sábado, 11 de abril de 2020

Dia 227 - Um conto de ficção dos tempos de Corona


Hoje me toquei que estou escrevendo compulsivamente esse diário há quase oito meses, e que estou escrevendo ele praticamente só para mim, para poder falar coisas que a censura oficial e o isolamento não me deixam contar por aí.

“E se um dia alguém achar isso e ler? Não vai entender nada...”. Pois é, sou jornalista, escrevo para um público heterogêneo, de maneira que todos entendam, do porteiro do prédio ao dono da empresa. Mas parece que deixei meu diploma na parede e me esqueci disso por 226 dias. Logo eu, que sou jornalista... Meu trabalho é falar para o público, conto para as pessoas o que elas precisam saber. E sou bom nisso. Mas essa crise... tá pirando cada um de uma maneira diferente... Acho que essa é a minha piração... Virei jornalista de mim mesmo, eu sou meu próprio público.

Bom, caro leitor, você aí de um futuro longínquo que, algum dia, por acaso, deu com essas mal traçadas linhas à sua frente e não estava entendendo nada até agora, espera um pouco que vou te contar.

Quase um ano atrás veio a censura oficial, que me estimulou a escrever um diário tipo escondido, só para mim mesmo. Uma forma de manter minha sanidade mental e atender a algumas coisas que me incomodavam internamente. E um diário secreto, porque a polícia está muito em cima de quem cria dificuldades nesta situação, eles estão com poderes extraordinários para prender e isolar elementos “perigosos”, que atentem contra a solução da crise. Não quero ser “isolado”, não é uma experiência muito agradável, além de implicar na perda de meu precioso emprego.

A coisa aconteceu assim. Era 2022. O vírus Covid-25 estava deixando todo mundo louco. Era a sexta mutação do Covid-19, o antigo Corona, em apenas três anos. Como vocês devem saber, o Corona quase parou o mundo em 2020 e 2021. Quando estava começando a ir embora, com as vacinas em estágio avançado de testes, veio o Covid-20, e logo depois Covid-21, isso ainda em 2021. As Olimpíadas de Tóquio de 2020, que haviam sido adiadas para 2021, foram suspensas sine die e ainda não aconteceram. Voltamos a ter crescimento no número de infectados e de mortos, tanto pelo Covid-19 quanto pelo Covid-20 e logo depois pelo Covid-21. E novas quarentenas...

Naquela época, ainda no início de 2021, o dono do meu jornal (ainda chamamos de jornal, mas em verdade é apenas um site de notícias...), um jornalista empreendedor de classe alta que tinha um dinheiro de família guardado, resolveu investir nessa história e, num lance de genialidade e oportunismo, lançou o “Corona News”, um site geral de notícias que tinha como foco a epidemia, relacionando ela a todas as notícias de todas as áreas (política, economia, cidade, esportes, cultura etc.). Dei sorte de ser conhecido de um amigo dele, que gostava muito de mim, e me indicou para trabalhar no site. O projeto foi o maior sucesso, rapidamente tivemos muitos leitores e os poucos anunciantes ainda na ativa logo colocaram anúncios, que é o que mantém o jornal até hoje.

Os Covids 21, 22, 23 e 24 surgiram e se foram rapidamente, não eram lá tão resistentes ao nosso já deteriorado ambiente humano e causaram estrago em menor escala que os anteriores. Até que surgiu o Covid-25, já nos primeiros meses de 2022, logo depois do Carnaval – quer dizer, do Carnaval que não aconteceu, pelo segundo ano consecutivo.

Antes do Covid-25, a vida ameaçava voltar ao normal. O ciclo do Covid-22 foi rápido – assim como veio, em menos de 3 meses se foi. Derrubou muita gente, matou alguns milhares, especialmente quem já havia se recuperado dos Covids anteriores. Até hoje os cientistas e especialistas em vírus e epidemias não sabem o porquê. O estudo de vírus novos demora um tempo para ser realizado e chegar a conclusões confiáveis, não deu tempo para a comunidade científica caracterizar o comportamento exato de cada vírus. Até hoje está sem resposta por que o Covid-21 começou na África negra, em países até então pouco afetados pelos Covids 19 e 20. Ele mal chegou ao Brasil, mas causou rápida histeria, suficiente para a decretação de novo lockdown e retração de todas as atividades. E tivemos a volta da violência urbana, com mais assaltos e saques a lojas e supermercados. Durou pouco, mas foi mais um trauma. E por que o Covid-22 atacava mais quem havia se vacinado contra o Sarampo em 2020? Ninguém sabe... E ele foi embora rápido também, menos de 5 meses, nem deu tempo para estudar direito. Os Covids 23 e 24 foram parecidos, assustaram muito, mas duraram pouco. E não apresentaram nada de muito diferente, apenas causaram problemas respiratórios, matando os mais fracos, e mandando muito trabalhador infectado para casa ou para o hospital. Mas a cada novo Covid, uma nova histeria... desgastando o psicológico de populações inteiras em todos os 200 e tantos países do globo.

Aí veio o Covid-25, com um componente novo e arrasador. Tudo indica que o vírus fica no ar por dias, não apenas nas pessoas e nas coisas. Isso ainda não é certo, mas há indícios assustadores, que desafiam a ciência. Já teve gente que saiu para praticar exercício ao ar livre, não cruzou com ninguém, e se contagiou. Do nada. Há vários outros indícios do potencial destruidor desse Covid. Para os cientistas, não faz muito sentido o vírus ficar vivo no ar, mas os fatos apontam exatamente para isso. E, quando chove, ele pega carona nos pingos de água e contamina quem estiver na chuva. E se ele se disseminar no mar? E na água dos reservatórios que vai parar na casa das pessoas?

No momento em que as terríveis conclusões e dúvidas nesse sentido começaram a tomar forma, com inúmeros casos similares se repetindo em diferentes cidades e países, as autoridades começaram a achar que isso não era apenas lenda urbana. E logo concluíram que o pânico que essa informação poderia causar poderia provocar uma disrupção social ainda muito maior e a coisa sair de controle. Além dos saques e assaltos nas ruas promovidos pelos ladrões e desempregados dos bairros pobres, até as pessoas ainda sãs poderiam perder a cabeça. E desde que a posse de armas foi flexibilizada, ainda no Covid-22 – para permitir que as pessoas, principalmente comerciantes de rua e feirantes, além dos grandes supermercados, se defendessem de assaltos e tentativas de saques – temos um verdadeiro arsenal balístico nas mãos das chamadas pessoas de bem da classe média ainda endinheirada, muitos dos quais mal sabem apertar o gatilho. Já tivemos um ligeiro aumento de mulheres baleadas ou apenas ameaçadas por maridos e companheiros armados dentro de casa. E, paralelamente, temos a crise das polícias – incluindo as Polícias do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que desde o Covid-23 reforçam a segurança pública. Só aumenta o número de policiais de todas as forças que estão de licença – seja porque pegaram algum Covid, seja por esgotamento emocional-psicológico. Um novo estresse ainda mais forte pode ter consequências imprevisíveis.

Por isso, o governo federal resolveu restringir as informações mais críticas sobre o Covid-25. Aplicou, sem divulgar, um novo artigo da Constituição aprovado discretamente num pacote de medidas baixado um ano antes, que permite a censura oficial da imprensa por até 90 dias, renováveis por mais 90 dias quantas vezes forem necessárias. Medida de tempos de guerra. E desde o ano passado a grande maioria da população só sabe que o Covid-25 é mais agressivo que seus antecessores, e tome lockdown, isolamento, confinamento, quarentena...

Com a censura, fiquei na desconfortável situação de receber notícias, saber de coisas que a maioria das pessoas não sabe, querer escrever e publicar para que todos tenham conhecimento, e não posso fazer isso. A censura não é como nos tempos da ditadura militar, quando um censor recebia a matéria datilografada e cortava o que bem entendesse. Hoje a coisa é mais eficiente. Se sair alguma coisa fora do decálogo de “pode” e “não pode” do Ministério da Justiça, a Polícia Federal tem ordem para fechar o veículo na mesma hora, nem precisa de autorização judicial. O site fica só com as notícias antigas e eventuais comunicados oficiais, sem poder fazer qualquer outra atualização. E novos anúncios são proibidos, para punir o dono do site também de forma econômica. Se desobedecer, o dono do veículo e todos os jornalistas em cargo de chefia (editores, subeditores, chefes de reportagem) serão presos imediatamente. Depois de 30 dias, o site pode retomar sua liberdade, mas será obrigado a informar a um setor da Polícia quando quiser publicar alguma matéria que possa ser passível de censura.

Fiquei angustiado com aquela situação. Até então, não havia restrições. Ao contrário, nossas notícias sobre Corona davam ibope e meu chefe estimulava. E eu havia conseguido algumas exclusivas muito boas. Por exemplo, a que mostrava as empresas que estavam faturando com as crises, gerando até novos postos de trabalho. Foi o caso do que apelidei de “Indústria do Quinino”. Coca-Cola com quinino, guaraná com quinino, suco de maracujá com quinino, mate com quinino, suplementos proteicos com quinino, bananada com quinino, BIS com quinino, a indústria alimentícia fez a festa. E o governo não foi muito voluntarioso para contestar, pois o quinino trazia um efeito meio placebo que acalmava as massas.

Até hoje há controvérsias sobre o real efeito do quinino na cura dos Covids, através da cloroquina e outros elementos químicos a base do quinino. Em alguns pacientes funciona, em outros não, é um milagre pela metade. Mas desde que surgiu essa hipótese, em 2020, de usar um remédio eficaz contra a malária no combate ao Covid, a ideia se popularizou e quatro quintos da população mundial passaram a acreditar que o quinino era eficaz contra a praga.

Outra reportagem que fiz foi com os motoboys. Vários deles foram contaminados, em todos os ciclos do Covid, pois sua profissão é de altíssimo risco, lidam com muita gente diferente de diferentes lugares. Mas eles sempre deram um jeito de continuar trabalhando, mesmo contaminados e doentes, pois é uma categoria que, se parar, morre de fome. Conversei com vários motociclistas e contei as histórias deles, impressionantes. E o nem o Ministério da Saúde, nem a Procuradoria do Trabalho mexeram uma palha para ajudar esses trabalhadores, jovens em sua maioria, que têm garantido a entrega de compras de supermercados, farmácias, petshops etc. em todos os confinamentos.

