segunda-feira, 16 de março de 2015

Do Face para o blog

Um colega me sugeriu, e aí está uma pensata que postei na minha página do Facebook, sobre as manifestações anti-Dilma e anti-PT de ontem, domingo, 15 de março de 2015. Mais do que afirmações categóricas ou absolutas, são pontos para se pensar e discutir:

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Alguns pontos.

• Números de multidão sempre são polêmicos e discutíveis, ainda mais quando se tem forte interesse político envolvido. De qualquer maneira, se foram 2 milhões ou 200 mil que foram às ruas contra o governo, não importa, é expressivo. Mas é preciso lembrar que 54 milhões e 500 mil brasileiros votaram em Dilma Rousseff para presidente. Isso é muito expressivo.

• De maneira geral, dá para dizer que as manifestações foram 99% pacíficas. Que ótimo! Palmas para a oposição, e palmas para a esquerda que deixou a oposição se manifestar sem criar provocações. E cadeia para imbecis como os que foram para a manifestação em São Paulo levando foguetes de rojão e soco inglês.

• Alguns na minha timeline reclamaram que ministros disseram que as manifestações foram feitas pela classe média, como que querendo dizer que "classe média não é povo". Se realmente algum ministro falou algo nesse sentido, falou besteira. E não duvido que algum deles tenha dito algo assim. Classe média é parte do povo, claro. Mas não é todo o povo. O povo é o conjunto da classe média, das classes ricas, e das classes mais pobres. As manifestações, tudo indica, foram claramente das classes médias das grandes cidades. Que são parte do povo brasileiro, uma parte bastante presente entre os eleitores de Aécio Neves na eleição para presidente. Não são piores nem melhores que os mais pobres. São uma classe, uma parte do povo. Que tem seus pontos de vista, suas qualidades, suas razões, seus defeitos, seus preconceitos. Já tá na hora de rever essa história de que quem é das classes mais altas é ruim. Pobre também tem suas qualidades e seus defeitos. Classe média urbana é povo, povo brasileiro. Mas o povo não é só a classe média urbana. E ponto.

• Do pouco que vi, nossa grande imprensa – O Globo, TV Globo, GloboNews, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo – politizou a cobertura, alguns mais, outros menos. Ouvi hoje entre meio dia e 13h quase uma hora de noticiário da CBN, com informes ao vivo de vários estados, e não estava politizado, estava jornalístico, informativo. Mas quando sites de jornais e de notícias estampam manchetes do tipo "Brasileiros vão às ruas em todo o país...", isso é notícia enviesada, informação manipulada para impor uma versão da história ao leitor. 2 milhões é 1% da população brasileira. Quando se fala em "brasileiros", se dá a entender que é o conjunto da população, todo o seu conjunto. Omite, por exemplo, que a grande maioria dos 54,5 milhões de eleitores de Dilma não foram às ruas protestar contra ela. Aliás, se 2 milhões foram às ruas, eles representam tão somente uns 4% dos 51 milhões de eleitores de Aécio Neves.

• As manifestações foram contra o governo Dilma, ok. Mas foi também um protesto de brasileiros que não votaram em Dilma e não aceitam o resultado da eleição. Ok. Mas o que propõem para resolver os problemas do país? Pelo que se vê nas fotos e nas notícias, propõem impeachment, renúncia de Dilma, a deposição da presidenta e de seu governo à força pelos militares, tal como em 1964. Espelham, na prática, a pobreza de nossos políticos da oposição, que não tem proposta alternativa e só concebem mudança através de golpe, de derrubar o governo. Caem na armadilha que o PT e a esquerda já caíram nos anos 90, quando gritavam "Fora FHC!". E que também foi repetida pelos manifestantes de 2013 que berraram "Fora Cabral!" aqui no Rio de Janeiro. Trata-se de uma análise política rasteira, onde a única opção viável é derrubar o governo, vociferando contra ele aos quatro ventos, com panela ou com posts agressivos nas redes sociais, para desgastá-lo, fritá-lo, enfraquecê-lo lentamente para, quando estiver suficientemente fraco, se dar o golpe que vai tirá-lo do poder. Opção fora da lei, fora da democracia, que desrespeita o voto da maioria. Não à toa, nas vésperas das manifestações, Aécio Neves declarou em alto e bom som para a imprensa repercutir que o impeachment não faz parte da agenda do PSDB. Ele pode ser um político cretino ou falso, mas sabe a importância de se respeitar a democracia, a mesma que lhe garantiu 8 anos de mandato, eleito democraticamente. A maioria dos meus amigos no Face que apoiaram ou participaram das passeatas não defende golpe de estado, ou o impeachment. Mas a visão geral do noticiário, das fotos e das imagens de TV, passa a sensação clara de que foram manifestações pela derrubada do governo, de um jeito ou de outro.

