polêmicos e
discutíveis, ainda mais quando se tem forte interesse político envolvido. De
qualquer maneira, se foram 2 milhões ou 200 mil que foram às ruas contra o governo,
não importa, é expressivo. Mas é preciso lembrar que 54 milhões e 500 mil
brasileiros votaram em Dilma Rousseff para presidente. Isso é muito expressivo.
• De maneira geral, dá para dizer que as
manifestações foram 99% pacíficas. Que ótimo! Palmas para a oposição, e palmas
para a esquerda que deixou a oposição se manifestar sem criar provocações. E
cadeia para imbecis como os que foram para a manifestação em São Paulo levando
foguetes de rojão e soco inglês.
• Alguns na minha timeline reclamaram que ministros
disseram que as manifestações foram feitas pela classe média, como que querendo
dizer que "classe média não é povo". Se realmente algum ministro
falou algo nesse sentido, falou besteira. E não duvido que algum deles tenha
dito algo assim. Classe média é parte do povo, claro. Mas não é todo o povo. O
povo é o conjunto da classe média, das classes ricas, e das classes mais
pobres. As manifestações, tudo indica, foram claramente das classes médias das
grandes cidades. Que são parte do povo brasileiro, uma parte bastante presente
entre os eleitores de Aécio Neves na eleição para presidente. Não são piores
nem melhores que os mais pobres. São uma classe, uma parte do povo. Que tem
seus pontos de vista, suas qualidades, suas razões, seus defeitos, seus
preconceitos. Já tá na hora de rever essa história de que quem é das classes
mais altas é ruim. Pobre também tem suas qualidades e seus defeitos. Classe
média urbana é povo, povo brasileiro. Mas o povo não é só a classe média
urbana. E ponto.
• Do pouco que vi, nossa grande imprensa – O Globo,
TV Globo, GloboNews, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo – politizou a
cobertura, alguns mais, outros menos. Ouvi hoje entre meio dia e 13h quase uma
hora de noticiário da CBN, com informes ao vivo de vários estados, e não estava
politizado, estava jornalístico, informativo. Mas quando sites de jornais e de
notícias estampam manchetes do tipo "Brasileiros vão às ruas em todo o
país...", isso é notícia enviesada, informação manipulada para impor uma
versão da história ao leitor. 2 milhões é 1% da população brasileira. Quando se
fala em "brasileiros", se dá a entender que é o conjunto da
população, todo o seu conjunto. Omite, por exemplo, que a grande maioria dos
54,5 milhões de eleitores de Dilma não foram às ruas protestar contra ela.
Aliás, se 2 milhões foram às ruas, eles representam tão somente uns 4% dos 51
milhões de eleitores de Aécio Neves.
• As manifestações foram contra o governo Dilma, ok.
Mas foi também um protesto de brasileiros que não votaram em Dilma e não
aceitam o resultado da eleição. Ok. Mas o que propõem para resolver os
problemas do país? Pelo que se vê nas fotos e nas notícias, propõem
impeachment, renúncia de Dilma, a deposição da presidenta e de seu governo à
força pelos militares, tal como em 1964. Espelham, na prática, a pobreza de
nossos políticos da oposição, que não tem proposta alternativa e só concebem
mudança através de golpe, de derrubar o governo. Caem na armadilha que o PT e a
esquerda já caíram nos anos 90, quando gritavam "Fora FHC!". E que
também foi repetida pelos manifestantes de 2013 que berraram "Fora
Cabral!" aqui no Rio de Janeiro. Trata-se de uma análise política
rasteira, onde a única opção viável é derrubar o governo, vociferando contra
ele aos quatro ventos, com panela ou com posts agressivos nas redes sociais,
para desgastá-lo, fritá-lo, enfraquecê-lo lentamente para, quando estiver
suficientemente fraco, se dar o golpe que vai tirá-lo do poder. Opção fora da
lei, fora da democracia, que desrespeita o voto da maioria. Não à toa, nas
vésperas das manifestações, Aécio Neves declarou em alto e bom som para a
imprensa repercutir que o impeachment não faz parte da agenda do PSDB. Ele pode
ser um político cretino ou falso, mas sabe a importância de se respeitar a
democracia, a mesma que lhe garantiu 8 anos de mandato, eleito
democraticamente. A maioria dos meus amigos no Face que apoiaram ou participaram
das passeatas não defende golpe de estado, ou o impeachment. Mas a visão geral
do noticiário, das fotos e das imagens de TV, passa a sensação clara de que
foram manifestações pela derrubada do governo, de um jeito ou de outro.