Foi a partir dessa história que passei a fazer meus pedidos de entrega e minhas viagens somente pela Rio 66, uma cooperativa de taxistas nova, totalmente brasileira. Depois que a chinesa Didi Chuxing (dona do Pop 99) comprou a Uber (e também as empresas de entregas por motoboys), ficamos à mercê do monopólio Uber-99, e os preços das corridas dispararam. A coisa está tão complicada que só falta nos obrigarem a aprender mandarim. Os chineses já compraram as fábricas da Ford, da Volks e da GM no Brasil, adquiriram o controle da Embraer, da Alpargatas (Havaianas), do Leite de Rosas, dos Correios, e estão rapidamente aumentando sua participação acionária na Petrobras, na Vale, na JBS, na TAM, no Banco do Brasil e nas organizações Globo, entre outros.  

Também fiz uma boa matéria sobre a SDC, a Síndrome de Depressão Confinatória, uma nova doença que recebeu classificação da Organização Mundial de Saúde e que, de repente, a partir do final de 2021, atingiu fortemente os adultos acima de 30 anos, após tantas semanas de confinamentos que aconteceram naqueles anos. Mostrei o despreparo de médicos, psicólogos e psiquiatras para tratar desse novo mal, que chega a incapacitar alguns trabalhadores de home-office, que tomaram verdadeira “alergia” a computador e engolem remédios para conseguir dormir.

Mas, quando veio a censura em 2022, de repente, não mais que de repente, surgiu um clima de tensão na redação. Os editores foram severamente orientados a não deixar sair nada que pudesse conflitar com as regras da censura. Comecei a ter minhas pautas rejeitadas, uma atrás da outra. E tive que reaprender a elaborar uma pauta jornalística, para não perder tempo vendo minhas matérias derrubadas e ser obrigado a recomeçar do zero.

Foi assim que, após algumas semanas vivendo aquela situação, decidi começar a escrever neste diário as notícias que descobria, sem mostrar para ninguém. Para... sei lá, presunção minha, deixar para a História... Será que, algum dia, serão publicadas? Ou ajudarão a contar a história desse período? Não me conformava em não fazer alguma coisa com as informações tão relevantes que encontrava. Foi quando alguma voz interior me mandou começar a colocar essas histórias num canto secreto de mim mesmo.

Esse, caro hipotético futuro leitor, é o pano de fundo que me fez chegar até aqui, com mais de 200 dias de histórias que eu vi, mas não pude contar. Agora, prepare-se, porque tem mais uma.

Há uns quatro dias, da janela daqui de casa, vi um carro da polícia levando um morador de rua. No dia seguinte, quando desci para receber minha comida trazida pelo motoqueiro da Rio 66, presenciei uma abordagem de policiais a outro morador de rua, um que costumava aparecer na esquina e às vezes cantava músicas de Roberto Carlos. Chamou-me a atenção que os policiais não perguntaram, simplesmente foram pegando ele pelo braço e levando para o carro. Ele não resistiu, mas estava com a cara meio assustada. Dois moradores de rua, em dois dias seguidos, o que a polícia estava querendo com eles?

Chegando em casa, mandei mensagem para o Pereira, velho conhecido que trabalha como escriturário da Polícia Civil. Como ele não respondeu, voltei à minha rotina meio sem graça: a busca de notícias para escrever para o dia, a contínua troca de mensagens com meu editor e com outros colegas de redação, cada um em sua casa, ou em algum dos cafés “liberados” – um respiro nesse sufoco de repetidos confinamentos, casas de lanches com wi-fi e preparadas para receber clientes sem que ninguém se contamine, uma pequena mas importantíssima opção para sair de casa durante um lockdown. Tantos anos dentro de casa, com poucos períodos sem confinamento, precisam de alguns escapes. Senão, ninguém aguenta.

Umas três horas depois, o Pereira me respondeu:

“Jornalista, deixa quieto... CR”.

Opa... Para o Pereira falar isso, o negócio é sério e tem notícia ali (a ser censurada, claro...). CR é “classificação reservada”, um código que o Pereira inventou para me dizer quando o assunto era segredo de Estado. Moradores de rua, mendigos, sem teto... O que pode ser??

Modéstia à parte, sou repórter, sinto cheiro de notícia à distância. Sondei meus colegas de redação, ninguém ouvira falar nada a respeito. Será que os moradores de rua começaram a cometer violências? Ou estão atrapalhando de alguma forma a quarentena? Ou terá a ver com a saúde pública? Comecei a ver que a apuração não seria fácil.

Liguei para a comunicação social da Polícia para ver se tinham estatísticas de ocorrências com esse povo da rua. Para minha surpresa, os registros eram mínimos. Liguei para a Secretaria de Saúde atrás de registros de ocorrências médicas com moradores de rua. Nada além do normal. Voltei-me para a Secretaria de Assistência Social, que costumava lidar com a turma da rua. Nenhuma informação relevante, nada que saísse da rotina. Bom, os dois incidentes que vi envolviam Polícia Militar, então mandei mensagem para eles. Responderam de forma lacônica, minimizando a coisa.

Percorri os caminhos normais da informação... e nada. Parti então para o roteiro mais difícil, as vias não normais. Morador de rua, sem teto, mendigo, polícia, Covid. Qual a relação? Precisava de algum especialista para me ajudar a ligar os pontos – se é que havia pontos a ligar. E tinha um problema: se era CR, seria perda de tempo falar com algumas fontes, além do risco de despertar suspeitas contra mim. Teria que seguir trilhas alternativas. Lembrei então do Zé, Zé Silveira. Eu havia falado com ele semana passada. Zé é amigo de colégio, virou cientista, nem sei direito de que área, mas sei que está envolvido nas pesquisas médicas relacionadas ao Covid em alguma universidade no interior de São Paulo. Mandei mensagem. A resposta veio logo, incisiva:

“O que você sabe exatamente?”.

Quase nada, respondi ao Zé, apenas vi os mendigos sendo levados pela PM e uma fonte me disse que o tema era espinhoso. Dessa vez, Zé demorou a responder. No dia seguinte, mandou o seguinte:

“Posso te ligar?”.

Claro, respondi prontamente. Ele não ligou. Quer dizer, me mandou um áudio bem mais tarde da noite.

“Rapaz, isso que você me disse é meio preocupante. O que eu sei é que aí no Rio os pesquisadores começaram a perceber que os moradores de rua estão resistindo bem ao Covid-25, já teriam feito testes em uns dois ou três que estão bem expostos nas ruas e nada apareceu. Ouvi falar também que iriam começar a estudar isso, pois talvez os que vivem nas ruas tenham desenvolvido alguma resistência natural ao vírus e isso poderia ser uma informação útil para o desenvolvimento da vacina. Mas será que estão catando moradores de rua à força para fazer testes?? Nunca ouvi falar disso e é chocante se realmente estiver acontecendo, isso seria mais um atentado contra os direitos individuais das pessoas, um passo forte em direção à ditadura, que esses militares que estão dando as cartas no governo federal desde a queda do Bolsonaro tanto gostam. Vou procurar saber e qualquer coisa eu te digo. E se você souber de algo novo, me conta também. E, olha, esse assunto é bem delicado, os ânimos estão exaltados, ninguém aguenta mais combater vírus, vai com cuidado nessa história. Abraço grande! Te cuida!”.

De repente, um quadro absurdo começava a se montar à minha frente. Mendigos, sem teto, pedintes de rua, aqueles maluquinhos dormindo debaixo das marquises, essa galera é resistente ao Covid-25?

Pensando bem, pode fazer algum sentido. Já li estudo mostrando que a rua faz uma seleção natural, aqueles que chegam nela desde adolescentes conseguem desenvolver rapidamente anticorpos contra todas as bactérias e outros males que ingerem na água suja e na comida que tiram das lixeiras. Os que não desenvolvem, acabam morrendo, é a seleção natural da sarjeta. Eles comem porcarias estragadas e fedendo a coisa podre retiradas de qualquer saco de lixo, e que a qualquer um de nós – os “normais” – faria um mal danado. Mas eles aguentam bem e ainda conseguem extrair alguma proteína dessa podridão. Bebem água suja de todos os tipos, são visitados toda noite por ratos, baratas, pulgas, formigas, larvas e mosquitos, e continuam aí nas ruas. Vivos. Saúde mental zero, mas a saúde física segue mais ou menos – o suficiente para se levantarem e correrem atrás de comida e até se atirarem numa briga de rua. Resfriado? Gripe? Eles não têm mais. Aguentam chuva fria, sol tórrido, mudanças bruscas de temperatura. Não morrem facilmente.

E se, realmente, eles estão resistindo ao Covid-25?? Faz sentido, faz sentido... Podem até estar virando cobaias de estudos científicos. Lá atrás, no Covid-19, prefeituras chegaram a abrigar moradores de rua em centros de “acolhimento”, mas eles não ficaram muito tempo. São seres inquietos, desconfiados, mal acostumados à vida nas ruas, onde se viram melhor e não ficam parados o dia inteiro sem fazer nada numa cama de “acolhida”.

Mas será que chegamos a esse cenário de filme de ficção científica em que forças policiais perseguem cidadãos marginalizados nas ruas para levá-los à força para uma mesa onde ficarão amarrados e serão submetidos aos mais cruéis testes na busca desenfreada de uma solução contra o Covid-25?? Será que esses maltrapilhos que vivem nas ruas do Rio irão salvar a humanidade com seu sangue sujo, que de repente tornou-se miraculoso??

E aí tenho outra questão. Se eles têm efetivamente a resposta, a cura, será que não é válido que esse grupo, que não contribui para a evolução e sobrevivência da raça humana, seja estudado para que alcancemos a cura para bilhões de pessoas? É um pensamento pouco ou nada humanista, mais para a extrema-direita nazista que gostava de fazer pesquisas pseudocientíficas com gente viva, gente considerada inferior, como negros, judeus, ciganos, doentes mentais etc. Mas que nesses tempos radicais certamente pode virar "racional".

E aí? Se essa história realmente estiver acontecendo (e faz até sentido que esteja...), vai ser bem complicado correr atrás. E, mais do que isso, vai ser arriscado, porque devem ter subido todas as defesas policiais e militares possíveis para evitar vazamentos. Para que a opinião pública, o público em geral, a população brasileira, não saiba de nada antes da hora. Porque, senão, os advogados das ONGs e os partidos de esquerda cairão em cima e tentarão ações judiciais para impedir a busca da cura. E se os mendigos estiverem sofrendo torturas nessas pesquisas secretas? Por exemplo, se tiraram um rim, ou um pâncreas, para estudar melhor as defesas naturais que desenvolveram? A dor de meia dúzia de mendigos pode evitar a morte de milhões, isso não justificaria esses experimentos??