• Não são só os políticos da situação que são ruins. Os da oposição são tão ruins quanto os do governo. O Brasil já de algum tempo carece de uma oposição mais eficiente, com propostas concretas viáveis e inteligentes. E o Brasil precisa de oposição, sempre, isso é parte da democracia, porque a unanimidade, já repetia Nelson Rodrigues, é idiota. Mas oposição é apresentar propostas e sensibilizar a opinião pública em favor delas, exercendo assim pressão legítima sobre o governo. O que a oposição tem a propor em relação aos juros altos? À necessidade de reajustar as tarifas elétricas? À forma de enfrentarmos a forte alta do dólar? Para políticas que reduzam o aumento do desemprego que deve vir por aí? Ao problema das empreiteiras, que roubaram, como sempre soubemos, precisam prestar contras à sociedade sobre a corrupção que vêm alimentando desde os anos 60, mas que ainda são essenciais ao país para tocar as obras de infraestrutura que tanto precisamos?

• No meio disso tudo, fica cada vez mais clara a necessidade de uma reforma política. Precisamos de novas regras para a existência de partidos e a atuação dos políticos. Inclusive que facilitem o julgamento e a exclusão de políticos corruptos ou fascistas. O que a oposição tem a dizer sobre isso?

• Queridos amigos e amigas que vibraram com as manifestações de hoje, acho que vocês deveriam pensar em estratégias que pressionem o governo a mudar naquilo que vocês acham que ele deve mudar, ao invés de ficar alimentando, abertamente ou pela confortável omissão, soluções golpistas que a extrema-direita (e também a extrema-esquerda) adoram. E não apenas pensar, mas também cobrar dos políticos que vocês apoiam iniciativas e ideias de oposição, que não sejam apenas esforços para destruir o governo e, por tabela, a democracia. Cobrar propostas alternativas, que sejam colocadas numa mesa, que possam ser negociadas. Quando a proposta é boa e legítima, é mais fácil conseguir apoio da população. Mas primeiro, é preciso ter propostas.

É a minha opinião.


Em tempo: há mais de 15 anos que não sou mais petista, continuo de esquerda democrática, mas sem me identificar com nenhum dos partidos que temos; acredito fortemente na democracia participativa, na qual o povo acompanha o trabalho dos parlamentares e participa da vida política através de discussões e sugestões; votei em Dilma Rousseff e não me arrependo, as outras opções eram piores, mas não estou muito satisfeito com o governo dela e não sou fã dela como presidente; e estou muito preocupado com o extremismo de direita.


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Acrescento dois comentários que coloquei em resposta a alguns amigos, que complementam meu pensamento.

• ... tem uma regra básica de psicologia, que a propaganda usa, e o jornalismo deveria usar mais, que diz mais ou menos o seguinte: quando o emocional impera, o racional se perde. O debate está totalmente emocional. Governo e oposição deveriam sentar à mesa e discutir, juntos, soluções para o país. Alguns consensos podem sair disso. Estamos muito viciados em tratar a política como time de futebol, sem racionalismo, só com paixão, emoção. Num clima dividido como esse não seria má ideia o governo tomar a iniciativa e chamar a oposição para se sentar à mesa para discutir alguns temas chave da economia e a reforma política. Pode não dar em nada, mas esse é o caminho. Mas fica um querendo puxar o tapete do outro o tempo inteiro, aí fica difícil...

• ... o índice de desaprovação do governo está lá embaixo, como já esteve nas manifestações de 2013. Eu desaprovo muita coisa, mas não me arrependo do voto, era dos males o menor diante das opções que eu tinha. E sei que tem muita gente que pensa como eu. Mas pesquisa de opinião é uma coisa, voto em eleição, formalizado e contado direitinho, após alguns meses de debate/propaganda eleitoral, é outra. Não estamos no parlamentarismo. Nossa democracia ainda é muito nova, os políticos são ruins, falta à oposição e ao governo prática de discussão política, sabem brigar, mas não sabem discutir.

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