• Não são só os políticos da situação que são ruins.
Os da oposição são tão ruins quanto os do governo. O Brasil já de algum tempo
carece de uma oposição mais eficiente, com propostas concretas viáveis e
inteligentes. E o Brasil precisa de oposição, sempre, isso é parte da
democracia, porque a unanimidade, já repetia Nelson Rodrigues, é idiota. Mas
oposição é apresentar propostas e sensibilizar a opinião pública em favor
delas, exercendo assim pressão legítima sobre o governo. O que a oposição tem a
propor em relação aos juros altos? À necessidade de reajustar as tarifas
elétricas? À forma de enfrentarmos a forte alta do dólar? Para políticas que
reduzam o aumento do desemprego que deve vir por aí? Ao problema das
empreiteiras, que roubaram, como sempre soubemos, precisam prestar contras à
sociedade sobre a corrupção que vêm alimentando desde os anos 60, mas que ainda
são essenciais ao país para tocar as obras de infraestrutura que tanto
precisamos?
• No meio disso tudo, fica cada vez mais clara a
necessidade de uma reforma política. Precisamos de novas regras para a
existência de partidos e a atuação dos políticos. Inclusive que facilitem o
julgamento e a exclusão de políticos corruptos ou fascistas. O que a oposição
tem a dizer sobre isso?
• Queridos amigos e amigas que vibraram com as
manifestações de hoje, acho que vocês deveriam pensar em estratégias que
pressionem o governo a mudar naquilo que vocês acham que ele deve mudar, ao
invés de ficar alimentando, abertamente ou pela confortável omissão, soluções
golpistas que a extrema-direita (e também a extrema-esquerda) adoram. E não
apenas pensar, mas também cobrar dos políticos que vocês apoiam iniciativas e
ideias de oposição, que não sejam apenas esforços para destruir o governo e, por
tabela, a democracia. Cobrar propostas alternativas, que sejam colocadas numa
mesa, que possam ser negociadas. Quando a proposta é boa e legítima, é mais
fácil conseguir apoio da população. Mas primeiro, é preciso ter propostas.
É a minha opinião.
Em tempo: há mais de 15 anos que não sou mais
petista, continuo de esquerda democrática, mas sem me identificar com nenhum
dos partidos que temos; acredito fortemente na democracia participativa, na
qual o povo acompanha o trabalho dos parlamentares e participa da vida política
através de discussões e sugestões; votei em Dilma Rousseff e não me arrependo,
as outras opções eram piores, mas não estou muito satisfeito com o governo dela
e não sou fã dela como presidente; e estou muito preocupado com o extremismo de
direita.
---------------------
Acrescento dois comentários que coloquei em resposta
a alguns amigos, que complementam meu pensamento.
• ... tem uma regra básica de psicologia, que a
propaganda usa, e o jornalismo deveria usar mais, que diz mais ou menos o
seguinte: quando o emocional impera, o racional se perde. O debate está
totalmente emocional. Governo e oposição deveriam sentar à mesa e discutir,
juntos, soluções para o país. Alguns consensos podem sair disso. Estamos muito
viciados em tratar a política como time de futebol, sem racionalismo, só com
paixão, emoção. Num clima dividido como esse não seria má ideia o governo tomar
a iniciativa e chamar a oposição para se sentar à mesa para discutir alguns
temas chave da economia e a reforma política. Pode não dar em nada, mas esse é
o caminho. Mas fica um querendo puxar o tapete do outro o tempo inteiro, aí
fica difícil...
Nenhum comentário:
Postar um comentário