Com certeza acabarei ouvindo argumentos assim se prosseguir nessa apuração. É uma história e tanto, em tempos normais eu ganharia um prêmio Pulitzer com essa revelação bombástica. Mas... será que vale a pena? Não posso perder esse emprego agora, acabaria na rua, sendo mais um desses mendigos e, de repente, me veria na cama de testes ao lado deles, tendo meu corpo dissecado por cientistas ansiosos por descobrir o segredo de meus pulmões ultra-resistentes ao Covid-25...

Minha outra opção é a mediocridade jornalística censurada. E minha vida continuar como está, com dinheiro pra comprar comida e pagar o aluguel, com meu trabalho que tem me dado pouco prazer, mas que me paga salário em dia e dá acesso a informações “privilegiadas”.

227 dias... Estou cansado, mas ao menos não estou tossindo. Vou dormir e amanhã vejo o que faço com essa história. Acho que vou deixar quieto, não aguento mais apurar tanta coisa importante que não posso publicar. Cansado de dar murro em ponta de faca. Frustrado de ficar brincando de fazer notícia para um pseudojornal que só eu leio. Acho que tá na hora de encarar a derrota, não consigo ir contra a censura. Perdeu, playboy, já era, c’est fini, parte pra outra.

É isso. The End. Chega de perder tempo. Basta. Cabô. Demorô. Bola pra frente, que atrás vem gente. Vamos tocar o barco.

Mas... sei lá...  amanhã... de repente... Acho que vou conversar com alguns mendigos. 



domingo, 28 de outubro de 2018

Por que?



Sábado, 27 de outubro de 2018, um dia antes da eleição fatídica, que pode jogar o Brasil num atraso de pelo menos quatro anos de conquistas civilizatórias. Caí da cama antes da hora, muito tenso com tudo o que pode vir a acontecer de mal a tantas pessoas que conheço e que não conheço, e abatido com meu despreparo físico e emocional para a luta da resistência democrática – um estado de espírito que eu guardei no armário por mais de três décadas, achando que não precisaria mais utilizar, que o caminho do Brasil para a democracia era irreversível. 

Neste dia, junto com minha frustração e desânimo, meu pensamento também está virado e revirado para tentar entender o que acontece. Como, em menos de dois meses, o que parecia uma piada de mau gosto tornou-se um pesadelo?

Pra começar...

Não sou cientista político, sou jornalista com um histórico de militância política na esquerda carioca e por isso sou um permanente observador da realidade e das pessoas. Me esforço em analisar e explorar fatos e tendências. Às vezes erro, outras acerto, mas vou aprendendo com meus erros e tentando aprofundar meu conhecimento sobre o comportamento e as atitudes das pessoas. O bom Jornalismo, que eu sempre busquei praticar, é um permanente passeio por outras áreas de conhecimento, como a História, a Economia, a Política, a Cultura e a Psicologia Social. A gente não é especialista em nenhuma dessas cadeiras, mas convive com elas por tanto tempo que acaba entendendo um pouco como cada uma interage e afeta os fatos no dia a dia da sociedade.

Vamos ao que interessa

Para mim, duas palavrinhas concentram o que mais deve ser estudado para compreender a eleição de 2018 – a mais atípica, inesperada e imprevisível de todos os tempos da nossa jovem democracia. Essas duas palavras são: classe média.

Estou falando de uma classe social fortemente heterogênea. Ela inclui, por exemplo, uma família de classe média baixa, com renda mensal em torno dos R$ 5 mil e que se aperta num apartamento de 50 metros quadrados num bairro da Zona Norte do Rio, como Inhaúma ou Osvaldo Cruz. Essa família não tem carro, anda de ônibus, trem e metrô, nunca viaja nas férias, raramente faz compras em shopping center e, quando precisa, come um prato feito de R$ 15 num boteco da região e toma a cerveja mais barata que encontrar, não importa a marca.

Mas o que chamamos de classe média brasileira também abarca, por exemplo, uma família paulistana de classe média alta com renda familiar mensal em torno dos R$ 40 mil, que reside num belo e amplo apartamento no Itaim Bibi com uns 100 metros quadrados, que regularmente faz compras nas melhores lojas dos melhores shoppings, que só come em restaurantes caros, onde o prato mais barato não sai por menos de R$ 60, que tem carro novo e troca de modelo a cada três anos, e que viaja todas as férias para Miami, Paris, New York ou Roma.

A classe média brasileira é muito ampla e diversa. E é o setor da população que, proporcionalmente à sua renda, é o que mais paga impostos no Brasil. Nosso sistema de impostos e tributos (que requer uma reforma urgente...) faz com que aqueles que tenham carteira assinada sofram maior carga tributária. Por exemplo, um vencimento mensal de R$ 8 mil de um profissional sem dependentes tem retenção de imposto de renda na fonte de R$ 1,330 mil, ou seja, 17% do salário bruto em carteira. Já para um salário de salário mensal de R$ 20 mil por mês, sem dependentes, estamos falando de um desconto de R$ 4,630 mil – ou seja, o vencimento lançado na carteira de trabalho, na prática, vira R$ 15,369 mil líquidos – uma retenção de 23%, quase um quarto do salário. Além disso, há os 7,5% descontados para a Previdência Social. O profissional liberal sem carteira assinada (médicos, arquitetos, advogados, psicólogos etc.) têm uma carga de imposto de renda menor, mas pagam outros impostos como o IPTU do escritório ou consultório, a contribuição social sobre o lucro líquido, o alvará etc.

Além dos tributos diretos, quanto maior o salário da pessoa, mais ela consome, e, portanto, mais impostos indiretos (embutidos nos preços dos produtos) ela paga. Na maioria das vezes, ela não percebe isso, apenas reclama que “está tudo muito caro”. Mas, quando compra um carro novo, por exemplo, a classe média desconhece que os impostos embutidos no preço do veículo chegam a quase 50% do valor de venda ao consumidor (essa conta é da Anfavea, a associação dos fabricantes automotivos). Ou seja, se o carro custa R$ 60 mil, uns R$ 28 mil são de impostos (IPI, ICMS, PIS/Cofins etc.).

Os impostos

Vou abrir um parênteses aqui.

Para que servem os impostos? Numa definição simples, os impostos são a receita principal do Estado para custear suas despesas. Ou seja, é o dinheiro que garante o funcionamento dos hospitais e das escolas públicas, a manutenção das ruas e estradas e o pagamento de todas as despesas necessárias para termos segurança pública (salários dos policiais, manutenção de quarteis e delegacias, compra de armas, balas, uniformes, veículos, helicópteros, computadores, telefones celulares etc., entre muitos outros itens de despesas).

Uma vez, em junho de 2104, quando trabalhava no jornal “Brasil Econômico” (que deixou de circular em 2015), tive a grata oportunidade de entrevistar o italiano Domenico de Masi, um dos mais importantes pensadores da atualidade, autor de vários best-sellers, como “O ócio criativo”, “O futuro chegou e “O futuro do trabalho”. Octavio Costa fez a entrevista comigo e foi o principal condutor dela, mas, não me lembro por que, o nome dele não saiu na matéria. Dá pra ler a íntegra da entrevista aqui: https://goo.gl/djpFBy.

Perto da eleição que reelegeu Dilma, e ainda com muito das manifestações de 2013 impactando nossa realidade política, perguntamos a De Masi se ele não achava muito alta a carga tributária brasileira, que fica entre 35% e 40%. Ele respondeu comparando que a carga tributária na Suécia era de 60% e que na Itália era de 57%. E complementou: “A diferença é que, na Suécia, os impostos são devolvidos na forma de bons serviços para a população, mas na Itália, não! Por causa da ineficiência burocrática e da corrupção no Estado italiano...”.

Essa é a grande questão dos impostos. Eles têm que ser revertidos em serviços públicos de qualidade para a população. Da mesma forma que o síndico de um prédio tem que garantir que todos os serviços funcionem direito (portaria, limpeza, elevadores etc.), porque os condôminos pagam uma taxa de condomínio alta e exigem um retorno disso.

Outro dia li em alguma análise econômica na imprensa que a carga tributária no Brasil saltou de uns 22% nos anos 90 para 35% nos anos 2000, mas a qualidade dos serviços públicos piorou. Imagine se a taxa de condomínio aumentasse 50%, mas depois desse reajuste os corredores do prédio passaram a ficar mais sujos. O que acontece com os condôminos? Vão ficar muito incomodados e vão reclamar, o síndico será severamente questionado...


Fecha parênteses...

Agora voltemos à classe média brasileira – fecha parênteses. Em primeiro lugar, vale lembrar que a classe média de uma maneira geral nunca teve uma participação política mais ativa no período da ditadura e também no retorno à democracia, a partir de 1985. Participou discretamente das manifestações pelas Diretas Já, na primeira metade dos anos 80, isso é fato. E a classe média mais baixa dos grandes centros, especialmente Rio e São Paulo, teve um protagonismo político relevante, através dos fortes movimentos sindicais de categorias do operariado nos anos 80 e 90. Alguns movimentos de servidores públicos também mobilizaram a classe média de funcionários estatais. Mas nunca vi um envolvimento político mais forte da maioria da classe média brasileira, que está super concentrada nas grandes cidades. Não tinha militância partidária, nem um partido que as representasse. Nunca vi, até 2013.

Não consegui ir para as ruas durante as manifestações daquele ano, mas ouvi relatos de repórteres que trabalhavam comigo e de amigos que estiveram lá. E, sim, acho que o mais havia nas primeiras manifestações eram, além de estudantes universitários e secundaristas, os trabalhadores assalariados de classe média, média mesmo – nem tão ricos, nem tão pobres. Por alguma razão, ainda a ser estudada por cientistas sociais, aquele setor da sociedade que nunca ia nas manifestações políticas se viu estimulado a acompanhar a multidão nas avenidas Rio Branco e Pres. Vargas, aqui no Rio, e em outras vias país afora. Desconfio que aqueles 20 centavos acabaram tendo um impacto simbólico e inconsciente muito grande para essa classe média recém entrante na cena política. Talvez (isso é avaliação minha, estudos deveriam ser feitos para comprovar), aquelas pessoas tenham identificado naquele pequeno aumento abusivo uma empatia com seus incômodos de mais de uma década pagando impostos altos sem o devido retorno da qualidade dos serviços públicos.


Como assim?

Nos anos 2000, a classe média começou a perceber que era obrigada a pagar planos de saúde caríssimos porque a saúde pública era uma quase tragédia. Pagava colégios particulares que custavam os olhos da cara, porque as escolas municipais e estaduais eram precaríssimas. Pagava táxi, seguro e manutenção de carro particular e transporte escolar privado porque os transportes públicos deixavam muito a desejar. Pagava condomínio alto pacas, para sustentar as despesas com grades na portaria, câmeras de segurança, alarmes, porteiro 24 horas por dia... porque a segurança pública era cada vez pior e não dava segurança.

Paralelamente, no governo Lula, grande esforço foi feito para promover uma melhoria de vida das classes menos favorecidas. Em poucos anos, a classe média que pagava pelos serviços de domésticas, bombeiros hidráulicos, eletricistas, porteiros, manicures, consertadores de geladeiras e outros trabalhadores de baixa renda começou a ver que o nível de vida dessas pessoas melhorava. Presenciar a empregada doméstica que pela primeira vez na vida pegaria um avião para visitar a família no Nordeste durante suas férias chocou muita gente. Alguns de forma positiva, mas outros de maneira negativa. 

Subconscientemente, eu acredito, muitas famílias de classe média se questionaram lá no fundo de sua alma tradicionalmente pequeno burguesa: “Peraí, meu salário não aumenta mais que a inflação, o supermercado está cada dia mais caro, os impostos consomem quase 30% do meu salário, a mensalidade da escola dos meus filhos sobe mais que meus ganhos, o plano de saúde reajusta todo ano mais que a inflação, o condomínio aumentou para poder pagar as câmeras e os alarmes, e os serviços públicos só pioram... Enquanto isso, minha empregada e meu porteiro melhoram de vida e conseguem até viajar de avião para o Nordeste... Como assim? Tem alguma coisa errada aí, acho que estão me fazendo de otário, estão me sacaneando...”.

Essa classe média em alguns momentos também se beneficiou – ficou mais fácil passar as férias no exterior e o emprego na iniciativa privada abundou por alguns anos. O mercado de consumo ficou aquecido, produtos importados estavam disponíveis nas lojas, milhares de estudantes conseguiram estudar um tempo no exterior através do programa Ciência sem Fronteiras, tivemos os jogos Olímpicos no Rio, o Brasil era elogiado lá fora. Mas aí veio a crise econômica mundial de 2008, que de início foi só a marolinha batizada pelo Lula, mas em 2013 já começava a mostrar suas garras, e em 2014, 15, 16, 17 e 18 só foi piorando. E o governo Dilma não mostrava nem um terço da competência política e do carisma de Lula em gerenciar a economia e o Congresso. 

Como agravante, em 2015, juntamente com Dilma, tomou posse o Congresso mais conservador e corrupto que vimos desde a redemocratização, em 1985. Seu representante mais poderoso, Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados, hoje cumpre pena na cadeia. 


“A culpa é do PT...

Paralelamente, essa classe média conviveu durante alguns anos com notícias negativas da grande imprensa contra o Partido dos Trabalhadores e seus dirigentes, devido ao envolvimento de integrantes do seu alto escalão com a corrupção (com C maiúsculo), no Mensalão e na Lava Jato. Foi um massacre, por uma década a grande imprensa (organizações Globo, Editora Abril/Veja, Estadão, Folha de S. Paulo, Editora3/Istoé) não perdoou. E muitas vezes pegou mais pesado com os petistas do que com ladrões de outros partidos. (Contribuiu para isso, a meu ver, a postura arrogante do PT, que nunca reconheceu seus erros publicamente, mas isso é outra história). O peso dessa grande imprensa sobre a formação da opinião da classe média foi enorme. E contribuiu muito para criar o famoso antipetismo, o ódio coletivo ao PT que tanto vemos hoje – me arrisco a dizer que quase metade do país odeia Lula e o PT.

É importante destacar que a classe média brasileira, de maneira geral sempre foi despolitizada ou pouco politizada. Nunca acompanhou com atenção o noticiário político, fixava-se em algumas manchetes de tempos em tempos, mas sequer se lembra em quais deputados votou na última eleição, e tem apenas uma mera ideia do que os representantes de seu Estado fazem no Congresso de terça a quinta-feira em Brasília. 

Mas o noticiário diário da Lava Jato durante alguns anos, com matérias de longa duração e chamadas diárias no Jornal Nacional e em todos os demais telejornais, acabou capturando sua atenção. E quem sequer sabia direito a diferença entre esquerda e direita numa democracia como a nossa, começou a se educar para a política formal através de chavões do tipo “político não presta”, “é tudo ladrão” e a sintética e conclusiva “todo petista é ladrão”.

Após 2013, essa classe média começou a construir uma identidade política, meio difusa, apartidária, inexperiente e com pouco conhecimento teórico. Um gigante em termos de quantidade de eleitores começou a se levantar e em 2014 tivemos os primeiros efeitos disso. Um último voto de confiança foi dado ao PT, apesar de uma grande divisão nacional – Dilma venceu no segundo turno com 54 milhões de votos, contra 50 milhões para Aécio. Mas, apenas dois anos depois, em 2016, esse voto foi retirado com o apoio amplo dessa mesma classe média ao impeachment de Dilma.

No meio disso tudo, temos o surgimento de movimentos como o MBL, a bateção de panelas, a camisa da seleção brasileira em seguidas passeatas dominicais (porque, durante a semana, a pragmática classe média não pode faltar ao trabalho...) – tudo contra Dilma e pela derrubada do “dinastia” petista. Veio em seguida a insatisfação com o governo Temer e seus escândalos, a economia continuou a se deteriorar, a reforma da Previdência ameaçava a aposentadoria e a reforma trabalhista ameaçava o emprego. 

O PT continuou sendo açoitado pela imprensa até Lula ser condenado e ficar preso em Curitiba. E a greve dos caminhoneiros em 2018 mostrou de forma dramaticamente ameaçadora – com prateleiras vazias nos supermercados e carros parados na garagem por falta de combustível – que o Palácio do Planalto, símbolo máximo do poder político brasileiro, não tinha mais o poder de outrora.  

Liberou demais 

Paralelamente, a classe média, que sempre foi baseada em famílias conservadoras (mesmo quando dava voto ao PT), foi se incomodando (calada, mas de cara fechada, se corroendo por dentro) com a crescente liberalização dos costumes que se aprofundou sob os governos do PT. Nas ruas, passou a ver homem beijando homem, mulher beijando mulher, jovens e adultos fumando maconha abertamente, grandes passeatas “obscenas” nas Paradas Gay, mulheres com os peitos de fora quebrando imagens de santas em plena Praia de Copacabana, blocos de carnaval interrompendo o trânsito e tocando alto madrugada adentro em ruas residenciais.

Em meio a isso tudo, as UPPs faliram, o PCC cresceu, a insegurança pública aumentou em todos os estados, e a classe média tem sido um de seus principais alvos. Passou a ficar com medo de andar com joias na rua ou de ter um carro muito visado pelos ladrões. Pior, a bandidagem começou a esfaquear, balear e matar pessoas indefesas sem qualquer pretexto. E, pelo noticiário que saía e que era lido pela classe média, a grande maioria das vítimas eram seus pares, podia ser seu irmão, sua filha, a filha do vizinho, um pequeno empresário saindo do trabalho, a médica chegando no plantão.

Paralelamente, o Estado do Rio – e outros, como o Rio Grande do Sul e o Distrito Federal – quase declararam falência, começaram a atrasar salários e pagamentos de fornecedores. Empresas foram quebrando e o desemprego aumentando. A sensação de caos e de desordem social foi crescendo. E o culpado era o governo, ainda encarnado na figura do PT, alvo de todo ódio pelas mazelas do país. Sérgio Cabral, governador do Rio, foi preso por corrupção, mas ele não era apoiado pelo Lula? Então, tem dedo do PT na história.

Em poucos anos, após 2013, criou-se na classe média a sensação de medo, caos e desordem na sociedade, com os governos perdendo o controle da situação.


A novidade e o despachante

Nessa linha de tempo, em algum momento depois de 2014 Jair Bolsonaro resolveu candidatar-se a presidente. Ele já fazia, há muitos anos, uma campanha sutil nas academias militares. Todo ano, por exemplo, era ovacionado na formatura de cadetes da tradicionalíssima Escola Militar de Agulhas Negras. Mas a partir da segunda metade de 2017 começou a costurar mais a sério sua campanha presidencial.

A classe média brasileira tem, historicamente, a cultura do despachante. Adora alguém que resolve os problemas para ela, mesmo que tenha que pagar a taxa do despachante. Nas Diretas Já, com a eleição de Tancredo Neves de forma indireta, a campanha sumiu das ruas. O povo, de maneira geral, ficou contente com o desfecho, mesmo sem ter conseguido as eleições diretas. Henfil, cartunista genial e grande figura humana e política, comentou na época, com precisão, que Tancredo Neves assumiu o papel de despachante do povo brasileiro. Assim, mais tranquila, a classe média pode voltar ao trabalho e a seus afazeres diários, não precisava mais se preocupar com política. Terceirizou o problema com o presidente eleito indiretamente, que lhe parecia honesto e disposto a começar um novo caminho democrático.

Em algum momento entre junho e setembro de 2018, Bolsonaro começou a ser visto pela classe média, especialmente aquela que batera panelas e fora às ruas contra Dilma, como um bom despachante para resolver os problemas brasileiros. O ódio ao PT, acirrado a seu extremo pela imprensa por mais de uma década, acabou ganhando novo combustível: a inundação de fake News nas redes sociais, financiada secretamente por mais de 150 empresários do baixo clero da indústria e do comércio. E a classe média espalhou isso para outras classes, atraindo até o porteiro do prédio e a manicure do salão de cabelereiro frequentado pela patroa. 

Acho que nunca conseguiremos mensurar o estrago feito pelas fake news bolsonarianas em termos de motivação de pessoas para votar no candidato e odiar o PT. Mas todos nós temos indícios muito fortes da força dessa esperteza eleitoral imoral e ilegal. Teria Bolsonaro chegado tão longe sem ajuda das fábricas secretas de distribuição de fake news? Difícil saber, sequer conseguimos mensurar o impacto das mentiras profissionais distribuídas pelas redes sociais...


Enfim...

Resumindo a história, tenho para mim que as pessoas que estão hoje tão empolgadas com a verborragia fascista violenta e preconceituosa são principalmente representantes da classe média que estão cansados da falta de solução e resolveram apelar, escolheram aquele que tinha mais jeito do Capitão Nascimento da Tropa de Elite para resolver os problemas do país. E pronto. Não querem e não aceitam ser questionados, querem apenas eleger o ex-capitão militar, na esperança cega de que ele funcione como o “despachante-salvador da pátria”. Adotaram um pensamento simplório, emocional e sem espaço para o racional.

Ao longo de todos esses anos de democracia, os governos Itamar, FHC, Lula e Dilma não deram a devida atenção à classe média. Agora, o gigante adormecido deixou de ficar deitado eternamente num berço que já não é tão esplêndido e decidiu botar a boca no trombone. E o trombone que mais se adaptou à sua boca é o desse ex-capitão fascista. Não importa o que ele diga, o problema é dos gays e das lésbicas, não é da classe média. O importante é que ele seja eleito e dê um jeito nas coisas. Programa de governo? Tampouco interessa. Valores éticos e morais? Besteira. O PT sempre falou em programas de governo e valores e acabou roubando como os que criticava. Então, isso não importa mais...

O papel da classe média na ascensão de Bolsonaro é algo que precisa ser estudado. Com a palavra, os cientistas sociais e políticos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Menores, crimes e diálogo

O Facebook parece confirmar, ao menos para mim, a tese de que o Brasil ainda não sabe discutir, no sentido de se dialogar para chegar a um consenso. Não fomos criados e educados para isso. Fomos educados para ganhar o jogo, levar vantagem, não perder a discussão. 

O diálogo e a negociação são princípios básicos da democracia. Na democracia, vence a maioria, mas a minoria tem voz, mesmo perdendo. Quando a maioria tolhe a voz da minoria, ou a minoria tira a palavra da maioria, caímos na ditadura. 


Mas somos uma democracia muito jovem, que começou a ser construída no pós-guerra, foi interrompida por 25 anos e sua construção foi retomada aos trancos e barrancos, com muitas mágoas e cicatrizes de mais de duas décadas de uma ditadura sanguinária – que fez um milagre econômico para poucos, em prol do empobrecimento da grande maioria. E também herdamos muita gente mal educada pela ditadura – na corrupção, na ambição, no autoritarismo e numa visão egoísta de vida.


Além disso, ainda temos os vícios herdados lá de trás, das capitanias hereditárias, da casa grande e da senzala, das hierarquias nobiliárquicas e militares, da escola que educava na base da decoreba e da palmatória, da sociedade que continuou a tratar o negro liberto como escravo, e que reserva para a empregada doméstica e o porteiro um quartinho escondido no fundo do imóvel. 


Parece que a única arte de discussão e diálogo que o Brasil aprendeu foi nos estádios de futebol, na base da emoção, de xingar o adversário de viado e o juiz de filho da puta, com os nervos à flor da pele e a razão sendo uma coisa menor. Assim pensam e agem assim não apenas as torcidas de clubes como Flamengo e Corinthians, mas também os Black Blocs de 2013 e os White Blocs de 2014 e 2015.


Nessa questão da maioridade penal, vejo muita falta de discussão, de diálogo. De um lado ouvir as razões do outro. E levá-las em conta nas suas conclusões. E também falta de informação, de conhecimento do problema, de as pessoas procurarem efetivamente saber mais para tomar uma posição.



Menores, favelas e tráfico: tragédia social


Trabalhei um ano e meio na Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro (do final de 2011 até as vésperas do carnaval de 2013), como assessor de comunicação do secretário José Mariano Beltrame (um cara que admiro e respeito muito), e acompanhei lá dentro o início dessa discussão, que hoje, em 2015, já está a pleno vapor no Congresso e na sociedade. 

Beltrame, que defende a redução da maioridade penal, provocou essa discussão na sociedade e no Congresso. E tinha seus motivos. E encontrou eco em outros setores da sociedade.


As favelas do Grande Rio compreendem mais de 500 bairros e pequenas comunidades, onde moram perto de 1,5 milhão de cariocas, a grande maioria em situação urbana precária, e social e economicamente marginalizados da cidade do asfalto. Nossas favelas são uma tragédia social, esquecidas pela jovem democracia do asfalto. As pessoas que lá moram têm saneamento básico precaríssimo, convivem com lixo e esgoto a céu aberto na porta de casa (e ratos, baratas e outros bichos atraídos pelo lixo e pelo esgoto...). Têm habitações precárias, a maioria não regularizada, seus moradores carregam a pecha de “favelados” (um misto de pobre com bandido), têm os piores empregos da escala social, são vistos e tratados como marginais pelas Polícias. Em suma, vivem mal e porcamente, em comparação aos cariocas do asfalto. 


Mesmo assim, são cariocas que conseguem criar, fazer uma arte que nos encanta e gerar histórias de vida e empreendedorismo sensacionais, de dar inveja a muito marmanjo de alta classe média. São, acima de tudo, guerreiros, que sobrevivem e crescem, contra tudo e contra todos. Mas são guerreiros que amargam o porão da sociedade. Ainda estão na Senzala urbana. E enfrentam dificuldades enormes para ascender à Casa Grande do asfalto.

As crianças e adolescentes da favela têm muito poucas opções de felicidade. Educação, saúde, áreas de lazer, esportes, uma estrutura familiar estável, o sonho de uma vida saudável e próspera. Tudo isso falta na favela. Sobra, além da des-urbanização generalizada, a violência – como a que ceifou a vida desse menino de 10 anos no Alemão, um menor que só mereceu a atenção dos jornais e da classe média porque morreu, vítima de um policial despreparado, hostil à comunidade que deveria defender. Se não tivesse morrido, não saberíamos que ele adorava a escola e que era um menino doce e querido por todos.


Além de todos esses males, as favelas do Rio passaram a conviver, dos anos 90 para cá, com a ditadura de diferentes bandos de traficantes, que não apenas cometem crimes os mais diversos (incluindo assassinatos bárbaros), como também impõem o terror de seu mando, assumindo as funções de Executivo, Legislativo e Judiciário da comunidade. Na falta do poder público, vagabundo faz a sua festa. 

Alguns poucos traficantes têm seu lado bonzinho, e até ajudam a comunidade – lembrando os bicheiros de antigamente, que acumulavam o comando do jogo ilegal com a patronagem do desenvolvimento em suas comunidades. Mas nada impede que mesmo esses traficantes “mais bonzinhos” façam qualquer maldade que lhes venha à veneta. Como, o que é muito comum, obrigar uma adolescente bonita de 15 anos a ser mulher do tráfico (ou seja, fazer sexo com um ou mais traficantes, dopar-se regularmente com crack, maconha, cocaína e cachaça, e viver em função dos traficantes, longe da família e da escola, e correndo risco de ser morta a qualquer momento por um bando rival ou pela polícia). Ou, como teria acontecido na Rocinha nos tempos do Nem, atirar na mão de um garoto de 10 anos que foi pego roubando, para mostrar à comunidade quem é que realmente garante a “justiça” ali. (Diz-se que, quando Nem soube dessa violência, cometida por um de seus gerentes do tráfico, mandou matar o infeliz.)

No auge do reino dos traficantes nas favelas, do final dos anos 90 até as primeiras UPPs, em 2009, as crianças e jovens “favelados” foram absorvendo o way of life do tráfico. Nesse “estilo”, se destacam os bailes funks todo final de semana, onde os traficantes montam sua banquinha de venda de drogas, e onde é permitido, liberado e estimulado fazer de quase tudo que o carioca não veria num baile do asfalto – vender, comprar e consumir drogas abertamente; fazer sexo em público com adultos e menores; dar tiros para o alto; andar fortemente armado; menores beberem livremente até se embriagarem; cantar músicas que pregam o ódio e a morte cruel de policiais e de membros de quadrilhas rivais. 


Curiosamente, desses bailes – que tornaram-se a principal opção de lazer dos fins de semana de boa parte da juventude nas comunidades dominadas por quadrilhas de traficantes – prosperou o funk, gênero musical tipicamente carioca (que tem como base rítmica o Miami Brass norte-americano) e que tem coisas geniais. Mesmo que, como tudo na vida, também tenha seu lado ruim, como os proibidões (músicas que fazem apologia dos traficantes e de sua violência) e os funks sexistas, que tratam a mulher como mero objeto de sexo rasteiro, na visão masculina/machista da coisa. O funk hoje é uma música genuinamente popular e carioca, criativa e de grande popularidade. Desses bailes também surgiram dançarinos maravilhosos, as batalhas do passinho, e também os rappers, compositores que fazem crônicas poético-musicais da comunidade, num formato que parece uma versão moderna do bom e velho repente nordestino. Sem contar a estética do funk, que gerou uma moda própria das favelas, que o asfalto vez por outra incorpora. 


Outra herança dessa cultura da ditadura do tráfico, estimulada também pelos bailes funks de traficantes, foi a idolatria do bandido, do chefe do “movimento”. Em nossa cultura, jovens precisam de ídolos para se inspirar, de exemplos a serem seguidos. Numa escola católica ou evangélica, o jovem pode ser educado a ter Jesus como esse exemplo. Numa família tradicional de esquerda que lutou contra a ditadura militar, esse ídolo poderia ser Che Guevara, Lula, ou José Mujica. Em famílias de classe média que não ligam muito para a política e que adotam hábitos propostos pela 
propaganda da sociedade de consumo, esse ídolo pode ser Justin Bieber, Luan Santana ou Anitta. Numa favela dominada pela bandidagem, é muito comum o ídolo dos jovens ser o traficante, especialmente os chefes do tráfico – que têm dinheiro a rodo, carrão, mulheres, bebidas e drogas à vontade, armas mais poderosas que as da Polícia, malandragem, cordões de ouro, roupas de grife, uma tropa de “soldados” sobre os quais manda e desmanda. Enfim, toda a ostentação de um status social melhor, que o jovem da comunidade não tem qualquer perspectiva de alcançar pelas vias normais do estudo e do trabalho.

Esse, de maneira muito generalizada, é o cenário aonde crescem jovens numa favela dominada pelo tráfico. Claro que há jovens que estudam, praticam esportes, tocam um instrumento, vão à igreja, mas paralelamente há um forte contexto que cria as condições para o passo seguinte da tragédia social – o jovem ser atraído para atuar no crime do tráfico.



Soldados do crime


De uns 6 a 7 anos para cá, as quadrilhas do tráfico descobriram que os jovens da favela, a partir de uns 12 anos de idade, poderiam ter mais utilidade do que apenas levar droga para lá e para cá, ou ficar à espreita, vigiando a chegada da PM ou de quadrilhas rivais. 

Há muito tempo, o tráfico já usava a criançada favelada como força auxiliar de serviços para seu negócio criminoso. Eram os vapores, os pequenos vigias, os garotos de recado. E, quando chegavam a 17, 18, 19 anos, eram também recrutados para o “serviço militar”, tornando-se soldados do tráfico e, eventualmente, chegando à posição de chefes das bocas de fumo ou mesmo do morro. Mas, em algum momento da guerra permanente do tráfico entre si, e contra as polícias, os bandidos concluíram que poderiam usar a garotada já a partir dos 12 anos como soldados mesmo, empunhando revólveres e até fuzis automáticos, seja para praticar roubos e atacar inimigos, ou apenas para reforçar o exército de defesa do território dominado na favela. Como subconsequência disso, muitos jovens acabaram caindo no crime, realizando seus próprios roubos. Conseguir uma arma numa favela dominada pelo tráfico para começar a roubar é mais fácil do que comprar um iogurte na vendinha da mesma favela. E o traficante quer é mais – mais crimes, mais aliados contra a polícia e a sociedade do asfalto, mais clientes para seus produtos (as drogas e as armas).

Os números são poucos para mostrar essa realidade, mas já dão uma ideia impressionante. Consultei os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), que é o IBGE do crime no Estado do Rio de Janeiro, utilizando como base primária os dados dos registros criminais de todas as delegacias do Estado para produzir análises e estatísticas básicas da violência no Rio. Nesses dados, há um tipo de registro que se chama “Apreensão de crianças e adolescentes” e que evoca o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 


Aqui vale algumas explicações técnicas. O ECA estabelece que, quando um menor de idade comete algum ato ilegal, ele não é considerado crime, e sim infração. E o menor não pode ser preso, mas deve ser apreendido pela autoridade policial, para a própria segurança do menor, ou para assegurar a manutenção da ordem social. Em tese, o menor apreendido vai para uma delegacia especial, de onde é encaminhado ao Juizado de Menores, que costuma reencaminhar para instituições públicas que funcionam teoricamente como abrigos de reeducação, mas que na prática (com raríssimas exceções) são depósitos de menores infratores. Da mesma forma que as prisões são depósitos de adultos infratores. 

O artigo 174 do ECA dá uma ideia de como a coisa funciona:


“Art. 174. Comparecendo qualquer dos pais ou responsável, o adolescente será prontamente liberado pela autoridade policial, sob termo de compromisso e responsabilidade de sua apresentação ao representante do Ministério Público, no mesmo dia ou, sendo impossível, no primeiro dia útil imediato, exceto quando, pela gravidade do ato infracional e sua repercussão social, deva o adolescente permanecer sob internação para garantia de sua segurança pessoal ou manutenção da ordem pública.”

Essa internação prevista, na prática das precaríssimas instituições públicas do Estado do Rio de Janeiro responsáveis por cuidar de menores infratores, significa que o menor, em poucos meses (ou semanas, até mesmo dias...), será recolocado em liberdade. O mesmo acontece quando ele atinge 18 anos, a maioridade. E isso sem qualquer esforço mais sério de reeducação social ou reintegração à comunidade e à família (isso quando o menor ainda tem família...). Ok, há instituições, como o Degase, que investem nessa recuperação do menor infrator. Mas, via de regra, são exceções. E que conseguem resultados com apenas uma minoria dos infratores menores.

Assim, por exemplo, se um menor de 17 anos e 9 meses de idade cometer um assassinato com requintes de crueldade, ele estará em liberdade em 3 meses, ao completar 18 anos. E isso não é apenas uma hipótese, situações como essa já ocorreram dezenas de vezes.

Por tudo isso, o menor tem uma grande “vantagem” para o tráfico de drogas: ele pode cometer crimes de todo o tipo e, se for preso, logo estará livre para reintegrar a quadrilha para a qual “trabalhava”. 

O menor dispõe de uma certa impunidade para cometer crimes. Não precisa se esconder como um adulto que já passou pela cadeia ou que já está com mandado de prisão decretado. Além disso, o menor pode disfarçar-se mais facilmente, passar-se por um adolescente normal – usando, por exemplo, uma mochila com livros da escola e roupas típicas de um estudante de favela, confundindo-se facilmente com centenas de outros jovens que entram e saem da favela diariamente para estudar.

Outra vantagem para o tráfico do uso de menores é a desmoralização, o enfraquecimento da ação policial. Rapidamente, os policiais militares aprendem que prender um menor é uma luta inglória. Os menores infratores mais “espertos” jogam literalmente na cara dos PMs que não adianta nada sua apreensão, pois logo ele estará de volta à “atividade”. Além disso, o PM pensa duas vezes antes de cometer algum ato mais “duro” contra um menor, pois a cobrança social e legal poderá ser bem maior. E não estou falando necessariamente em coisas ilegais. Algemar um menor, por exemplo, pode ser visto pela comunidade e pela imprensa como um excesso do uso da força pela autoridade policial. Atirar num menor, em legítima defesa, pode ser uma coisa complicadíssima para um um policial.

Os traficantes usam esse contexto como reforço de seu discurso de atração de menores para o tráfico. Dizem coisas como “vem tranquilo, você não pode ser preso, e ser for apreendido, volta logo pra rua”. Tenho uma conhecida que é pedagoga e dá aulas para escolas públicas em Belo Horizonte que atendem a comunidades faveladas. Ela me contou que é linguagem comum entre seus alunos, de 10, 11 anos, expressões como “sou dimenor, vou preso não, tia”. 

Em resumo, o menor virou um “café com leite” na briga entre traficantes e policiais. Com a diferença de que, se a PM pouco pode fazer contra os menores do trafico, o chefe da boca, ou um traficante rival, pode matar esse menor a qualquer momento, e continuará impune, até que morra ou seja preso na guerra das favelas.


O desafio da PM carioca


Montei esse gráfico com dados dos anos em que o secretário Beltrame esteve à frente da Segurança no governo Cabral.



São números impressionantes. As apreensões de menores têm aumentado a uma média de 25% ao ano. Em 2014, foram apreendidos, em média, 23 menores por dia no Estado do Rio de Janeiro, quase um por hora. E especificamente no Grande Rio (capital, Baixada, Grande Niterói), esse número certamente é bem maior, pois ali se concentra a grande maioria da atividade criminal do tráfico. 

Num levantamento interno que a Secretaria de Segurança fez em 2012, pudemos ver que a grande maioria das apreensões de menores estava relacionada ao tráfico de drogas. Infelizmente não me lembro o número, e não tenho mais o estudo. Vi uma notícia na internet contando que a Secretaria de Segurança divulgou que 41% das apreensões de menores em 2013 estavam relacionadas ao tráfico. Mas certamente esse número não contabiliza o fato de que menores realizando assaltos a mão armada provavelmente conseguiram sua arma através do tráfico.

Fora dos números, quando estava na Secretaria ouvi e vi coisas que não entram na estatística, mas que reforçam os problemas causados pelo tráfico à PM e à sociedade pelo uso de menores. 

Na UPP da Mangueira, ainda em seus primeiros meses, era comum menores passarem de bicicleta correndo e gritarem na cara dos policiais militares coisas como “Morra PM!” e “UPP vai morrer!”. Um garoto, que deveria ter entre 15 e 17 anos, chegou à ousadia de postar-se em frente a uma policial militar mulher, tirar o pau para fora e começar a se masturbar olhando de forma ostensiva e ameaçadora para ela, insinuando que poderia estuprá-la. Não é difícil imaginar o clima entre os PMs da UPP vivendo esse tipo de situação diariamente. 

Em outro caso mais extremo, lembro da chacina da Chatuba, distrito de Mesquita, num fim de semana no início de setembro de 2012, quando seis adolescentes que cruzaram um atalho no meio do mato para chegar a uma cachoeira em terras do Exército acabaram inadvertidamente passando pelo “território” de uma quadrilha de traficantes. Para piorar, um deles ouvia, ao celular, um funk proibidão de um grupo rival dos donos do “território”. Os seis adolescentes, que apesar do funk no celular não tinham qualquer atividade criminal, eram estudantes entre 14 e 17 anos. Foram trucidados, ou seja, mortos com tortura cruel. Um deles teve o pênis cortado do corpo. 

Vejam essa foto (que resgatei no site do jornal “Extra”) dos adolescentes trucidados, vítimas de outros menores, que o tráfico transformou em monstros.



Quem cometeu essa atrocidade, a polícia descobriu depois, foi um pequeno bando de traficantes com idades entre os 14 e 19 anos. O chefe do grupo, que era gerente da boca de fumo, tinha 16 anos e andava com um fuzil automático. 

Essa situação representa um grande desafio para a PM e a Secretaria de Segurança. O tráfico, que vinha perdendo terrenos, homens, armas, drogas e poder à medida que as UPPs foram avançando, vem recorrendo cada vez mais a uma arma contra a qual os policiais pouco podem fazer. E a sociedade pouco ajuda, a Justiça não ajuda, as leis não ajudam. A sociedade do asfalto só quer segurança, quer que não haja mais crimes, quer pode sair e chegar em casa a qualquer hora do dia sem medo de ser assaltado. Mas não gosta de ler notícias de crimes nas páginas do jornais e se envolver muito com o tema, que é realmente bem pesado.

Nesse contexto, que obriga a PM a enxugar gelo na luta contra o tráfico, frustrando suas estratégias, o secretário Beltrame, corajosamente, tocou na ferida e virou defensor da redução da maioridade para 16 anos.

Mas será essa a solução?


Contra a maioridade penal aos 16 


A proposta de redução da maioridade penal para 16 anos mobilizou rapidamente entidades sociais e políticas as mais variadas que se posicionaram contra qualquer alteração na lei da maioridade penal. OAB, Igreja Católica, partidos de esquerda, políticos liberais, a lista é grande. E a maioria de seus argumentos são tão válidos quanto os do secretário Beltrame. 

Um dos argumentos mais usados contra a redução da maioridade penal é o que eu menos gosto. O que diz que, em vez de reduzir a maioridade penal, deveríamos é investir em educação, como forma de afastar nossas crianças do crime. Me desculpem, mas isso é mera retórica, e ainda por cima reducionista da tragédia social que vivem as crianças e adolescentes em favelas. Claro que devemos investir mais em educação, já deveríamos – União, estados e municípios – ter começado a fazer isso há muito tempo. Para mim, é uma das grandes falhas do PT no governo federal, mas os governos estaduais e municipais, de todos os partidos, têm uma parcela enorme de culpa nisso, talvez até maior do que o governo federal. 

Só que o investimento em educação não resolve nada a curto prazo. E, no caso do Rio de Janeiro, de pouco adianta investir em educação e deixar as crianças e adolescentes convivendo com a ditadura do tráfico nas favelas onde moram. Favelas que deveriam ser transformadas pela Prefeitura em bairros populares – mas nosso prefeito e seus secretários nunca colocaram qualquer prioridade de seus dois mandatos em melhorar as favelas. Sim, há muitas escolas municipais que atendem às crianças das favelas, e postos de saúde. Há também um esforço, muito modesto, mas real, da Comlurb em recolher regularmente o lixo de algumas favelas. E a Prefeitura complementa o salário dos policiais que atuam nas UPPs, como um estímulo a mais para a tarefa. Mas é pouco.

Aqui, um parênteses. No programa de governo do prefeito Eduardo Paes para seu segundo mandato (2013-2016) não se encontra qualquer referência à urbanização de favelas. Há uns poucos itens diretamente dirigidos às favelas, no campo da habitação, de acordo com um levantamento feito pelo “Globo” em outubro de 2012: 


“Construir mais 50 mil casas populares em parceria com o setor privado e esferas do governo, e destinar um mínimo de 30% delas para a faixa de zero a três salários mínimos; Retirar todas as famílias das áreas de alto risco; Implantar UPP Social em todas as áreas pacificadas; Reduzir em 5% áreas ocupadas por favelas”. 

Ora, 50 mil casas populares para uma população estimada em um milhão e meio de favelados é uma ação, no mínimo, modestíssima. Reduzir em 5% as áreas ocupadas por favelas denota uma preocupação política em diminuir essas comunidades, sem qualquer referência a transformá-las em bairros de verdade. Até hoje, os moradores das favelas em pacificação se perguntam o que exatamente seria essa UPP Social... Ninguém sabe responder, porque ninguém viu, ainda não aconteceu, apesar de a Prefeitura ter criado no Instituto Pereira Passos o programa UPP Social.

Fecha parênteses.


Outro argumento contra a redução da maioridade, entretanto, é bastante real. A medida jogaria menores de 16 e 17 anos dentro da tragédia de nossas prisões e presídios, muitas vezes dominados pelos traficantes, onde ninguém se regenera, quem entra lá bandido, sai mais bandido do que era. Num artigo de um juiz mineiro disponível na internet (territoriopress.com.br/7130/reducao-da-maioridade-penal-na-visao-humanistica-de-um-juiz/), aliás, um bom artigo, que vale a leitura, vejam o que ele diz de sua experiência como magistrado, lidando com criminosos:


“Estamos prestes a atingir a inacreditável marca de meio milhão de encarcerados e nada, absolutamente nenhum dado, nenhuma estatística demonstra que prisão é elemento que desestimule a reincidência penal. O percentual de reincidentes enclausurados, hoje, gira em torno de 42%. Eu faço inspeções carcerárias em bases mensais e posso dizer: não há espaço para o arrependimento no sistema convencional, mas para a revolta e para o ócio criativo (no sentido mais negativo que a expressão possa envergar).”

Nosso sistema prisional é outra tragédia social. E reduzir a maioridade penal é, efetivamente, jogar esses jovens infratores nos depósitos de adultos que são nossos presídios, onde, repito, quem entra bandido costuma sair pior. É isso que queremos? 

Aí tocamos noutra ferida aberta, que é nosso sistema prisional. Caramba, é um horror, que a cidade do asfalto prefere não encarar de frente, deixa para as páginas de polícia dos jornais populares, que a classe média da Zona Sul e da Barra não compra, apenas olha com desdém e “nojo” suas manchetes penduradas na banca de jornal. Esse papo de sistema prisional não dá voto; não entra na plataforma de nenhum candidato a governador ou a presidente um programa sério de reformulação de nossos presídios. Que custam dinheiro para a sociedade, pois damos alimentação, cuidados médicos, luz, água, manutenção predial, sem um retorno social. A única vantagem é o afastamento desses seres humanos do restante da sociedade, como forma de nos proteger de bandidos e facínoras. Programas de reabilitação de presos são pífios. E, depois de cumprir pena de alguns anos, o preso muitas vezes deixa a prisão e volta para o crime. Ou seja, dinheiro público jogado fora, usado de forma paliativa, sem configurar-se uma solução.

Mas esse argumento do sistema prisional é válido. Realmente, reduzindo a maioridade para 16 anos vamos jogar jovens adolescentes no meio do horror, piorando as possibilidades de recuperação desse jovem para a sociedade.

Outro argumento que ouvi é político: a proposta de redução da maioridade penal reforça um viés conservador e militarista da sociedade. “Leis como essa satisfazem uma certa classe média e deixam os políticos bem na foto, desobrigados a cuidar da questão de base, que é o investimento sério nas zonas degradadas, educação de base etc.”, me escreveu um grande amigo jornalista. E é fato. Os Bolsonaros da vida, que acreditam que progresso social só acontece através da repressão, de ditaduras militares, adoram e estimulam propostas como essa. Ou seja, é uma proposta que se transforma facilmente em munição para a extrema direita.

Outro argumento que ouvi: “Depois de reduzir a maioridade penal para 16 anos, vão querer reduzir para 14 anos, e depois para 12 anos...”. Não tenho a menor dúvida disso, bastará a imprensa noticiar o primeiro crime bárbaro cometido por um adolescente com menos de 16 anos para a pressão por uma redução ainda maior da maioridade penal surgir com força. Nós brasileiros temos o costume de querer transformar tudo em lei, para sacramentar nossas crenças, formalizando o que acreditamos. Sem se preocupar muito se a lei vai virar letra morta...


O X do problema


Do outro lado, há um argumento que me parece pertinente. Na prática, como grande resultado social de uma redução da maioridade penal para 16 anos, ela vai ajudar principalmente as polícias, que terão um mecanismo legal para retirar das ruas esses jovens criminosos. E, ao mesmo tempo, desestimular o uso desses jovens por traficantes, enfraquecendo os criminosos em sua luta contra a sociedade. Nossa segurança enquanto classe média do asfalto, e a segurança das próprias comunidades faveladas que convivem com a violência do tráfico e da PM, depende do sucesso dessa guerra policial ao tráfico. O que puder ser feito para ajudar as polícias, deve ser feito. 

Porém, essa é a única vantagem que vejo na redução da maioridade penal. Com uma desvantagem intrínseca: nosso sistema de leis, nossa justiça lenta, morosa e facilmente corruptível e nosso sistema prisional não contribuem nem para recuperar criminosos, nem para impedir que infratores, menores ou não, voltem logo para o crime nas ruas. Certamente a redução da maioridade daria uma vantagem “logística” imediata às polícias na sua luta inglória contra o crime. Mas poderia ser uma vantagem transitória, temporária, ilusória... porque o buraco é muito mais embaixo.

Há pouco mais de um ano, tive a oportunidade de entrevistar o ministro da Justiça da Grã-Bretanha, em passagem pelo Rio. Contei a ele sobre essa discussão da maioridade penal no Brasil e perguntei como era na Grã-Bretanha. Para minha surpresa, ele me respondeu: “Nossa maioridade penal é a partir dos 10 anos de idade”. Meu mundo caiu... 10 anos?? Ele me confirmou. Mas em seguida ressalvou que, na prática, não tem nenhuma criança de 10, 11 anos cumprindo pena, a não ser em casos muito excepcionais – como o de um garoto de 10 anos ter cometido um assassinato, coisa raríssima. Me explicou que lá os juízes têm muita autonomia na aplicação e interpretação das leis e, na maioria dos casos de menores infratores, os juízes preferem dar penas alternativas (como serviços comunitários) ou encaminham para instituições de reabilitação, em vez de condenar os jovens a cumprir pena numa prisão comum, junto a adultos. Ou seja, prevalece o bom senso, embora a lei exista – e existe desde os tempos do Rei Arthur, ninguém lá se preocupa em mudar isso.

Claro, a realidade britânica é completamente diferente da nossa. Duvido que as prisões lá sejam tão horríveis quanto as nossas. E tendo a crer que as instituições de reabilitação sejam bem melhores que as nossas. E lá eles não têm traficantes recrutando menores na escala que temos aqui no Rio.

Aqui, o que temos nessa história da redução da maioridade penal é um problema social sério: o crescimento absurdo de menores infratores, boa parte deles atuando no tráfico de drogas e se transformando em monstros juvenis, com uma arma na mão, muito crack, cocaína e cachaça na cabeça e uma vida desestruturada por trás. Isso é uma tragédia que a sociedade precisa encarar.

A solução é a redução da maioridade penal? No início, eu achava que poderia ser uma saída. Hoje, vejo como uma solução paliativa, que certamente vai ajudar a polícia num primeiro momento, mas não resolveria o problema. E teria o efeito colateral de acelerar a formação de bandidos, através da colocação de jovens para cumprir penas junto com a bandidagem mais pesada dentro dos presídios – que têm um enorme potencial como escola de crime. 

Ao mesmo tempo, não dá para deixar um facínora de 16 anos à solta, pois ele vai voltar a matar. E deixar como está, ele indo em cana e sendo solto para matar de novo, é também inadmissível.

Penso que a solução tem que ser mais elaborada, e não é nem 8, nem 80. Requer uma discussão da sociedade – uma sociedade que não está acostumada a discutir, que delega isso a seus políticos. Difícil, né? Mas necessário. 

Acho que deveríamos pensar em criar um regime especial para menores infratores, de qualquer idade, que previsse um tempo mínimo de reabilitação – e teríamos que ter e criar instituições sérias de reabilitação – que não permitisse que o menor saísse automaticamente às ruas quando completasse 18 anos, mas somente quando houvesse uma avaliação de que o risco que ele representa para a sociedade foi bastante minimizado. 

Também precisamos, para ontem, transformar nossas favelas em bairros populares, dando condições minimamente dignas de vida a 1,5 milhão de cariocas. O que implica em escolas, opções de esportes e lazer e uma vida mais saudável para nossos jovens de favelas. E precisaríamos de crescimento econômico constante, para que esse jovem, quando começasse a tornar-se adulto, tivesse perspectiva de trabalho e de crescimento profissional.

Utópico? Talvez, mas a filosofia nos ensina que a Utopia tem uma função, que é nos dar o norte da coisa, nos indicar o caminho a seguir. Quanto mais construímos a utopia, mas fazemos no sentido de melhorar. Atingir a utopia não é o objetivo, isso é utópico; caminhar para ela é que gera desenvolvimento na direção certa. É pra isso que serve a utopia, para nos dar a direção.

E acho que esse deve ser o caminho. Não dá para deixar menores infratores à solta. E também não dá para jogá-los nos depósitos de criminosos adultos. E precisamos investir em reabilitação, resgatar esses jovens para a sociedade, dar-lhes uma chance de serem felizes. 

A premência do curto prazo é que é um grande problema. Nas três horas que demorei para escrever e aprimorar esse artigo, pelo menos um menor infrator deve ter sido apreendido, apenas no Estado do Rio. E possivelmente outro menor foi aliciado pelo tráfico em alguma favela da cidade. Enquanto isso, o Congresso se encaminha para reduzir a maioridade penal. E, depois que fizer isso, ninguém vai parar para discutir o sistema prisional, a urbanização das favelas etc.

A maioridade penal aos 16 anos não resolve o problema. Mas o problema existe e a sociedade precisa discuti-lo e achar uma solução. É simplório pensar que apenas exigir mais educação resolve tudo. Cada vez que um jovem pega numa arma para cometer um crime, uma tragédia acontece. É o fim da picada deixarmos isso acontecer, da mesma forma que é o fim da picada a população carioca de todas as classes não se mexer para exigir a urbanização de todas as nossas favelas, começando já. Para dar uma vida digna a 1,5 milhão de cariocas, reduzir a sujeira da cidade e acabar com a facilidade para os traficantes, que usam a ausência do poder público nas favelas para construir, lá, suas fortalezas do crime.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Do Face para o blog

Um colega me sugeriu, e aí está uma pensata que postei na minha página do Facebook, sobre as manifestações anti-Dilma e anti-PT de ontem, domingo, 15 de março de 2015. Mais do que afirmações categóricas ou absolutas, são pontos para se pensar e discutir:

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Alguns pontos.

• Números de multidão sempre são polêmicos e discutíveis, ainda mais quando se tem forte interesse político envolvido. De qualquer maneira, se foram 2 milhões ou 200 mil que foram às ruas contra o governo, não importa, é expressivo. Mas é preciso lembrar que 54 milhões e 500 mil brasileiros votaram em Dilma Rousseff para presidente. Isso é muito expressivo.

• De maneira geral, dá para dizer que as manifestações foram 99% pacíficas. Que ótimo! Palmas para a oposição, e palmas para a esquerda que deixou a oposição se manifestar sem criar provocações. E cadeia para imbecis como os que foram para a manifestação em São Paulo levando foguetes de rojão e soco inglês.

• Alguns na minha timeline reclamaram que ministros disseram que as manifestações foram feitas pela classe média, como que querendo dizer que "classe média não é povo". Se realmente algum ministro falou algo nesse sentido, falou besteira. E não duvido que algum deles tenha dito algo assim. Classe média é parte do povo, claro. Mas não é todo o povo. O povo é o conjunto da classe média, das classes ricas, e das classes mais pobres. As manifestações, tudo indica, foram claramente das classes médias das grandes cidades. Que são parte do povo brasileiro, uma parte bastante presente entre os eleitores de Aécio Neves na eleição para presidente. Não são piores nem melhores que os mais pobres. São uma classe, uma parte do povo. Que tem seus pontos de vista, suas qualidades, suas razões, seus defeitos, seus preconceitos. Já tá na hora de rever essa história de que quem é das classes mais altas é ruim. Pobre também tem suas qualidades e seus defeitos. Classe média urbana é povo, povo brasileiro. Mas o povo não é só a classe média urbana. E ponto.

• Do pouco que vi, nossa grande imprensa – O Globo, TV Globo, GloboNews, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo – politizou a cobertura, alguns mais, outros menos. Ouvi hoje entre meio dia e 13h quase uma hora de noticiário da CBN, com informes ao vivo de vários estados, e não estava politizado, estava jornalístico, informativo. Mas quando sites de jornais e de notícias estampam manchetes do tipo "Brasileiros vão às ruas em todo o país...", isso é notícia enviesada, informação manipulada para impor uma versão da história ao leitor. 2 milhões é 1% da população brasileira. Quando se fala em "brasileiros", se dá a entender que é o conjunto da população, todo o seu conjunto. Omite, por exemplo, que a grande maioria dos 54,5 milhões de eleitores de Dilma não foram às ruas protestar contra ela. Aliás, se 2 milhões foram às ruas, eles representam tão somente uns 4% dos 51 milhões de eleitores de Aécio Neves.

• As manifestações foram contra o governo Dilma, ok. Mas foi também um protesto de brasileiros que não votaram em Dilma e não aceitam o resultado da eleição. Ok. Mas o que propõem para resolver os problemas do país? Pelo que se vê nas fotos e nas notícias, propõem impeachment, renúncia de Dilma, a deposição da presidenta e de seu governo à força pelos militares, tal como em 1964. Espelham, na prática, a pobreza de nossos políticos da oposição, que não tem proposta alternativa e só concebem mudança através de golpe, de derrubar o governo. Caem na armadilha que o PT e a esquerda já caíram nos anos 90, quando gritavam "Fora FHC!". E que também foi repetida pelos manifestantes de 2013 que berraram "Fora Cabral!" aqui no Rio de Janeiro. Trata-se de uma análise política rasteira, onde a única opção viável é derrubar o governo, vociferando contra ele aos quatro ventos, com panela ou com posts agressivos nas redes sociais, para desgastá-lo, fritá-lo, enfraquecê-lo lentamente para, quando estiver suficientemente fraco, se dar o golpe que vai tirá-lo do poder. Opção fora da lei, fora da democracia, que desrespeita o voto da maioria. Não à toa, nas vésperas das manifestações, Aécio Neves declarou em alto e bom som para a imprensa repercutir que o impeachment não faz parte da agenda do PSDB. Ele pode ser um político cretino ou falso, mas sabe a importância de se respeitar a democracia, a mesma que lhe garantiu 8 anos de mandato, eleito democraticamente. A maioria dos meus amigos no Face que apoiaram ou participaram das passeatas não defende golpe de estado, ou o impeachment. Mas a visão geral do noticiário, das fotos e das imagens de TV, passa a sensação clara de que foram manifestações pela derrubada do governo, de um jeito ou de outro.

• Não são só os políticos da situação que são ruins. Os da oposição são tão ruins quanto os do governo. O Brasil já de algum tempo carece de uma oposição mais eficiente, com propostas concretas viáveis e inteligentes. E o Brasil precisa de oposição, sempre, isso é parte da democracia, porque a unanimidade, já repetia Nelson Rodrigues, é idiota. Mas oposição é apresentar propostas e sensibilizar a opinião pública em favor delas, exercendo assim pressão legítima sobre o governo. O que a oposição tem a propor em relação aos juros altos? À necessidade de reajustar as tarifas elétricas? À forma de enfrentarmos a forte alta do dólar? Para políticas que reduzam o aumento do desemprego que deve vir por aí? Ao problema das empreiteiras, que roubaram, como sempre soubemos, precisam prestar contras à sociedade sobre a corrupção que vêm alimentando desde os anos 60, mas que ainda são essenciais ao país para tocar as obras de infraestrutura que tanto precisamos?

• No meio disso tudo, fica cada vez mais clara a necessidade de uma reforma política. Precisamos de novas regras para a existência de partidos e a atuação dos políticos. Inclusive que facilitem o julgamento e a exclusão de políticos corruptos ou fascistas. O que a oposição tem a dizer sobre isso?

• Queridos amigos e amigas que vibraram com as manifestações de hoje, acho que vocês deveriam pensar em estratégias que pressionem o governo a mudar naquilo que vocês acham que ele deve mudar, ao invés de ficar alimentando, abertamente ou pela confortável omissão, soluções golpistas que a extrema-direita (e também a extrema-esquerda) adoram. E não apenas pensar, mas também cobrar dos políticos que vocês apoiam iniciativas e ideias de oposição, que não sejam apenas esforços para destruir o governo e, por tabela, a democracia. Cobrar propostas alternativas, que sejam colocadas numa mesa, que possam ser negociadas. Quando a proposta é boa e legítima, é mais fácil conseguir apoio da população. Mas primeiro, é preciso ter propostas.

É a minha opinião.


Em tempo: há mais de 15 anos que não sou mais petista, continuo de esquerda democrática, mas sem me identificar com nenhum dos partidos que temos; acredito fortemente na democracia participativa, na qual o povo acompanha o trabalho dos parlamentares e participa da vida política através de discussões e sugestões; votei em Dilma Rousseff e não me arrependo, as outras opções eram piores, mas não estou muito satisfeito com o governo dela e não sou fã dela como presidente; e estou muito preocupado com o extremismo de direita.


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Acrescento dois comentários que coloquei em resposta a alguns amigos, que complementam meu pensamento.

• ... tem uma regra básica de psicologia, que a propaganda usa, e o jornalismo deveria usar mais, que diz mais ou menos o seguinte: quando o emocional impera, o racional se perde. O debate está totalmente emocional. Governo e oposição deveriam sentar à mesa e discutir, juntos, soluções para o país. Alguns consensos podem sair disso. Estamos muito viciados em tratar a política como time de futebol, sem racionalismo, só com paixão, emoção. Num clima dividido como esse não seria má ideia o governo tomar a iniciativa e chamar a oposição para se sentar à mesa para discutir alguns temas chave da economia e a reforma política. Pode não dar em nada, mas esse é o caminho. Mas fica um querendo puxar o tapete do outro o tempo inteiro, aí fica difícil...

• ... o índice de desaprovação do governo está lá embaixo, como já esteve nas manifestações de 2013. Eu desaprovo muita coisa, mas não me arrependo do voto, era dos males o menor diante das opções que eu tinha. E sei que tem muita gente que pensa como eu. Mas pesquisa de opinião é uma coisa, voto em eleição, formalizado e contado direitinho, após alguns meses de debate/propaganda eleitoral, é outra. Não estamos no parlamentarismo. Nossa democracia ainda é muito nova, os políticos são ruins, falta à oposição e ao governo prática de discussão política, sabem brigar, mas não sabem discutir.